O banditismo político anda à solta

Mário Jorge Neves (Foto FNAM)

O capitalismo internacional criou o neoliberalismo como uma ideologia fascizante dissimulada destinada a combater o Estado Social e os direitos sociais sem ter de recorrer a golpes de estado e à mobilização de tropas nas ruas para reprimir os protestos sociais.

Ao mesmo tempo, desencadeou massivas campanhas de propaganda ideológica, manipulando as opiniões públicas e procurando formatar tudo em torno do chamado pensamento único através dos grandes órgãos de comunicação social, todos concentrados nas mãos das multinacionais, e da expansão contínua das grandes redes sociais eletrónicas nas mãos de reconhecidos neofascistas como Elon Musk ou de Mark Zuckerberg que, com Jeff Bezos, foram os principais financiadores do Donald Trump.

O resultado do neoliberalismo era inevitável nas suas consequências políticas, económicas e sociais: mais desigualdades, mais miséria, ascensão do fascismo, destruição do Estado Social, restrições cada vez maiores à liberdade de opinião, americanização de toda a vida política e padronização extrema dos comportamentos sociais. 

Aquilo a que o neoliberalismo chamou de globalização tem vindo a tornar-se uma “Glebalização”porque o que existe cada vez mais são servos da gleba em vez de trabalhadores com direitos e com empregos dignos.

Tem sido desenvolvida uma civilização nihlista em que para muitos milhões de trabalhadores a sua vida está “mumificada”.

Os seres humanos foram convertidos em meros objetos de cálculo, produção e consumo.

Importa, então, recordar que de 1945 a 1975, existiu o chamado período de ouro do capitalismo baseado na corrente económica keynesiana.

Este período, marcado por políticas sociais, conduziu à criação do chamando Estado Social, de Bem-Estar ou ainda à designação de alguma forma pejorativa do “Estado Providência “.

Depois da grave crise económica de 1929, grande parte dos liberais, com Keynes à cabeça, consideraram indispensável que o Estado tivesse uma intervenção direta na economia para corrigir os erros do liberalismo económico desregulado.

Aliás, nos Estados Unidos, a resposta encontrada para reerguer a economia deste país e minimizar as dramáticas consequências sociais foi o estabelecimento de um plano de recuperação económica iniciado em 1933, desenvolvido por Franklim Roosevelt com a designação de New Deal.

Este plano visou a ampliação da ação de Estado na economia ao controlar a produção e ao realizar obras públicas para empregar aqueles que tinham perdido o seu trabalho à custa da crise.

As atividades do New Deal seguiam as ideias preconizadas por John Keynes e tinham como principais características a intervenção do Estado na economia, a criação de sindicatos para facilitar as negociações entre trabalhadores e patrões, a construção de obras de infraestruturas para gerar empregos e rendimentos, estimulando o mercado consumidor, e a criação da Previdência Social para garantir um salário mínimo para idosos, inválidos e desempregados.

Em 1938, realizou-se em Paris o chamado colóquio “Walter-Lipman” para definir soluções para a ineficácia das políticas liberais face ao medo de um intervencionismo económico crescente. Foi neste colóquio que Alexander Rustow falou pela primeira vez em “neoliberalismo”.

Em 1942, foi publicado o Relatório Beveridge na Grã-Bretanha que defendeu a ideia de aumentar a intervenção direta do Estado na economia para garantir os direitos sociais mínimos para todos os cidadãos. Estes serviços seriam financiados com impostos proporcionais à riqueza.

Em 1945, Hayek publicou o livro “ O caminho da servidão” para combater as propostas do relatório Beveridge.

No combate intenso contra a política keynesiana criaram-se 3 escolas económicas.

A escola austríaca teve como principais ideólogos Ludwing Mises, Friedrich Hayek e M. Rothbard.

A escola alemã teve como principais ideólogos Wilhelm Ropke, Alexander Rustow, Walter Eucken e Franz Bohm.

Esta escola também ficou também conhecida por Escola de Friburgo ou por ordoliberalismo, dado que as suas reuniões se iniciaram em torno da revista Ordo.

Depois da II Guerra Mundial apareceu uma nova corrente: a escola de Chicago com Milton Friedman como seu principal ideólogo.

Desde 1947, Ropke , Hayek e Friedman uniram-se na Sociedade Mont Pelerin , presidida pelo Hayek, que desenvolveu uma intensa conspiração política e económica contra todas as políticas sociais.

Na sua permanente campanha contras políticas keynesianas, um dos argumentos difundidos para denegrir Keynes foi de este economista era um perigoso socialista radical.

Ora, Keynes era ideologicamente um conservador, um elitista, contrário a nacionalizações e a uma excessiva regulação económica.

Esteve sempre vinculado ao Partido Liberal britânico e foi um “produto” da Universidade de Cambridge, com a qual manteve uma estreita relação toda a sua vida.

Tinha um círculo íntimo de reflexão formado pelo grupo Bloomsbury, onde se encontravam também Lytton Strachey, Leonard e Virgina Wolf e o pintor Duncan Grant.

