Sirvam-se! Cá estamos nós a desejar uns aos outros um ano feliz. É um dia de aproximação. E isso é bão, diria o poeta. Aproveitemos os abraços e os votos. A mesa está farta, não façam cerimónia. Temos direito a comê-los. Nos restantes dias não sabemos como serão. Nem quão afastados estaremos.
Aqui que ninguém nos ouve – este não precisa ser um ano feliz, basta existir como novo. Sem fazer sangue. Que nos renove no olhar sobre o outro. Na colaboração entre pares humanos.
A vida espreita, curiosa através da porta que se abriu. O que vamos fazer com ela? Dela? “Vou entrar!” E se assim pensa, melhor faz – entra com dois pés e as mãos ambas.
E agora? É esperar que venha sem deixar marcas de lutas ferozes. De sobrevivência. Porque temos medo de ser esmagados nas lutas entre tribos. Desejamos que aquela possibilidade que ali está na porta faça florescer a coragem. E leve o medo de viver. Embrulhado, o ano traz de presente um cartão de visita. Consta uma morada
-“que nunca te falte o pensamento crítico, nem a autenticidade nem a criatividade”.
Mesmo quando e por que muda a folha do calendário, sabemos que cada um trava em silêncio as suas batalhas, longe das luzes e das obrigações festivaleiras. Estejamos atentos aos outros. Conscientes. Porque nada somos sem os outros.
Chegou o outono de um ano, com a queda da folha fazendo espaço para nova folha. De um tempo que faz por ser novo, saltando em pontas de pés, dançando, desenhando novas tatuagens. Na porta o vento venta. Ventou e levou, veloz, uma folha velha, efémera.
Como um rio, o tempo flui.
Se em cada tempestade encontrarmos a calmaria e um novo horizonte, então será belo, terá empatia, será corajoso, terá gana e garra de viver. Quem sabe faremos dele um ano feliz.
Neste meu canto irrelevante e obscuro, continuarei a pontificar, reportar factos, opiniões, episódios, poemas e histórias. Como jornalista da vida intrinsecamente ligada a tribos, indispondo-me contra a inteligência artificial e a tecnologia excessiva, aquela que nos torna amebas, contra os fascistas, o racismo, a misoginia, o algoritmo que nos afasta do caminho e espalha ódio, porque não sei fazer mais nada.
Lembrem-se de que não estamos melhores nem somos melhores. Navegamos mares revoltados.
A Austrália entrou em 2026 primeiro, a braços com ataques brutais. De seguida a China entrou no nosso ano ocidental, com um desenvolvimento e crescimento invejáveis, equivalentes a 4724.
Chegou a vez da Europa entrar, regressando em diversas velocidades ao ano de 1946. O Brasil seguiu-se indicando caminhos para 2035.
Por fim, os usa entram no ano novo de 1930, com a agravante de espalhar o seu entulho.
A maioria de nós está impotente e nada controla. Isso deixa-me a sangrar. Fiquemos atentos.
África entra o novo ano em crescimento. E se estivermos atentos, mesmo com conflitos e sangramentos, em breve vai do zero aos cem em cinco segundos, chegando primeiro a 2050.
Obrigada pelo carinho do ano. Que a janela se escancare pela porta deixando entrar mais carinho.
Anabela Ferreira


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