Fui ao festival do voto e rio

Aos poucos que leem as minhas desabalizadas e insensatas reflexões, confesso que o faço para ser mais uma a exprimir a frustração de quem observa um comboio desgovernado.

Faço parte dos frustrados que colam cartazes nas janelas e gritam ” os travões não funcionam” . Já poucos têm paciência para ler as minhas divagações, em forma de lençol. Como os loucos, obsessivos, insisto. Algures, numa reflexão comum, me uno com alguém. Seguimos juntos.

Passageiros há ( como eu) que tentam mostrar o desvio. Está escrito na parede a letras garrafais. Garanto que há muitos a ler. Não estamos sozinhos.

Não queremos um mundo homogéneo porque na génese sabemos que somos multidiversos.

Queremos a loucura da igualdade, da fraternidade e da liberdade no manicómio. Um cliché cada dia mais distante de ser realizável.

Na verdade, sabemos que só ouve o cliché quem quiser. Nestes tempos vivemos em modo de “repetição” de outros tempos de lutas de classes.

Os cidadãos relegados para o cesto dos descartáveis, nesta globalização tóxica com psicopatas na cabine de comando, nunca deixarão de o ser, se ninguém fizer barulho por eles. Eu sou eles.

A casta mais baixa da sociedade portuguesa está a dois mil euros da casta seguinte, a aburguesada. Por sua vez, estão separados dez mil degraus da casta seguinte, sucessivamente da casta do pelotão da frente por milhares, em fundos, papéis, acções, mansões, iates e offshores.

Todos se odeiam, todos se veem como inimigos. Achamos isto normal? Aparentemente. Estamos em modo de repetir o que há de pior em nós.

Os sustentos da cadeia alimentar – aqueles que são sempre comidos por predadores de topo – olham para os de cima com medo. Os que estão acima destes, apenas uma camada, odeiam os de baixo, odeiam-se entre si, atiçam-se com acendalhas, ateiam-se fogo, queimam-se vivos.

Todos vamos ao festival. Eu rio.

O festival é uma fraude e não oferece segurança. Não há bandas com um alinhamento e afinação confiáveis. É uma pena. Assim, gente a mais deixa de ir aos festivais. São usados como corpos não reutilizáveis.

Diz uma ministra rica que há falcatruas nos apoios sociais do Estado. Há certamente quem as faça.

E há falcatruas entre aqueles que administram / governam o Estado. Daí estarmos infelizes, cansados, desolados e tristes com tanto roubo, na frente dos nossos olhos.

E (vou dar alguma cortesia e simpatia a quem se sente roubado e tem um dilema nas mãos), talvez só por isso haja um milhão que anseia por um pulso de ferro e salazares em cada esquina a policiar e a fiscalizar. Os manipulados caem nas garras dos manipuladores.

Por toda a Europa, o descrédito é absoluto. A fúria é igual. Como há “justiceiros” que se querem aproveitar ( os capatazes do fascismo e do racismo), também há decência. Vejam-se Belfast e a Albânia a lutar pela decência. Mas desvio-me… ( isto está tudo ligado, sabem?)

Retomando o assunto, não é o pobre português que rouba, aproveita as brechas e comete falcatruas. Também o faz. Olha para cima e repete o exemplo.

E se faz falcatruas e o Estado não fiscaliza, então a incompetência é do Estado.

Fiscalize-se e denuncie-se o Estado incompetente, que julga os cidadãos que pagam impostos como criminosos e delinquentes.

Corte-se neles os que usam e abusam do Estado. Sem esquecer que o xega não vem salvar nada. É financiado pela alta finança, os que roubam o Estado, não pagam impostos, vivem de negócios ilícitos e obscuros. Irra. Perceber isto não é física quântica. Descobriram que afinal não é o comunismo que come criancinhas. É o capitalismo que come famílias inteiras e nos transforma em carne para o canhão do lucro. Política

, música, literatura, teatro, cinema, empresas de qualquer área são puros negócios.

As pessoas são apenas o comburente da máquina. Para usar, gastar e só poluir. Enquanto o planeta vai ficando sem oxigénio.

Eu que sou usada para dar lucro, olear o canhão, ser disparada e pagar impostos, pago escolas, médicos e enfermeiros, pago passes gratuitos, livros, obras nas vilas e cidades, apoio social a idosos, infantários, reformas, desemprego, e RSI ( qualquer um de nós pode vir a estar nessas situações), é esse Estado que quero me dê ( e devolva em seriedade) segurança para a infância, na adultez e na velhice.

Resumindo: fiscalizem-se as falcatruas. A começar pelas do Estado e seus representantes. É de facto sobre estes últimos que tenho interesse em fiscalizar. E denunciar. Porque o Estado é o dinheiro dos nossos impostos e entender isto também não é do campo da física quântica.