John Keynes liderou a delegação britânica na Conferência Bretton Woods que em 1944 pretendeu estabelecer novas regras de estabilidade das finanças internacionais depois da II Guerra Mundial e que mais tarde deu origem ao FMI e ao Banco Mundial.

Keynes, não só colocou a justificação teórica de que o Estado Social é economicamente sustentável como pôs em evidência a necessidade dele ser criado para poder manter um sistema económico baseado na iniciativa privada e na liberdade de mercado.

Era o princípio de “ proteger o capitalismo de si mesmo “ .

O anti keynesianismo concentrou-se na London School e na Universidade de Chicago.

Na essência criadora do neoliberalismo estiveram claros pressupostos ideológicos de extrema-direita, desde logo porque os seus mentores eram todos oriundos dessa área política.

No seu livro “O Liberalismo”, em 1927, Mises elogiou o fascismo italiano.

Hayek foi o primeiro a reconhecer a contraposição entre democracia e neoliberalismo  no seu livro “ o caminho da Servidão” ( bíblia do neoliberalismo).

Hayek , numa entrevista ao jornal El Mercúrio, do Chile (12/4/1981), referiu que “ a minha preferência pessoal é uma ditadura liberal  e não um governo democrático onde todo o liberalismo está ausente”.

Entretanto, o facto marcante e que Importa, desde logo, ter muito bem presente é que a experimentação prática das medidas estruturais e ideológicas do neoliberalismo só foi possível num país, como o Chile, que estava submetido a uma feroz ditadura fascista na sequência do golpe sangrento do Pinochet.

Quando Pinochet saiu do poder, em 1990, o índice de pobreza no Chile era de 40%.

Depois deste “teste” no Chile, os expoentes dinamizadores deste modelo no plano internacional foram M. Thatcher e Reagan, desenvolvendo a sua ofensiva político-ideológica violenta em quatro direções principais: completa liberalização do mercado, as múltiplas privatizações, a procura da destruição do papel dos sindicatos e a implantação de uma reforma tributária de escandalosa proteção aos grandes rendimentos.

Esta política foi desenvolvida na base de uma profusa campanha de propaganda, procurando culpar os cidadãos como os responsáveis pela necessidade de adotar essa política neoliberal ao acusá-los de viverem acima das suas possibilidades e de esbanjarem recursos.

O tão propalado objetivo das forças neoliberais em defender a redução dos impostos, visa aumentar o défice público e com isso dispor de uma justificação aos olhos dos cidadãos para exigirem as privatizações dos serviços sociais de caráter público.

Nos últimos anos, com avultadas quantidades de dólares, Steve Bannon, que foi chefe de estratégia da Casa Branca e assessor político especial de Donald Trump no seu primeiro mandato, andou vários anos a deambular por diversos países europeus e latino-americanos a organizar os movimentos fascistas e a montar esquemas de financiamento para as suas atividades de sabotagem das instituições democráticas e de descredibilização dos partidos políticos chamados de “tradicionais”.

Steve Bannon é o fundador do “The Movement” que é um agrupamento político cujo objetivo fundamental é criar uma grande aliança de extrema-direita europeia com as ideias chave do eurocepticismo, liberalismo económico e o populismo.

Como temos observado, a padronização americanizada da vida política, concretamente na Europa, é um exemplo marcante da aplicação prática do pensamento único.

Aqui, a direita e os auto proclamados liberais têm deslizado continuamente para posições de extrema-direita de que os exemplos do secretário –geral da NATO , Mark Rutte e a responsável da politica externa da UE Kaja Kallas dispensam quaisquer comentários.

A nível dos partidos socialistas e social-democratas integrantes da Internacional Socialista, as posições de alguns deles são cada vez mais coincidentes com as da direita pura e dura.

François Hollande, em parceria com o seu primeiro-ministro Manuel Valls, durante o seu único mandato como presidente da França, desenvolveu uma política claramente de direita, atacando os direitos sociais e laborais da grande maioria dos franceses, deixando esse país numa crise política, económica e social que escancarou as portas do poder ao atual governo do Macron e facilitou o crescimento da extrema-direita.

Na Grã-Bretanha, toda a governação de Tony Blair, primeiro-ministro e líder do Partido Trabalhista, foi no sentido de aprofundar as políticas antisociais muito à direita da M. Thatcher, nomeadamente a destruição do Serviço Nacional de Saúde britânico (NHS), com particular destaque para a invenção das Parcerias Público-Privadas em vários setores dos seus serviços públicos. 

Mais recentemente, na Alemanha, Olaf Scholz, líder do SPD, enquanto primeiro-ministro, foi um ativo executante das políticas antissociais neoliberais e cúmplice do genocídio do povo palestiniano, apoiando por todos os meios o governo sionista de Israel.

