Se George Orwell escrevesse e publicasse hoje 1984, seria acusado de exagero, exactamente como são acusados todos os que se recusam a aceitar a normalização da mentira, da guerra e da vigilância. O problema não só é simples de entender como também é brutal, o mundo contemporâneo não tentou evitar a distopia, aperfeiçoou-a. As superpotências já não governam para os povos, governam esmagando os povos. Mentem, vigiam, invadem, exploram e têm o desplante de chamar a isso ordem internacional.
Este texto não pretende ser neutro. A neutralidade, num mundo estruturalmente injusto, é cumplicidade, jamais serei cúmplice. Este texto é um grito de revolta contra a arquitectura global de poder que transformou o século XXI numa versão fragmentada, higienizada e tecnologicamente eficiente de 1984.
Em 1984, o mundo encontra-se dividido em três superestados, Oceânia, Eurásia e Lestásia, permanentemente em guerra, com alianças mutáveis e inimigos intercambiáveis. Os povos nunca sabem quem é o verdadeiro inimigo, porque isso é irrelevante, o essencial é a guerra constante que legitima o controlo interno. Actalmente a lógica é a mesma.
A Oceânia de Orwell encontra eco o bloco liderado pelos Estados Unidos, um império que se apresenta como defensor da liberdade enquanto mantém uma máquina militar global, bases espalhadas pelo planeta e intervenções sucessivas justificadas por valores que raramente aplica de forma consistente. A vigilância é privatizada, terceirizada para gigantes tecnológicos, e a propaganda assume a forma de entretenimento, patriotismo mediático e saturação informativa.
A Eurásia reflecte-se na Rússia, herdeira de uma lógica imperial que substituiu a ideologia por nostalgia e força bruta. O poder sustenta-se na repressão interna, no controlo apertado da informação e na guerra como instrumento de coesão nacional. A verdade é inimiga do Estado, a dissidência, crime.
A Lestásia manifesta-se no modelo chinês, onde o controlo é exercido com eficiência tecnológica, disciplina social e uma narrativa de prosperidade colectiva. A vigilância é assumida, sistematizada e integrada na vida quotidiana. Não se promete liberdade, promete-se estabilidade em troca de obediência.
Tal como em 1984, estes blocos alternam rivalidade e cooperação conforme os interesses estratégicos, enquanto o resto do mundo serve de campo de batalha, mercado ou reserva de recursos. Em todos os blocos, a mentira é estrutural. Eleições, quando o resultado não convém, são desacreditadas. Invasões são rebaptizadas como operações especiais. Campos de vigilância são apresentados como programas de desenvolvimento. A verdade deixou de ser um valor, tornou-se um obstáculo. A desinformação não é caos, é método. Populações confusas são populações governáveis. Quando tudo é propaganda, nada é verificável. O Grande Irmão não venceu porque vigia todos, venceu porque já não precisa de se esconder.
Nos Estados Unidos, a vigilância opera sobretudo através do consumo e da recolha massiva de dados. Na Rússia, manifesta-se de forma selectiva, através do medo e da intimidação directa. Na China, assume um carácter total, integrado e sistemático. Três modelos distintos, um único resultado, cidadãos condicionados, previsíveis e politicamente dóceis. A privacidade foi redefinida como privilégio suspeito. A dissidência, como ameaça à segurança. Orwell descreveu este mecanismo com uma crua transparência, nós vivemo-lo com inquietante normalidade.
A guerra tornou-se o motor central do sistema global. Alimenta indústrias, justifica orçamentos obscenos e mantém populações inteiras em estado de emergência psicológica permanente. Os Estados Unidos exportam guerra directa e indirecta. A Rússia exporta conflito para preservar zonas de influência. A China exporta dependência económica e controlo infra-estrutural. Diferem nos métodos, coincidem no desprezo pela soberania dos mais fracos. O Sul Global não é parceiro, é recurso. Recursos naturais, mão-de-obra barata, territórios sacrificáveis. A ordem internacional assenta numa pilhagem organizada, legitimada por discursos morais selectivos.
1984 não falhou como previsão. Nós falhámos como leitores!
A liberdade não desapareceu subitamente, foi negociada, fragmentada e vendida em nome da segurança, do crescimento e da estabilidade. As superpotências não competem por um mundo melhor, competem por quem controla a narrativa, os dados, os recursos e o medo.
Resistir não é um gesto romântico nem simbólico, é uma prática concreta, diária e incómoda que não começa nas urnas nem termina nas redes sociais. Começa na recusa consciente de aceitar a mentira como normalidade.
Resistir é rejeitar a propaganda, mesmo quando confirma as nossas crenças, é desconfiar de narrativas simples em conflitos complexos, é recusar a lógica do “mal menor” quando esta serve para justificar crimes, invasões e vigilância massiva.
Resistir é defender direitos universais sem bandeiras selectivas. Os direitos humanos não são instrumentos geopolíticos nem prémios para aliados, valem em Washington, Moscovo, Pequim e em qualquer território sacrificado em nome de interesses estratégicos.
Resistir é romper com a ilusão de neutralidade tecnológica, exigir regulação democrática da vigilância, dos algoritmos e das plataformas que moldam o debate público. A tecnologia não é neutra quando serve o poder e silencia a dissidência.
Resistir é rejeitar a guerra permanente como destino inevitável. Denunciar o complexo militar-industrial, a economia do conflito e a normalização da destruição à distância. Não há guerras limpas, humanitárias ou necessárias, há interesses, lucros e cadáveres.
Resistir é recuperar o pensamento crítico como acto político. Ler, questionar, debater, organizar e recusar o cinismo que afirma que “sempre foi assim” ou que “nada pode ser feito”. Essa é a mentira final do sistema.
Não há um único Grande Irmão, há uma arquitectura global de poder que se alimenta da apatia, do medo e da confusão. Desmontá-la começa por um gesto simples e radical, ver com clareza e recusar obedecer em silêncio.
Orwell não nos deixou um roteiro para a vitória, deixou-nos algo mais perigoso para o poder, a capacidade de reconhecer a mentira quando ela governa. E isso, hoje, já é resistência.
Jacinto Furtado


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