Não sei nada de geoestratégia. Nem de xadrez político. Nem de bloqueios económicos que mudam, transformam e arruínam vidas. Também nada sei de capitalismo financeiro, de feudalismo da tecnologia financeira, do mundo de sistemas que de mim fazem um tapete vassalo.
Não escrevo textos curtos prontos a mastigar. Perco muitos leitores. Aqui ficam na gaveta. Quem quiser, venha até mim, abra uma das gavetas e saque a conversa que lhe interessar.
Sim, vejo estas pontificações como conversas íntimas e silenciosas entre mim e o leitor. Sei umas coisas que vou partilhando.
Para que serve ter experiências que podem servir, se não for para partilhar?
Tu e eu que temos passado por tanto, dentro das malhas de controlo, fazemos guerra de resistência. De longa duração. Não existe obsolescência programada na arte da vida política do dia a dia.
Somos os sujeitos, objectos e complementos directos da mesma.
O ser humano demorou cerca de quatrocentos mil anos a evoluir e ainda é um processo em desenvolvimento. O soldado em construção.
Uns canalizam a desesperança e a indignação na resistência. Outros atiram-se nos braços de “grandes líderes salvadores”, actores na arte de bem enganar.
Eu sou a atleta caracterizada pela capacidade de persistir sem desistir. Como tu.
Querem-nos em campos opostos para estarmos distraídos e confusos. Aceitamos. No campo das emoções estamos ainda a gatinhar. Em contraste com o desenvolvimento tecnológico e a arte da corrupção. Como na arte do roubo descarado, sem escrúpulos.
Somos um recém- nascido, dependente.
Estranho mundo novo. Este. Refém. De comerciantes da aldeia. Sem sofisticação, nem maneiras nem educação. Singraram e têm poder. Merda que medrou.
Por contraste, o sistema fabricou os pobres. Estes mal saem das fábricas, são combatidos, atirados a um tapete debaixo de um rolo compressor.
Levo sessenta anos em combate. Passei pelo fascismo, pelo racismo, pela liberdade, pela independência, pela guerra colonial, pelo assédio sexual, pela discriminação no trabalho pelo género e pela cor, até pela possibilidade de mudanças sempre que queria. Até chegar aqui. Se tivesse vivido no século XIX teria morrido aos quarenta.
Agora esperanço que a morte me esqueça. Eu dela passo -me mansinha, despercebida.
E entretanto sei que sou um micro cosmo do macro.
Bloqueada, refém, privada de liberdade. Um reflexo num espelho propositadamente sombreado.
Se falar ou escrever contra corrente sou bloqueada, não distribuída por um número, algo com o ritmo de me controlar e prender.
Como fazem com a riqueza do planeta. E que a há, há.
Antes vivêssemos como a ginga do semba. Esse sim, solta-me. O algoritmo, não.
Nenhum orgasmo pode ser tão molhado de prazer quanto aquele que trouxer o máximo controlo sobre milhões de seres. Como num regime de ditadura.
Por isso os trilionários das tecnologias financiam os bonecos fascistas. Os governos financiam o seu empreendorismo, eles têm para venda os nossos dados e quando decidem, têm-nos calados.
Avançamos em regresso ao passado feudal. Entre alianças outrora inimagináveis, outras que se traem na essência, vendemos a nossa alma.
Estranho mundo este. Refém. Pensado e estruturado para derrubar qualquer sentido de justiça. Muito menos de actos radicais como a empatia e a bondade.
Se alguém duvida ou faz perguntas fazem “gaslighting”. Manipulação.
Chamam-me asno. Somos todos os idiotas da aldeia. Estúpidos. Dizem-nos que não temos preparação para saber de nada. Menos ainda para pensar. Obedientes, deixamos de pensar.
Só que não é bem assim. Ainda vou fazer perguntas, porque a curiosidade humana não tem limites. E tenho como esperança de vida os noventa.
Começando pelo início, o meu primeiro -ministro disse-me ontem que não se deve invadir um país soberano. Muito assertivo decidiu:”vamos bloquear o invasor”.
Hoje disse-me que um país pode começar o bombardeio de um país e matar o seu líder espiritual ( imagine-se a Suiça a bombardear o Vaticano e a matar o Papa), sem autorização de ninguém.
