A data ficará, 12 de Abril de 2026. Viktor Orbán, o modelo, o manual, o homem que a direita europeia citava como prova de que se podia vencer sem ceder, perdeu com 38% dos votos contra 52%. Com 77% de participação. Com uma maioria de dois terços para Péter Magyar.
Dezasseis anos. É quanto custou uma asneira.
O próprio Orbán subiu ao palco e disse que o resultado era “claro” e “doloroso”. Para um homem que passou duas décadas a dobrar o Estado sobre si próprio, foi uma admissão invulgar. Ficará para a história exactamente por isso, porque foi forçado a dizê-lo em voz alta, ao microfone, diante dos apoiantes que ele próprio desiludiu primeiro.
Mas não nos enganemos sobre o que aconteceu. Não ganhou a democracia. A democracia resistiu o que é muito diferente, e muito menos confortável de celebrar.
Voltemos a 2011, Orbán tinha maioria de dois terços. A primeira coisa que fez foi usá-la para redesenhar as regras do jogo. Reduziu o parlamento de 386 para 199 lugares e cortou o mapa eleitoral à sua medida, os distritos da oposição ficaram maiores, precisavam de mais votos para eleger um deputado, os seus ficaram mais pequenos. Um estudo da época calculou que, com esse mapa, o Fidesz ganharia mesmo empatando no voto popular. Em 2022 ficou provado: 54% dos votos, 70% dos lugares.
Não é desfaçatez. É engenharia. É um homem que percebeu que é mais fácil mudar as regras do que jogar melhor.
E mesmo assim perdeu. Precisou de 77% de participação, um recorde desde a queda do comunismo em 1989, para que os votos fossem suficientes para vencer um sistema concebido para ser invencível.
Magyar chega ao poder com uma constituição que não é sua. Os juízes que vai encontrar foram nomeados por Orbán com mandatos que não terminam com o governo. A imprensa que vai precisar de regular é controlada por oligarcas que devem a sua fortuna a dezasseis anos de proximidade ao poder. Isto não se desfaz num mandato. Talvez não se desfaça em dois.
Percebo o alívio, o que não percebo é a euforia. Magyar não chegou de fora do sistema, chegou de dentro dele. Foi casado com a ministra da justiça de Orbán. O Tisza é conservador, é de direita, ganhou em parte pelos mesmos medos que o Fidesz sempre soube explorar. Há uma fábula sobre uma cigarra que, com inveja da formiga, votou no insecticida. Hoje os húngaros votaram numa nova marca, mas, mesmo assim, num insecticida.
Aqui em Portugal, alguém estará a ver este resultado e a tirar a conclusão de que o populismo tem prazo de validade, que o eleitorado acaba sempre por perceber. É uma leitura confortável, é também uma leitura perigosa.
André Ventura não é Orbán. Por enquanto. O que tem em comum com ele é o método, atacar os media, atacar os juízes, atacar as instituições, tudo o que um dia possa limitar o seu poder. A narrativa é a mesma, o sotaque é que é diferente, é português.
A diferença entre Portugal hoje e a Hungria de 2010 não é de natureza. É de tempo.
Os húngaros demoraram dezasseis anos a pagar a conta de uma maioria. Precisaram de 77% de participação para a conseguir fechar a porta que abriram e mesmo assim não sabem ao certo o que compraram em troca.
Portugal ainda está a tempo de não abrir essa porta.
Jacinto Furtado


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