E na Grã-Bretanha, o atual primeiro-ministro inglês e líder do Partido Trabalhista, Keir Starmer, ainda antes de ser eleito, desenvolveu uma suja campanha contra Jeremy Corbyn da ala esquerda desse partido então na sua liderança partidária com acusações de antissemitismo por ele ter defendido publicamente que se fosse eleito reconheceria o Estado Palestiniano.

Starmer, como governante, tem sido também um cúmplice ativo do genocídio do povo palestiniano e um dos mais encarniçados opositores a uma paz negociada para a guerra na Ucrânia.

A nível interno, baseando-se no “ Terrorism Act 2000”, aprovado em Julho de 2000, começou a proibir movimentos cívicos, classificando-os como organizações terroristas, e a considerar as suas declarações como delito terrorista.

Uma emenda ao artigo 12 dessa legislação, aprovada em 2019, estabeleceu que a sua infração pode significar 14 anos de prisão.

Milhares de pessoas que transportavam cartazes de repúdio ao massacre de Gaza numa manifestação recente, estão a ser alvo de perseguições.

Starmer proibiu o movimento cívico de solidariedade com a Palestina, “Palestine Action” considerando-o como terrorista. 

As pressões sobre os órgãos de comunicação social, em particular a BBC, para não serem divulgadas notícias suscetíveis de favorecer aquilo que o governo considera terrorista têm-se intensificado e têm colocado esses órgãos em múltiplas situações de autocensura.

As ameaças de Trump à BBC, exigindo uma indeminização por notícias que ele considerou ofensivas teve como principal objetivo pressionar politicamente este órgão de comunicação de referência mundial para que não divulgue quaisquer factos que desagradem ao governo americano e a si próprio.

Estas práticas são características de regimes totalitários e ditatoriais e, neste caso, é um líder de um partido trabalhista a executá-las.

A esquerda tradicional, chamemos-lhe assim, anda há largos atordoada e sem conseguir interpretar a situação muito adversa do contexto internacional e mostrando-se incapaz de redefinir os seus instrumentos de organização e de comunicação.

Fala de realidades sociais e políticas há muito desaparecidas e não apresenta quaisquer propostas alternativas ao descalabro social e político em curso.

O governo imperial americano agora conduzido por um indivíduo que se vê a si próprio  como um pistoleiro nas pradarias a disparar contra os “índios”, está a criar uma situação futura de inevitável confrontação militar mundial em larga escala.

Quando “cheira” a negócios vultuosos envolvendo riquezas naturais vitais todos os pretextos servem para justificar os crimes.

Foram as armas de destruição massiva no Iraque, as ditaduras na Síria e na Líbia para justificar invasões militares e as mortes de centenas de milhares de seres humanos, agora o suposto combate ao narcotráfico para raptar chefes de Estado e bombardear países como a Venezuela e a Nigéria, mas por detrás de tudo isto está o petróleo e o gás natural.

O presidente americano veio também ameaçar o Irão por causa da repressão das manifestações nesse país, mas não é isso que acontece nos seus amigos da Arábia Saudita e Catar?

E um presidente que já deslocou várias vezes tropas especiais para diversas cidades americanas para reprimir manifestações de protesto social tem alguma credibilidade para fazer acusações a outros por semelhantes práticas?

Quando uma fera está ferida torna-se ainda mais perigosa porque no estertor da agonia pode desesperadamente lançar golpes violentos.

Ora, sendo visível que inúmeros factos apontam para o declínio imperial dos Estados Unidos são de esperar mais atos desesperados de violência extrema.

Quanto à União Europeia (UE) o seu comportamento de completa submissão e de rastejamento político perante o império americano têm mostrado a sua cumplicidade perante o genocídio do povo palestiniano em Gaza e uma postura de defesa da escalada belicista da guerra na Ucrânia.

Mesmo na presença da violação brutal do direito internacional, não houve uma única palavra de condenação do bombardeamento da Venezuela e do rapto do seu presidente por parte das instâncias dirigentes da EU, limitando-se a presidente da Comissão Europeia e a presidente do Parlamento Europeu em defenderem o que chamam uma transição pacífica e democrática.

É um escândalo vergonhoso que estas pessoas que passam a vida a falar de democracia e direitos humanos tenham este comportamento politicamente miserável.

Na Europa, somente o primeiro-ministro socialista espanhol Pedro Sanchez foi rápido a tomar uma posição de condenação do ataque à Venezuela.

E agora o argumentário sobre a Rússia e a guerra na Ucrânia já não se aplica ao tutor americano?

É que também aí o tráfico de droga foi um dos argumentos usados para a invasão.

Todos os cidadãos e cidadãs que defendem a democracia, a liberdade e a livre expressão das opiniões têm de dar passos decisivos na sua mobilização crescente para cortar os passos ao fascismo, independentemente dos disfarces com que se apresente.

O combate às guerras e a defesa do direito internacional e da coexistência pacífica entre os povos soberanos têm de se tornar neste momento civilizacional um imperativo humanista.

Temos de fomentar a convergência e o espirito solidário perante a barbárie imperial.

Mário Jorge Neves, médico

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