A intervenção dos EUA na Venezuela não foi em defesa da democracia, foi apenas pilhagem

Não pode haver ilusão nem concessão. A intervenção dos Estados Unidos na Venezuela não tem rigorosamente nada a ver com reposição democrática, direitos humanos ou libertação de um povo oprimido. Essa narrativa já foi usada vezes suficientes, no Iraque, na Líbia, no Afeganistão, para sabermos reconhecer a farsa quando ela volta a ser encenada e posta em prática. O que está em curso é uma operação clássica de força imperial, despida de qualquer verniz moral credível. É uma operação conduzida por um homem cuja visão do mundo se resume a poder, ego e saque.

Donald Trump não fala nem age como um estadista, fala e age como um predador, é um Putin de pacotilha. As suas declarações recentes, arrogantes e triunfalistas, deixam claro que a Venezuela é vista como um território a capturar, não como uma nação soberana. Não teve sequer o pudor e a decência de esconder o seu principal objectivo, o petróleo, controlo geoestratégico e a costumeira demonstração de força bruta embrulhada em retórica de propaganda para consumo interno e para os aliados obedientes.

Que ninguém venha dizer que isto é para “salvar a democracia”. Nicolás Maduro não devia estar no poder há muito tempo, isso é evidente e não está tão pouco em discussão, mas uma coisa não legitima a outra. O derrube de um regime autoritário por uma potência estrangeira, à margem de todas as leis internacionais, não cria democracia nenhuma, cria dependência, caos e governos fantoches, sempre criou, sempre criará.

A própria oposição venezuelana é tratada como descartável por Washington. Quando serviu, foi exaltada, quando deixa de servir, é ignorada ou afastada. O episódio envolvendo María Corina Machado é apenas mais um exemplo de como os Estados Unidos não querem líderes venezuelanos fortes ou independentes, querem gestores obedientes, prontos a assinar contratos e a agradecer a “ajuda”.

Trump comporta-se como aquilo que diz combater. A sua política externa não difere, na essência, da de Putin, zonas de influência, desprezo pelo direito internacional, uso da força como linguagem principal e uma visão do mundo onde os países mais pequenos existem para ser usados. A diferença é apenas retórica e estética, o método é o mesmo. A Venezuela foi apenas o primeiro passo na incursão imperialista de Trump na América Latina.

A posição de Espanha, perante esta violação, merece ser sublinhada e aplaudida. Ao condenar a intervenção e recusar alinhar com a aventura americana, Madrid demonstrou que ainda há governos europeus capazes de dizer não quando a legalidade internacional é atropelada. Já Portugal, fiel ao seu papel histórico de vassalagem atlântica, escolheu a subserviência, aplaude, baixa a cabeça e espera migalhas, não surpreende, mas envergonha.

Hoje foi a Venezuela, amanhã será outro país qualquer, por exemplo Portugal, mais propriamente os Açores e a Base das Lages. Quem acha exagerado falar dos Açores como metáfora não percebe como funciona o imperialismo, começa sempre longe, em nome de grandes princípios, até ao dia em que deixa de ser abstracto. Governantes que trocam soberania e legalidade por aprovação externa não defendem o país administram-no e esse parece ser o caso dos governantes portugueses.

Este não é um debate entre apoiar Maduro ou apoiar Trump, essa dicotomia é uma armadilha. O que está em causa é algo mais simples, mais importante e muito mais grave, o direito dos povos à autodeterminação e o dever de rejeitar intervenções militares feitas à força do interesse económico e do narcisismo político e pessoal. Chamem-lhe o que quiserem, eu chamo-lhe o nome certo, não é libertação, é pilhagem.

Jacinto Furtado

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