Não procuro ser uma convencer. Seria colonizar e isso não sou. Sou contadora de histórias, tendo por base histórias reais.
Ontem foi um dia histórico nas Nações Unidas. Uma organização pouco unida. Em Moçambique – um país de onde saíram tantos homens, mulheres e crianças, feitos escravos por uma simples razão: tinham a cor da pele “errada”, a base da teoria do racismo que levou à Escravidão de mais de vinte milhões de seres humanos, trabalhei com orgulho para esta organização, hoje tão pouco relevante para o estado do mundo, ainda sob a batuta de Kofi Annan.
Ontem fez-se história que deixaria este homem e Mandela, Biko, Amílcar Cabral, N’Krumah, Machel e tantos outros políticos, músicos, poetas, escritores, cientistas, médicos, orgulhosos da sua cor de pele preta, da sua raiz africana, da sua ancestralidade.
Somos quase oito mil milhões de humanos no planeta, debaixo de bandeiras em quase duzentos países. Para o bem e para o mal esta Organização de Nações ontem decidiu estar do lado certo da História da Humanidade, perante uma proposta apresentada pelo Gana.
A Escravatura foi declarada o “crime mais grave cometido contra a humanidade”. Para haver comércio, têm de existir dois factores básicos na cadeia: um comprador e um vendedor. Ou um comprador com armas. Um comprador que em primeiro lugar invadiu e colonizou. Muitos desses homens, mulheres e crianças, Africanos, foram vendidos? Sim, alguns. A quem? Aos compradores. Qual a nacionalidade? Europeus. Portugueses, Britânicos, Espanhóis, Franceses, Italianos, Alemães, Belgas…
Muitos, muitos milhões foram raptados, capturados e levados pela força das armas, subjugados, separados, violados, transportados e transaccionados para todas as geografias do planeta. Mais de vinte milhões. Por quem? Por quem os invadiu, colonizou, tinha armas e barcos. Este foi o crime. O mais grave cometido contra a humanidade.
Os sistemas e instituições nascidos, como o capitalismo e o racismo, são o fruto deste comércio. Perduram e persistem até aos nossos dias na maioria das sociedades e estruturas europeias. São ainda hoje os países envolvidos neste comércio vergonhoso – que fez a estrutura da casa eurocêntrica – os beneficiários das infinitas riquezas produzidas pelos escravizados e tiradas de África, a partir deste comércio.
Só Portugal – não se sabe bem como, mas é quase anedótico – tendo começado o comércio, tendo governado metade do mundo, é o mais pobre de todos os países que do crime usaram e se beneficiaram. A proposta foi adoptada com 123 votos a favor e três contra – Estados Unidos da América, Israel e Argentina. Sem surpresas!
Cinquenta e dois países abstiveram-se, incluindo o Reino-Unido e os países membros da União Europeia desigual e desunida. Sem surpresas!
Num cenário de um crime pergunta-se em primeiro lugar : “cui bono”? Quem beneficia?
Siga-se o rasto do dinheiro. Há todo um arranha-céus de opulência e riqueza construído sobre a Escravatura. Cada piso continua sólido porque o prédio mantém o mesmo padrão, para que não venha a ruir.
Esta resolução começa por fazer um enorme serviço aos meus bisavós que nasceram escravos (não há muito tempo) de uma longa ascendência de escravizados, por quase quinhentos anos da História deste crime : o reconhecimento. Sabemos qual o crime, qual a mão que mandou matar, quem foram os assassinos, quais os beneficiários, como aconteceu o crime.
Enquanto portuguesa, tenho vergonha de nunca ter ouvido um governante português reconhecer e pedir desculpa pelo crime recém-passado. Tenho vergonha de não ter visto o voto português juntar-se aos países que adoptaram a proposta. Sabemos que lhes causa embaraço reconhecer o crime contra a humanidade. Ficam a parecer culpados… Ficariam, sim, a parecer melhores seres humanos.
Contudo, a história começa a mudar de voz. Há uma voz, um murmúrio, um clamor que se levanta, um tambor que rebenta, um choro que se propaga vindo das vozes atiradas ao fundo dos oceanos, caídas nos campos de algodão, tabaco, cana-de-açúcar, café, cacau, minas de ouro, diamantes e rubis a compor uma nova história. A proposta visa abrir caminho para mais justiça e cura.(?)
Pessoalmente só entendo esse caminho quando os africanos e filhos de África deixarem de se sentir devotos da santa Europa e de se comportarem como sofredores da síndrome da vítima que adora, bajula e aceita tudo do seu abusador. O passado começa a ser visto, falado, assumido.
Ninguém sabe o amanhã (além de sexta-feira, num mundo insano, que comete crimes arbitrariamente, aleatoriamente, sem razão aparente).
Anabela Ferreira


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