Da Arte de Cuspir para Cima


ou: Breve tratado sobre a gratidão dos filhos e outras fábulas modernas

Há uma sabedoria antiga, daquelas que os avós repetiam à beira da lareira, antes de a lareira ser substituída pela televisão, e os avós pelas redes sociais, que diz: Filho és, pai serás. Dito assim, quase parece uma profecia, uma advertência solene, quase uma maldição. A modernidade, que tem para com a sabedoria popular o mesmo respeito que um touro tem para com uma loja de loiça fina, tratou de a arquivar algures entre as receitas de cozinha da bisavó e os conselhos sobre como poupar para a reforma.

O resultado está à vista, ou melhor, está à vista de quem quiser ver, o que não é bem a mesma coisa.

Vivemos numa época extraordinária, uma época em que se pode ser criado, alimentado, amado com uma dedicação que roça o transtorno obsessivo, defendido como território ocupado, e no final, no final glorioso e cinematográfico, virar costas com a mesma ligeireza de quem abandona um hotel de três estrelas depois de uma estadia que não correspondeu às expectativas. Sem gorjeta. Sem agradecimento. Sem sequer o trabalho de fechar a porta. A porta fica entreaberta, porque fechar a porta seria um gesto definitivo, e os definitivos são caros.

Permita-se-me apresentar o fenómeno.

O filho, ou a filha, os tempos modernos exigem igualdade até no desastre, cresce. Isto, em si mesmo, é um milagre diário que os pais observam com aquela mistura de orgulho e terror que só quem tem filhos conhece. Cresce, aprende, tropeça, é apanhado antes de partir os joelhos, é consolado antes de acabar as lágrimas, é incentivado antes de perder a vontade. Os pais entregam o melhor de si, o tempo, o sono, a saúde, e os sonhos que foram adiando para ficarem à espera de um depois que nunca chega, porque os filhos não dão tréguas e os pais não pedem nem querem.

E um dia, ah esse dia, aparece alguém, pode ser um namorado, uma namorada, um grupo de amigos com ideias, uma seita ou um algoritmo benevolente que lhes explica quem são e quem deveriam ser. Essa entidade exterior, essa voz nova e sedutora, começa a trabalhar, devagar, com paciência de ourives, a sussurrar que os pais são isto, que a família é aquilo, que os valores com que foram criados são antiquados, tóxicos, opressivos.

E o filho, que foi criado exactamente para pensar por si próprio, ironia que escapa a todos, entrega o pensamento, de mão beijada, com laço.

Seria desonesto ignorar que existem pais que não deviam ser pais.

E não são poucos. Existem histórias verdadeiramente difíceis, infâncias sem amparo, sem afecto, sem a segurança mínima a que qualquer criança tem direito. Não há romantismo possível sobre isso, nem deve haver. Mas há uma ironia cruel que importa nomear, são precisamente esses filhos, os que teriam todas as razões do mundo para a revolta, os que frequentemente escolhem não se revoltar. Cresceram a perceber, sem que ninguém lhes explicasse, que os pais também são pessoas incompletas e assustadas. Seguiram a vida sem impor a sua dor a quem os rodeia.

São quase sempre os outros. Os que tiveram tudo, o amor, a segurança, o sacrifício silencioso, que um dia descobrem o vocabulário do trauma e se instalam nele com uma comodidade suspeita. Porque é mais fácil ser vítima de quem te amou do que ser grato por isso. A gratidão exige humildade. A vitimização exige apenas uma boa narrativa e alguém disposto a ouvi-la.

E de narrativas, hoje, não há falta.

A questão, claro, não é nova.

A questão é tão velha como o mundo e foi tratada por Shakespeare, pela Bíblia, pela mitologia grega e por inúmeras sogras com mais perspicácia do que lhes é habitualmente reconhecida. O que muda é a velocidade, o que muda é a desfaçatez.

Antigamente, nesse antigamente vago e conveniente que serve para tudo, havia pelo menos o pudor da ingratidão. Havia a consciência de que se estava a fazer uma coisa que não era bonita. Havia o rubor. Hoje não. Hoje a ingratidão vem embrulhada em papel de psicologia, vem com vocabulário, vem explicada, justificada, validada por pessoas que nunca conheceram os pais em causa mas que têm opinião formada sobre eles, firme como betão.

Não te percebem; Estão a tentar controlar-te; Tens de estabelecer limites; Tens de te distanciar.

