A morte é clara

Clara Pinto Correia, uma mulher todo o terreno. Podia adjectivá-la com todo o palavraeado qualificativo. Francamente não posso. Não a conhecia, nem sei mais para além das polémicas públicas que sempre me “cheiraram” a inveja comezinha típica tuga. Quando se é um pouco maior que a senhora pequena aldeia, aqui d’el rei que se pos a jeito para ser comida. Lembro-de dela, nos meus poucos anos em Portugal. Não perdia o que escrevia. Admirava-a. Por eu ser amante desta coisa das letras e das palavras. Era uma todo o terreno, das palavras e, imagine-se, da ciência. Por isso eu não perdia o que ela tinha para dizer na escrita, fosse num artigo, numa crónica, num livro. Era sempre uma lufada de fogo. Era como ir a uma feira da inovação e descobrir a chama que cortava o vento. A tempera do aço.

Não sei o que a vida fez com ela, se a tramaram, se se queimou porque tinha umas palhas numa expressão orgásmica, se plagiou um artigo, ou não deu créditos ao autor, se teve a veleidade de viver uma vida sem caixa, porque se estava a cagar para as caixas. Sei que este país devia prestar-lhe homenagem por ter sido uma figura inspiradora e inovadora, sem formatação nem caixa. Uma Eva sem medo da parra. Aliás, tirava-a para que não restassem dúvidas. Tinha coisas relevantes a dizer. Pensou coisas relevantes. Fez coisas relevantes. Mais do que muitas que andam por aí a dizer banalidades, ainda hoje e a escrever sem sentido. A expressão da mão que falava por ela era uma característica. Intensa e veemente. Só que o nosso país raramente percebe quem são os seus filhos que andam sobre fogo mostrando o quanto são bons. Porque somos pequenos e temos muitas invejas para gerir. O nosso país deixa morrer gente sua, da melhor cêpa, com a melhor tempera, na solidão, sem dinheiro, atirada no esquecimento. E isso é muito triste.

Quero lembrar este detalhe. Morrer sem que ninguém dê por isso é a pior das tristezas. Sabemos que todos vamos morrer, provavelmente sozinhos, longe de holofotes e de importância, porque a maioria de nós não é relevante. A Clara foi. Foi uma Eva, princesa pioneira, todo o terreno, revelando na escrita os aliados que tinha – a inteligência, a beleza, o raciocínio claro e aguçado, o humor, o espírito de aventura, esse tratar a vida por tu, até que a morte as separe. 

Fiquei triste. Descansa em paz, Clara. Agora já ninguém te pode tirar o sossego, nem olhar de lado com inveja.

Anabela Ferreira

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *