Nas discussões em que participei em torno do XVI congresso no final de 2000 e, depois, nos meses seguintes em 2001, as duas formas de encarar o futuro político da nossa sociedade e do PCP colocaram a nu que não era difícil adivinhar aquilo que iria acontecer.
Enquanto que os dirigentes funcionários faziam análises políticas irrealistas e indiferentes às múltiplas chamadas de atenção sobre os inevitáveis perigos que já se perfilavam no horizonte, muitos militantes esforçaram-se para sublinhar que um partido comunista sectário e muito reduzido no seu peso político e eleitoral não era útil à luta dos trabalhadores pelos seus direitos e aspirações e ao desenvolvimento civilizacional por uma sociedade mais justa e humanizada.
Numa dessas discussões, houve quem referisse que a direção política do PCP ao acantonar-se numa posição de que era preferível assegurar o que consideravam ser a pureza ideológica, mesmo à custa do definhamento eleitoral, corria o risco de cometer a dramática proeza que nem 48 anos de ditadura fascista tinham conseguido: destruir o PCP.
No decurso de 2001 foram abertos processos “disciplinares” por apregoadas violações dos estatutos a destacadas militantes como Carlos Brito, Carlos Luís Figueira, Edgar Correia e João Amaral.
No fundo, a acusação que foi amplamente difundida a nível do aparelho partidário era que estes militantes teriam desenvolvido atividades que visavam destruir o PCP e a sua ideologia comunista.
Neste processo persecutório digno da classificação de purga, nada estava demonstrado quanto a essas atividades.
De acordo com as disposições estatutárias de então, os membros objeto destes processos deviam nomear “testemunhas abonatórias” para serem ouvidas por um dirigente de um dos órgãos executivos.
No caso do Engº Edgar Correia este nomeou como suas testemunhas a professora catedrática da Faculdade de Letras de Lisboa Manuela Esteves, o professor universitário João Cunha Serra e eu próprio.
Na conversa que tive com esse dirigente do PCP, nada, mas rigorosamente nada, foi apresentado como “delito” estatutário praticado por Edgar Correia.
E, claro, as expulsões foram consumadas como, desde o princípio, estava definido.
Uma vez aplicadas estas expulsões, eu decidi abandonar o PCP porque não me era possível tolerar perseguições políticas e delitos de opinião numa organização partidária que no seio da sociedade clamava contra outros perante os mesmos factos. Tolerar isso, seria violentar a minha consciência democrática e de homem livre.
Desde o referido congresso de 2000, que temos assistido a um contínuo definhamento eleitoral e político do PCP.
Em muitos aspetos, as múltiplas chamadas de atenção feitas há mais de 20 anos têm vindo a confirmar-se de forma angustiante.
Os fracassos sucedem-se e esta direção política do PCP a cada mau resultado afirma que a luta é difícil e descobre sempre aspetos positivos no que aconteceu.
Em nenhuma situação, existe autocrítica nem são tomadas quaisquer medidas para desencadear um amplo processo de profunda reflexão interna com vista à completa inversão deste caminho para o abismo.
É notório que os órgãos dirigentes do PCP não dispõem de massa crítica para interpretar a realidade e muitos menos para a transformar.
A indigência ideológica dos seus dirigentes atinge níveis extremos como temos visto em sucessivas declarações públicas cujo vazio político é tão marcado que ficam reduzidas a meras “conversas de café”.
O que é inacreditável, é que o PCP de um grande partido dos trabalhadores se transformou uma cooperativa de funcionários.
Os atuais métodos de comunicação e de organização do PCP revelam um completo fracasso.
Ainda no XXII congresso, realizado de 13 a 15/12/2024, a grande maioria das intervenções pareciam que estávamos num congresso realizado em 1974 ou 1975.
A terminologia utilizada e as análises apresentadas eram de uma sociedade completamente diferente daquela onde vivemos atualmente.
Continuar a falar de operários e camponeses a “seco” nos dias de hoje é não ser entendido por aqueles que trabalham em condições crescentemente desumanas e de sobrexploração.
As classes laborais e sociais mantêm-se, mas a sua consciência de classe alterou-se profundamente.
