A guerra contra o Irão e a hipocrisia do Ocidente

A guerra e as suas mentiras

Aquilo a que eufemisticamente se chama “conflito” entre os EUA e o Irão não é, na realidade, um conflito. É antes um acto brutal de agressão imperialista contra um Estado independente e uma guerra a todos os títulos ilegítima e ilegal.

Não se trata, como é óbvio, de escolher entre uma teocracia violenta e ditatorial, como é o regime iraniano, e uma crescente ditadura fascista, como a América de Trump, nem de desculpabilizar o que quer que seja dos crimes e violações de direitos humanos cometidos por Teerão. Mas trata-se, isso sim e antes de mais, de denunciar que estamos perante um ataque perpetrado por um país contra outro país independente, por meio de uma brutal barbárie levada a cabo à margem de todas as normas e princípios, quer do direito internacional, geral e humanitário, quer do próprio direito interno norte-americano.

Na verdade, este ataque foi desencadeado sem qualquer deliberação ou mandato das Nações Unidas, sem qualquer decisão do Conselho de Segurança, fora de qualquer quadro de legítima defesa, e também sem qualquer autorização do Congresso ou do Senado americanos. Não houve qualquer iminência de um ataque do Irão aos EUA, nem sequer indício de que tal ataque estivesse em preparação. E não houve nem há qualquer demonstração de que o Irão estivesse à beira de fabricar uma bomba atómica, sendo que todos os dados e relatórios de acompanhamento do respectivo programa nuclear comprovavam a inexistência de qualquer plano militar em curso baseado nessa tecnologia.

A este propósito, aliás, há duas perguntas incontornáveis a que os imperialistas, os sionistas e os seus “fabricantes de opinião” nunca respondem. A primeira é esta: então, há escasso tempo atrás, aquando do anterior bombardeamento do Irão, Trump não tinha afirmado que toda a capacidade nuclear do país estava destruída? O que se passou, afinal? Quando mentiu Trump ao Mundo: na altura ou agora? E a segunda pergunta é a seguinte: por que é que o Irão não deve ter capacidade nuclear e, menos ainda, armamento nuclear, mas Israel, que se recusa terminantemente a ratificar o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares, que não aceita sequer as inspecções da Agência Internacional de Energia Atómica que exige aos outros e que passa a vida a assassinar palestinianos e dirigentes de outros países e a bombardear Estados vizinhos, como agora sucede com o Líbano, pode possuir esse mesmo armamento sem que ninguém o conteste? Qual é, afinal, o critério para incluir na proibição um país, mas excluir dela o outro?

A hipocrisia do Ocidente

Também o estafado (e até hipócrita, quando apresentado desta forma) argumento da preocupação com a defesa dos direitos humanos não tem o mínimo de veracidade. Em primeiro lugar, porque para os Estados Unidos os direitos e a situação das populações dos países que invade ou ataca nunca tiveram qualquer relevância, como ficou amplamente demonstrado nas intervenções na América Latina nos anos 60 e 70. O que importa é derrubar governos, mesmo que democraticamente eleitos, que tenham uma posição de alguma independência ou autonomia relativamente aos EUA, e colocar no seu lugar governos que sirvam os seus propósitos de saque de matérias-primas, como o petróleo e o gás natural, ou de oportunidades de negócio, designadamente a do armamento. Como bem refere Edward W. Said em Orientalismo,

“se o Iraque fosse o maior exportador mundial de bananas ou de laranjas, decerto não teria havido nenhuma guerra, nem nenhuma histeria a propósito das armas de destruição maciça desaparecidas misteriosamente, nem a deslocação de uma força militar gigantesca (exército, marinha e força aérea) para um local a sete mil milhas de distância, com o intuito de destruir um país praticamente desconhecido até mesmo dos norte-americanos com educação universitária, tudo isto em nome da «liberdade».” (p. 16)

Na verdade, há décadas que o imperialismo americano conspira, trai, assassina e bombardeia para manter no poder (como sucede, por exemplo, em Israel ou na Arábia Saudita), ou colocar no poder (como sucedeu, nos anos 60 e 70, no Chile, na Argentina, na Nicarágua, no Panamá, e depois no Afeganistão, na Líbia e no Iraque), governos brutais, terroristas e fanáticos – desde que sirvam os seus interesses. Impõe-se, assim, a pergunta: se o Irão é uma teocracia brutal e ditatorial, o que é então a Arábia Saudita, tão amiga dos Estados Unidos? E por que é que, quanto a esta, o discurso dos direitos humanos é rápida e convenientemente esquecido?