Dou exemplos: o polícia que demonstra a sua força na ponta de um bastão contra um negro ou um imigrante; esse preocupa-me. É pago por mim. O juiz que não condena alguém à pena de prisão por um ataque racista, esse revolta-me. É pago por mim. Um ministro e uns deputados que recebem acima das minhas possibilidades, fazem negócios privados por debaixo do pano usando o Estado. Esses enojam-me. São pagos por mim. O Manel, que está na esplanada a beber um café e recebe um miserável RSI, não me faz “espéce”. Ele não sabe, mas não irá para longe do canhão. Em breve será engolido.

Hoje tenho pena de não ter feito mais perguntas ao meu avô, sobre o passado de Portugal, sobre as razões das guerras mundiais, a I e da II. Sobre a pandemia no início do século XIX, sobre o “milagre” de Fátima, o ballet rose (cor dada aos laços das crianças que eram abusadas por adultos bem colocados na escala social/política e económica), e tantos outros assuntos que fizeram a nossa história e nos trouxeram aqui repetindo erros. Deixamos sempre entrar os bandidos e tirarem proveito atirando a culpa para cima de quem não a tem, desviando a atenção de quem comete verdadeiros crimes que a todos prejudica.

Percebi cedo que as decisões sobre caminhos e escolhas políticas, económicas e financeiras se fazem sempre por entre cortinas espessas em salas com homens escolhidos a dedo, envolvendo charutos Havanos em mãos bem cuidadas, vestidos a lã de merino, gravatas de seda e camisas de algodão puro, no mundo europeu, a partir do século XV e no pós conferência de Berlim, quando o sul foi dividido e mantido sub-desenvolvido, entre as grandes potências europeias ditas civilizadas, a norte.

Hoje, o rabo do gato já não está escondido. Está visível, de fora para quem o quer ver. Se alguém se deixa enganar, mesmo não tendo conversado com o seu avô, ou estudado um pouco, é só um idiota encartado.

Por essa razão não faz distinção entre o que deve ser público e o que pode ser privado. O que deve defender para preservar a integridade do futuro e o que deve descartar para não regressar ao passado.

Não há desculpa. Apenas culpa. Porque escolheu ser assim. Daí termos votantes na extrema-direita, retrógrada, fascista, misógina e racista que defendem apenas o bolso privado. Os que apenas em sonhos se julgam noutro patamar das castas, são só estúpidos, analfabetos e cegos.

Ou andam adormecidos com drogas.

O passado (a História) é muito mais fácil de ser apagado, branqueado e higienizado do que uma ferida com cicatriz e crosta.

Porque quem o faz conta com a estupidez natural humana. E a manipulação das emoções.

Fomos invadidos (não por imigrantes) por vírus. Instalados estão os abutres da extrema-direita. Vivem acima das minhas capacidades cognitivas de compreensão.

Ando no festival do voto e rio, para não chorar. Sobre pobres, doentes e vulneráveis com prestações de má sobrevivência e ricos que compram Estados e os pervertem.

De onde vem o dinheiro destes enriquecidos em ouro e prata é sempre a minha questão. Chegaram-nos charters de aldrabões; passaram o controle de passaportes com tapete de ouro estendido. Tudo lhes é permitido. Entram sem leis nem regulações. Com fundos imobiliários e dinheiro branqueado, compram terra e até querem a orla marítima, arranjam testas de ferro para as suas empresas, para financiar negócios e partidos pouco claros. Por dentro minam o Estado.

A História conta-nos que erigimos fortificações para nos protegermos de invasores perigosos. Baixámos a guarda. Tal como os meus antepassados que viram chegar o homem branco, imaginaram-no amigo e o resto… é história.

Os invasores são os Césares do Paço, os Mirpuri, os Salgados e Bravos da vida, entre outros de quem nem sabemos os nomes. São estes os portugueses de bem que nos vendem.

Como nos esquecemos de olhar o passado, preocupamo-nos com o outro grupo de malandros da mesma casta que nós, os pobres e os imigrantes na segunda classe.

É assim tão complicado perceber qual é a primeira-classe, a carruagem do comboio onde viajam os verdadeiros bandidos? Que roubam o alimento numa única prestação?

As gerações futuras precisam que façamos a nossa parte. A de as proteger.

Temos a obrigação de nos livrar desta patologia que nos impede de ir a votos sem obter resultados diferentes, pois a psicopatia invadiu-nos as vidas. Eu já nem me rio.

Desculpem as loucuras dos desabafos longos. São inúteis para uns. Para mim, preciosos, fruto de uma obsessão.

Se não houver decência, nem humanidade, nem Estado que nos proteja a todos, quinamos. Chegados aqui esperanço. Porque sempre fomos capazes de virar o eixo e deixar cair as crostas das feridas.

Paremos de branquear a história e de viver em modo de repetição. O comboio está desgovernado. Nas carruagens entra água. É preciso voarmos.

Anabela Ferreira

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