Presidenciais de 2026: André Ventura perdeu – a luta continua. 

Relativamente aos resultados da segunda volta das eleições presidenciais, creio que se impõe assinalar os seguintes pontos:

Antes de mais, o candidato fascista André Ventura, ao contrário do que ele próprio, o Chega e a imprensa sua amiga vêm vindo a afirmar e a tentar fazer crer, perdeu em toda a linha. Desde logo, perdeu a eleição para o seu adversário, com menos de metade dos votos deste (1.729.371 contra 3.482.481).

Para além disso, perdeu em todos os distritos do país, incluindo aqueles em que havia vencido na primeira volta (como Madeira, Faro e Santarém). Mais significativo ainda, perdeu em 306 dos 308 concelhos, tendo apenas duas excepções (Elvas e São Vicente, na Madeira), quando, na primeira volta, tinha ganho em 80. André Ventura perdeu também, e de forma muito clara, mesmo nas zonas mais atingidas pelos temporais e onde a campanha de oportunismo, de demagogia e até chantagem por parte do candidato e da sua candidatura foi particularmente intensa, como, por exemplo, no distrito de Leiria.

De igual modo, na sua cruzada “contra o socialismo”, André Ventura, dos 2 milhões e 200 mil votos dos restantes candidatos da primeira volta, terá conseguido captar apenas menos de um quinto, ou seja, cerca de 400 mil. Finalmente, numa segunda volta com apenas um adversário (o que é muito diferente de uma eleição com 10 ou 15 candidaturas concorrentes), embora tenha alcançado uma percentagem ligeiramente superior (33,18% contra 31,79%), o certo é que obteve cerca de 300 mil votos a menos do que a AD nas últimas legislativas (2.008.437), falhando, por isso, também este seu proclamado objectivo.

Assim, a tese que vemos por aí a ser amplamente difundida e publicitada, segundo a qual o candidato fascista André Ventura teria afinal obtido um resultado “muito positivo”, afirmando-se como apregoado “líder da direita”, não passa de uma enorme patranha, que visa, precisamente, disfarçar e desvalorizar a estrondosa derrota por ele sofrida. Quanto a uma eventual “canibalização” do PSD pelo Chega, ela deve-se exclusivamente a Luís Montenegro e à sua política de aplicar, na prática governativa, o programa do Chega, e não às eleições.

Por outro lado, no que respeita a António José Seguro, claro vencedor destas eleições, importa desde logo reconhecer que teve, de facto, uma vitória muito expressiva, incluindo um número de votos superior, em termos absolutos, ao verificado em qualquer das anteriores eleições presidenciais. Foi, além disso, particularmente importante derrotar, e de forma tão significativa, o candidato e o golpe fascistas. Mas não se podem, desde logo, esquecer – e sobretudo os trabalhadores portugueses não as esquecerão certamente… – as posições assumidas pelo PS dirigido por António José Seguro aquando da Tróica, face às medidas terroristas por esta impostas, e às que o governo Coelho/Portas, indo além delas, tratou ainda de adoptar, designadamente em matéria de cortes de salários e pensões.

Acresce que uma eleição que contou com apoios expressos que vão de Cavaco Silva e Paulo Portas a Paulo Raimundo e José Manuel Pureza comporta necessariamente factores de divisão e de separação de águas que é impossível não virem a manifestar-se a prazo mais ou menos curto.

Finalmente, Seguro, já como Presidente eleito, começou mal ao tratar, no seu discurso de consagração, o fascista-mor não como um adversário derrotado, e cujas ideias e práticas importa manter derrotadas, mas como alguém com quem pretende contar no futuro. Ora, um fascista nunca é, nem quer ser, um democrata: pode perder os dentes, mas nunca por nunca perde os seus reais intentos.

A verdade é que, para quem não tem ilusões acerca das eleições e do que elas servem, ou não, para resolver os problemas do povo, a verdadeira “prova de fogo” começa agora mesmo. E começa, desde logo, com a posição (antes de mais política, mas também jurídico-constitucional) que o novo Presidente da República venha a assumir, no exercício das suas funções, relativamente a questões e medidas de enorme importância para o Povo português, para os seus interesses e para a Democracia.

Falo, nomeadamente, do sinistro pacote laboral apresentado e mantido pelo Governo; das averiguações preventivas e das medidas de reforma pró-policiais do processo penal já anunciadas, que o Executivo de Montenegro pretende pôr em marcha; do completo vergar do País aos ditames e às barbáries do imperialismo americano e do sionismo, como o genocídio em Gaza ou a voragem das guerras. Falo ainda da questão da imigração e da forma miserável, xenófoba e anti-constitucional como os imigrantes têm vindo a ser tratados, bem como dos problemas da Habitação, da Saúde e da Educação, com o crescente e propositado desmantelamento das políticas e dos serviços públicos e a entrega aos privados das suas “áreas de negócio” mais rentáveis.

É precisamente por tudo isso que temos de ter presente que, satisfeitos embora com este resultado e com a clara derrota do candidato fascista, agora, longe de pararmos ou de nos aquietarmos com isso, temos de nos mobilizar e organizar. Temos de prosseguir, nas fábricas e empresas, nos serviços, nos bairros, nas escolas e na rua, a luta em defesa de quem trabalha e de quem é mais pobre e vulnerável. Em defesa dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos. Contra os fascistas e as suas organizações e, desde logo, contra as suas milícias. Em prol de um País mais justo, mais desenvolvido e mais independente.

Pois, afinal, como sempre, é aí que o essencial das coisas se disputa e se decide…

António Garcia Pereira

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