O ano passado, na Espanha, foi realizado um amplo estudo de opinião que concluiu que cerca de 80% dos operários e de outros setores de trabalhadores não se revêem como tal, mas que se consideram da classe média.
Não conheço nenhum estudo semelhante realizado no nosso país, mas seguramente a situação não será diferente.
Os operários continuam a existir e os camponeses também, mas não se consideram como tal.
De modo que, quando uma organização partidária, como o PCP, aparece a falar nos seus nomes, eles consideram que o discurso e as propostas não lhes dizem respeito. Logo, a mensagem não passa, logo, os votos não aparecem.
Na 1ª volta destas eleições presidenciais, o candidato apresentado pelo PCP, teve 1,8% de votos, pouco acima de um candidato que não tem quaisquer propostas a apresentar e que se limita à palhaçada política.
Esta direção política de funcionários descobriu, entretanto, uma nova linha de argumentação para promover os seus candidatos, ou seja, que são os mais bem preparados.
Mas para servem serem os mais bem preparados se os eleitores em geral e os trabalhadores em particular não lhes reconhecem atributos para receberem o seu voto?
Isso aconteceu com as últimas eleições para a Câmara Municipal de Lisboa no ano passado e agora com as eleições presidenciais.
No caso da Câmara Municipal de Lisboa, a direção sectária do PCP chegou ao extremo de recusar negociações com outras forças de esquerda para constituírem uma lista conjunta e preferiu entregar a maior autarquia do país a uma coligação da direita mais retrógrada que tem mantido a cidade de Lisboa cheia de buracos e com a maior parte dos dias cheios de lixo acumulado nas ruas.
Como é óbvio, a esmagadora maioria das vozes críticas nessa altura não visava colocar em causa a matriz ideológica do PCP, mas impedir que viesse a verificar-se aquilo que está realmente a acontecer.
A acusação sobre a matriz ideológica foi um mero pretexto para juntar apoios destinados a calar ideias de promover eleições nos organismos de base e intermédios, colocando militantes não funcionários em responsabilidades dirigentes.
A demostrar isto mesmo, temos o exemplo clamoroso do Carlos Luís Figueira, que foi um dos redatores do documento do Novo Impulso, e que por isso foi expulso, embora sob o falso pretexto “oficial” de querer acabar com a matriz ideológica comunista, e que nas eleições legislativas em 2024 apelou publicamente ao voto no PCP.
Afinal, este exemplo acabou por demonstrar que as acusações que conduziram às expulsões eram vergonhosamente falsas.
E um cidadão que tem esta atitude depois de ser expulso, mostrou a sua enorme dimensão de carácter e uma dignidade inatacável.
Para que serve na defesa dos interesses dos trabalhadores um partido comunista com 3 deputados?
Para que serve na luta pela democracia e no combate à extrema-direita fascista, um partido com 3 deputados e com “meia dúzia” de presidências de câmaras?
Enquanto tudo desaba, esta direção partidária mantem-se imperturbável e só se alimenta de chavões sem qualquer enquadramento com a realidade dos dias de hoje.
A pureza ideológica que tem sido tão esgrimida por esta direção partidária, está em plena contradição com os clássicos do ideal comunista que diziam “ que não pode existir socialismo puro da mesma forma que não há capitalismo puro”.
Uma das questões fundamentais que está em causa é a defesa do emprego e da subsistência pessoal por parte da generalidade dos dirigentes funcionários.
Quando se mistura emprego com militância não existem ideais que possam subsistir, porque a “barriga” fala sempre mais alto.
Se não acontecer um “sobressalto comunista” naquilo que resta da militância no PCP, que imponha um urgente debate sobre as formas de organização, de comunicação e de plena democraticidade interna, o desaparecimento deste partido, que é insubstituível no contexto da nossa democracia, estará iminente.
Tudo aponta nesse sentido, e os futuros atos eleitorais irão ser os “carrascos” finais.
Esta direção de dirigentes funcionários será a liquidacionista do heróico Partido Comunista Português.
A história a julgará !
E não lhe perdoará!
Mário Jorge Neves


Deixe um comentário