E o filho distancia-se. Com convicção. Com a solenidade de quem pratica um acto de coragem. Com a paz de espírito de quem fez as pazes com o seu passado, leia-se, de quem delegou o passado a um terceiro que lho reescreveu a preço módico.

Os pais ficam. Ficam com a mesa posta e a comida a arrefecer, com o telefone na mão, com aquela expressão que não tem nome em nenhuma língua, mas que todos os pais do mundo reconhecem, a de quem não percebe o que fez de errado, a de quem passa as noites a tentar descobrir, e que nunca há-de encontrar resposta satisfatória, a verdade, a verdade simples e brutal, não há pai sem erro, nem amor sem falha. Fizeram o que sabiam. Deram o que tinham, foi com isso, com esse esforço imperfeito e devotado, que o filho foi construído, que o filho cresceu, que o filho partiu.

Há uma outra sabedoria popular que diz para não cuspir no prato em que se come.

É uma imagem pouco elegante, concordo, não tem sofisticação nem subtileza, mas vai directa ao assunto, sem rodeios, sem a gentileza de fingir que estamos a falar de outra coisa. É uma imagem de gente que sabia o que era passar fome, de gente para quem o prato não era metáfora, era prato, com sopa dentro.

Mas a deselegância da imagem é a sua força. Vai directa ao assunto, sem rodeios, sem eufemismos, sem a gentileza de fingir que estamos a falar de outra coisa.

Estamos a falar de quem recebe tudo e devolve nada, ou pior, devolve desdém, devolve indiferença estudada, devolve a frieza específica de quem aprendeu que os afectos são negociáveis e que a lealdade é uma fraqueza de que convém desintoxicar-se.

E os pais, porque são pais, e é assim que funciona, é assim que sempre funcionou, continuam a oferecer o prato, mesmo com cuspo, continuam a telefonar, continuam a oferecer o carinho, continuam a desculpar, continuam a inventar desculpas para o filho, porque é menos doloroso pensar que se falhou do que aceitar que se foi traído por quem se amou sem reservas

O que me revolta, e que me perdoe o leitor a franqueza, não é a ingratidão em si.

A ingratidão é um defeito humano como qualquer outro, documentado, esperado, até compreensível, dentro dos limites que a benevolência impõe.

O que me revolta é a facilidade com que se deixam conduzir. A velocidade com que abandonam o seu próprio julgamento em favor do julgamento de quem os conhece há três dias e já tem diagnóstico feito sobre a família toda, a disposição quase entusiástica para acreditar no pior, em versões dos pais que os próprios pais não reconheceriam se lhes fossem mostradas.

É como se houvesse um prazer secreto nisso, uma libertação conveniente, uma absolvição de bolso: Agora que sei que os meus pais são assim, posso fazer o que me apetecer sem culpa, a culpa é deles, foi sempre deles. Eu sou a vítima. Tenho testemunhas.

E as testemunhas assentem, porque as testemunhas foram escolhidas exactamente para isso.

Devo, por justiça, fazer uma excepção.

Há filhos que não são assim. Há filhos que carregam os pais com a mesma devoção com que foram carregados, que telefonam sem razão aparente, que aparecem sem ser chamados, que se lembram das datas, das preferências e dos medos antigos. Que envelhecem ao lado dos pais em vez de os deixar envelhecer sozinhos. Para esses, que existem, e não são poucos, o provérbio não é advertência, é simplesmente a descrição de uma vida bem vivida. São eles, afinal, a prova de que é possível, de que não é inevitável, de que a ingratidão é uma escolha, não um destino.

O que torna o resto ainda mais difícil de explicar.

Termino como comecei, com um provérbio.

Filho és, pai serás.

Não é uma ameaça, nunca foi uma ameaça, embora facilmente possa ser lida como tal por quem tem a consciência a trabalhar. É apenas uma observação sobre o tempo, sobre o facto de que o tempo passa, as posições invertem-se, e o que hoje se semeia amanhã colhe-se.

Chegará um dia, não desejo que chegue, genuinamente não desejo, em que esse filho olha para o seu filho e, nesse dia, compreenderá. Finalmente, embora tarde, compreenderá. Nesse dia, quem tiver pais vivos que os vá abraçar. Os outros que mantenham a esperança de que os filhos serão mais clementes do que eles foram, ou que aprendam, tarde, mas ainda a tempo, a não cuspir no prato em que comeram.

Há mágoas que não têm remédio. Só testemunho.

Jacinto Furtado

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *