Berre lá para a sua clientela

A noite passada, na CNN Portugal, realizou-se aquilo a que chamaram debate. Não foi bem isso.

Um debate tem duas partes e um moderador. Esta noite tinha dois convidados e um moderador que tratou cada um de forma diferente. O João Paulo Marinheiro interrompeu o Pacheco Pereira com regularidade e deixou o André Ventura falar, interromper e abandalhar à vontade, até que o próprio Pacheco Pereira teve de o dizer em voz alta, ao vivo, ao moderador: “Não esteja sempre a dizer-me que não posso interromper quando não o interrompe a ele.”

André Ventura foi ao debate com um plano. Não era ganhar o argumento, era impedir que o argumento do adversário chegasse ao fim. Uma ideia interrompida não convence ninguém. O ruído é estratégico. É assim que funciona, não se debate, contamina-se o debate. Pacheco Pereira disse-o antes de entrar no estúdio, Ventura usa “todas as formas de mentira, da mentira directa à omissão e à sugestão enganosa.” Esta noite confirmou-o ao vivo.

Pacheco Pereira foi ao debate com uma palmatória. Não como provocação, como documento. A palmatória era o Estado Novo. Era o que havia quando não havia democracia. Trouxe-a para que ninguém fingisse que estava a falar de abstracções.

A matéria-prima desta noite era a história. Ventura começou por misturar a ELP — Exército de Libertação de Portugal, organização de extrema-direita activa em 1975 com as FP25, Forças Populares 25 de Abril, de extrema-esquerda, que só apareceram em 1980. Organizações opostas, períodos distintos, contextos incomparáveis. Não é ignorância, é técnica. Quando se reduz a distância entre os dois períodos, quando tudo se torna violência indiferenciada, o caminho para a conclusão seguinte fica aberto: a ditadura não foi assim tão diferente. Não disse isso directamente, nunca dizem directamente.

A 24 de Abril de 1974, véspera da revolução, havia 127 presos políticos na metrópole e 4.249 nas colónias. O Pacheco Pereira leu em voz alta o que a PIDE fazia a esses presos, violação anal com garrafas, mutilação, choques eléctricos, suspensão invertida. Não estava a usar retórica. Estava a usar documentos, as regras do debate que o próprio Ventura tinha aceite.

André Ventura respondeu acusando-o de “traição à pátria”. Quando não há argumento, há acusação.

Chegou ao colonialismo com a munição habitual. “Levámos a fé cristã a muitos locais no mundo.” Cinco séculos de escravatura e exploração colonial respondidos com uma frase de catequese. Frase que Pacheco Pereira classificou sem hesitar: “É uma mistura de ignorância e demagogia.” Acrescentou, sem levantar a voz, que o Chega é o partido mais anticristão de Portugal, basta comparar as suas posições sobre imigração com as dos dois últimos papas.

“Você não luta contra a corrupção, luta contra a democracia.” É a frase que define o Chega melhor do que qualquer programa eleitoral. André Ventura ataca o Tribunal Constitucional, o Ministério Público, os media, as universidades, tudo o que um dia possa limitá-lo. Nenhum desses ataques serve para combater a corrupção. Todos servem para desmantelar os mecanismos que a podem combater. A narrativa da anti-corrupção é o invólucro. O conteúdo é outro.

“Você pensa que está a falar com um atrasado mental.” Não é um insulto, é um diagnóstico. É a descrição exacta do método, tratar os interlocutores como incapazes de raciocinar porque conta com isso. Conta que não vão verificar os números, não vão conhecer as datas, não vão distinguir a ELP das FP25. Quando o adversário conhece, esta noite conhecia, a única saída é berrar mais alto.

“Berre lá para a sua clientela.”

O debate estava previsto para 50 minutos. Durou hora e meia. Não porque houvesse muito para dizer, porque o Ventura precisava de tempo para não deixar dizer nada.

A questão que se pode colocar é se debater com o Ventura é dar-lhe palco. A resposta é que o palco já é dele. A questão é se alguém tem coragem de lá ir, nomear o que está a acontecer, e aguentar ser acusado de traição à pátria por ler documentos em voz alta. Esta noite o Pacheco Pereira aguentou. Com uma palmatória na mão, números na mesa e a moderação a trabalhar contra si.

Jacinto Furtado

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