Mas esta guerra põe também a nu uma série de outras realidades que alguns tentam ocultar, mas que importa não esquecer. Antes de mais, mostra que, sem o respaldo e a ajuda dos EUA, o Estado de Israel, apesar de se proclamar como tendo o exército mais poderoso do mundo, não tem capacidade para se aguentar sozinho. Mostra também que Israel, sobretudo sob Netanyahu, procurado por crimes de guerra pelo Tribunal Penal Internacional, se especializou, com a utilização apurada das novas tecnologias, em particular da Inteligência Artificial, em assassinatos selectivos de dirigentes e adversários políticos ou jornalistas independentes, bem como nos bombardeamentos mais brutais e desumanos contra vítimas civis inocentes: desde Gaza, com mais de 70 mil palestinianos assassinados, entre os quais 10 mil crianças, até agora no Irão, com o sanguinário assassinato de 168 meninas numa escola de Minab.

Por muito que vociferem os comentadores amigos do sionismo e do imperialismo, também acabou o mito da absoluta invencibilidade do sistema de defesa antiaérea de Israel, financiado e desenvolvido pelos EUA. Com efeito, inúmeros dos mísseis, rockets e drones disparados do lado iraniano atingiram os seus alvos em Israel, inclusive bem no centro de Telavive, e também em dezenas de bases americanas situadas em países vizinhos do Irão, e que para tal se prestaram.

A cumplicidade europeia e portuguesa

Por fim, e na sequência das posições servilistas e cúmplices assumidas pela União Europeia e pela generalidade dos líderes europeus (com a Alemanha, onde a polícia caça e prende na rua apoiantes da causa palestiniana, à cabeça, e com a única e honrosa excepção da Espanha), os governantes portugueses adoptaram a mais servil e cúmplice postura: a de não censurar, e até apoiar, a agressão americana contra o Irão, mas logo se apressarem a criticar, pasme-se, o contra-ataque deste país contra as dezenas de bases que o imperialismo americano foi entretanto implantando em seu redor.

Mas, mais do que isso, o Executivo de Montenegro – à semelhança do de Durão Barroso em 2003, aquando do ataque ao Iraque – autorizou o uso da Base das Lajes com um argumento tão patético quanto falso: o de que a aterragem, o abastecimento e a descolagem dos gigantescos aviões KC-46, abastecedores dos caças que lançam as bombas e os mísseis, não seriam, afinal, uma actividade militar. Ao fazê-lo assim, e sem qualquer vergonha na cara, faz com que, de novo, não só o Governo português fique com as mãos cobertas de sangue inocente, tal como sucedeu com o genocídio de Gaza, como transforme o nosso país num possível alvo de retaliações.

Como se tudo isto não bastasse, mas já sem surpresa, o presidente do partido fascista Chega, André Ventura, perante a desgraça humanitária que está a desenvolver-se no Irão, bem como nos países vizinhos, como o Líbano, apressou-se a informar a 3/3 que, para evitar aquilo a que chama “crise migratória”, vai propor a proibição da entrada de quaisquer pessoas em fuga dos países afectados pelo conflito no Médio Oriente, nomeadamente provenientes do Irão, do Líbano, da Síria e do Iraque, em claríssima e afrontosa violação dos mais elementares princípios do direito humanitário e em nova e evidentíssima demonstração da natureza xenófoba e racista do Chega – partido que, num país com um Ministério Público digno das suas competências legais e constitucionais, já há muito deveria ter sido extinto.

Acresce que esta posição encerra uma hipocrisia ainda mais profunda: as mesmas potências europeias que, com o seu apoio às guerras e agressões no Médio Oriente, contribuem para criar as condições de devastação que empurram populações inteiras para o exílio são depois as primeiras a fechar-lhes as portas quando essas mesmas pessoas procuram refúgio, erguendo muros e proclamando “crises migratórias”.

Vivemos assim tempos de chumbo, em que, por toda a parte, vigora a lei do mais forte e da sua lógica; em que o espírito e as regras humanitárias mais básicas são diariamente espezinhados; e em que a força bruta dos algozes mais sanguinários, bem como a vozearia dos seus cúmplices e apoiantes, tratam de abafar os gritos das vítimas inocentes.

Mas é precisamente nestas alturas que é preciso saber recusar dobrar a cerviz e não esquecer os princípios. E ousar dizer bem alto: não, não vou por aí.

António Garcia Pereira

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