Nem Congresso nem Nações Unidas nem aliados.
No pacote está incluído o sequestro de presidentes, mantê-los em cativeiro, sem precisar de dar satisfações. Tudo à grande.
Aos comerciantes com poder, responsáveis pela organização do sistema chamam “elites”…no entanto não passam de merceeiros mercenários que vestem Hugo Boss( o estilista do fascismo).
Vejamos o mundo sob o holofote e o arame farpado das prisões. Super povoadas de gente de gola azul, aqueles que roubam galinhas e sacos de ervilhas.
Em contraste, os banqueiros, os comerciantes com poder, os políticos envolvidos em crime de colarinho branco, depósito de dinheiro corrupto, lavam-no, cometem fraudes indizíveis.
Os donos dos “hedge funds” que dominam, organizam e estruturam a vida dos pobres de colarinho azul, vivem a vida de luxo, em iates e condomínios de luxo, paredes meias com o resto dos outros que são lixo, a contar os lucros. Vindos das armas, drogas, tráfico humano, chantagens.
Entre festas e sexo com crianças. Em verdadeira liberdade. Esta é uma tradição muito comum e antiga. Normalizada.
Os crimes da gente de gola barata azul não se comparam com as fraudes e mortes provocadas pelos crimes da gente de colarinho branco.
Uns têm botões de lata nos punhos. Outros botões de prata.
Muitos de colarinho azul matam por pouco, por satisfação imediata de comida. O sistema fecha-os.
Os de colarinho branco, fazem sexo com crianças ou bombardeiam escolas com crianças – em regime aberto.
Merecem o mesmo castigo que pretendem infligir sobre os gola azul, presos pelos mesmos crimes. Mas estão livres.
É esta a desmoral que desmoraliza e se tornou normal.
Estranho mundo este. Refém. De mal normalizado.
De guerras que fazem muitos mortos. Dão como resultado, generais condecorados. Os políticos que as aceitam recebem louvores, prémios e galardões.
Os predadores comerciantes e mercadores com poder, que recebem condenações e mandatos de prisão, escapam dos muros e do arame farpado.
Porque se aliam, chantegeiam, protegem, bloqueiam quem nada contra corrente, raptam presidentes, matam amigos de ontem, inimigos de hoje porque já não obedecem, fazem guerras unilaterais. Portam-se como dementes com sérios problemas mentais.
Estranho sistema este. Sempre separado por cores e classes, sempre em eterna divisão : -azul e branco, preto e branco. Rico e pobre. homem, mulher.
Em liberdade vive um mundo. Um rio que corre sem atilho. Outro, um mar encalhado e oprimido.
Vou armar-me de paus e pedras como forma de me prevenir caso o meu vizinho me venha atacar…ou,
Vou atacar o meu vizinho da outra rua, como forma de prevenção,caso ele pense em me vir atacar.
Mundo estranho. Disfuncional. Em dissonância. Ilógico.
Refém de uma admirável distopia.
E eu e tu, resistentes como bamboo, prosseguimos de pé, nesta sequência de tragédias e sequelas shakespeareanas, enquanto dura o instante que é esta admirável vida.
Eu, só no final vou lavar os pratos.
Perdoem o desabafo num domingo tão solarengo, enquanto em Gaza uma nuvem de cinzas humanas cobre o céu.
Uma nuvem de cinzas de crianças em Teerão (certamente estavam a enriquecer urânio), são cobertas por um véu.
O mesmo céu solar que destapa a fome no Sudão e a corrupção em Bissau.
O mesmo sol que aquece o peito do povo Cubano, resistente como bamboo, contra um bloqueio desumano de dezenas de anos.
Um dia todos vamos morrer. A eternidade está cheia de comerciantes, mercadores que um dia tiveram poder. Lá nesse lugar, são cinza ou nada. Não há divisões. Não há cores. Não há classes.
E se ainda acreditas nas mentiras que contam sobre a bondade e as razões de democracia e liberdade como justificação das guerras destes mercadores mercenários com poder, vivos, então, “shame on you!”
E o burro sou eu?
Anabela Ferreira


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