Quem precisa de tiranos? (por Anabela Ferreira)
Sentei-me ao lado de uma velha preta linda que fazia charutos. O que eu queria era histórias. O que ela queria era alguém que a ouvisse contar histórias. No final ganhei um charuto que me enfiou no bolso sem que ninguém visse. Ainda hoje o guardo algures. Assim como as histórias…
Como é que poderei branquear a imagem de Fidel?
Astuto, inteligente, manipulador, como qualquer bom tirano que se preze (de repente lembrei-me de Salazar) morreu com as mãos manchadas de sangue. Isso para mim é sinónimo de tirania.
Salazar deixou um país de miseráveis com fome e analfabetos. Fidel deu ao seu povo a capacidade de ler e estudar e um pão racionado.
Dominou quase eternamente pelo medo/terror. Fuzilando, prendendo, mandando gente para campos de “reeducação.
Como Salazar e outros tiranos.
Sobreviveu politicamente no poder, a dez presidentes americanos eleitos democraticamente (todos eles obstinados e obtusos tiranos na decisão de manter um embargo que afectava milhões de vidas apenas com a visão tirana de querer dominar o mundo), mas sem que daí viesse liberdade para o seu povo. Como Salazar.
Como não lhes chamar tiranos?
Compreendo África e os muitos movimentos de libertação das potências coloniais (entre elas a de Salazar) que muito devem a Fidel, aos milhares de militares, médicos, professores que enviou para combater o imperialismo. Porém África, hoje, com todos os tiranos africanos que teve e tem, depois de ver mortos os homens que fizeram as revoluções, também não está melhor.
Tem fome, miséria e falta-lhe paz.
Fidel sobreviveu a todos os atentados à sua vida e tiranizou Cuba. Pergunte-se a quem se atirou para dentro das balsas como o fazem hoje os que se atiram ao Mediterrâneo.
A tirania teria sido o caminho de Amílcar Cabral? Não me parece. Teria sido esse o caminho de Eduardo Mondlane? Não me parece. Foi esse o caminho de Mandela?
Cuba tem fome de liberdade e de crescimento. Porque Fidel a enclausurou ganhando um demónio a quem culpar. Porque o poder tem um cheiro demasiado saboroso. Cheira a rumba com rum, acompanhado de Habanos e isso é bom demais.
E se tivesse dado pão, educação, consciência e liberdade?
Pergunte-se a quem se atirou para dentro das balsas como o fazem hoje os que se atiram ao Mediterrâneo. Pergunte-se aos mortos.
Pensemos as revoluções. A França depois da sua arranjou um Napoleão. Cuba, China, Russia, Angola, Guiné-Bissau …Os exemplos sucedem-se. Basta pegar num mapa-mundo.
Por isso gosto de olhar e aprender para lá das conquistas das revoluções.
Concluo com a História que tiranos substituem tiranos. Sejam homens sejam sistemas terminados em “ismo”.
Neste momento tudo o que o mundo precisa é de novas revoluções. Nos velhos nomes dessas coisas todas que os revolucionários (eu incluída) apregoam na praça: paz, liberdade e pão. E já agora fazendo o favor, Educação, justiça, oportunidades iguais para que cada um possa florescer em vidas dignas. Isso é que seria uma revolução socialista seja lá o que isso for.
Sem tiranias, nem tiranos. Nem donos, nem amos.
Que mal pergunte, alguém precisa deles?
Em teu nome velha preta linda certamente sobrevivida por Fidel, revolucionário tirano.

