A 14 de Abril de 2026, no programa “Dois às 10” da TVI, durante o segmento “Crónica Criminal”, Cristina Ferreira olhou para a psicóloga em estúdio e disse o seguinte: “mesmo que ela tenha dito para parar, quando são quatro que estão naquela adrenalina de estar a fazer sexo com uma rapariga, alguém ouve… claro que tem de ouvir, mas alguém entende aquele ‘não quero mais’?”
A “ela” é uma menina de dezasseis anos, os “quatro” são os influenciadores que começaram a ser julgados a 13 de Abril no Tribunal de Loures, acusados pelo Ministério Público de um crime de violação agravada e vinte e sete crimes de pornografia de menores agravados. Dois dos arguidos respondem ainda por crimes de ofensa à integridade física. A violação foi filmada, foi partilhada, um dos vídeos passou das trinta e duas mil visualizações antes de alguém reparar e foi o Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, onde a jovem foi assistida, que denunciou o caso às autoridades.
É sobre esta menina que Cristina Ferreira se perguntou, em directo, se “alguém entende” quando ela disse para parar. Não foi pergunta. Foi sentença.
Percebo que um programa da manhã precise de temas. Percebo que a “Crónica Criminal” viva de casos mediáticos. O que não percebo, nunca vou perceber, é como é que a directora de Ficção e Entretenimento da TVI, e accionista da Media Capital (a dona do canal) com 2,5% através da DoCasal Investimentos, olha para a palavra “adrenalina” e a usa para descrever o que quatro rapazes sentem enquanto violam uma adolescente.
A adrenalina é deles. A dor é dela. Cristina Ferreira escolheu falar da adrenalina.
E reparem bem na lógica da “pergunta”, porque é nela que está o estrago. Se “alguém em adrenalina não ouve um não”, então o que a apresentadora sugere, queira ou não, é que o estado emocional do agressor atenua a culpa. É transferir o problema da cabeça de quem viola para algum lugar difuso onde “a situação ultrapassou toda a gente”. Ora isto não é só moralmente aberrante. É tecnicamente falso.
No direito penal português, o estado emocional do agressor não o absolve, não pergunta se o agressor estava calmo ou em “adrenalina”, pergunta se houve consentimento. E o consentimento tem de ser livre, actual, e pode ser retirado em qualquer momento. Não existe nenhuma cápsula jurídica chamada “estavam em adrenalina, logo não eram responsáveis”. Se existisse, o Código Penal caberia numa página, e os tribunais estariam vazios.
Apliquem a mesma lógica a qualquer outro crime. Quatro homens numa discussão, a adrenalina a subir, um deles dá uma facada ou um tiro. Alguém ouvia o aviso, no meio daquilo? Por essa razão seriam absolvidos? Não. Seriam julgados. E seriam condenados. O Código Penal contempla a emoção violenta, chama-lhe homicídio privilegiado, mas a pena continua a ser de prisão. Atenua, não absolve. E aplica-se a circunstâncias muito específicas, que não incluem “estar em cima de uma miúda”.
O que Cristina Ferreira fez foi mais grave do que um comentário infeliz. Foi, a coberto de uma pergunta, sugerir ao público uma doutrina que não existe em lado nenhum, a de que há estados mentais em que o “não” deixa de valer. Nenhum tribunal português alguma vez aceitou essa tese. Só uma apresentadora de televisão, em directo, com a psicóloga ao lado a acenar.
E não foi a primeira vez. A 2 de Junho de 2025, a mesma apresentadora, no mesmo programa, sobre o feminicídio de Conceição Figueiredo, uma mulher de 69 anos assassinada em Oliveira do Bairro pelo ex-namorado, Jair Pereira, disse que “se calhar” a vítima “se pôs a jeito” para que aquilo acontecesse, “depois do baile”, ao entrar num carro com ele. A 12 de Março de 2026, a ERC concluiu, em deliberação pública, que aquelas declarações “transferem a responsabilidade do sucedido para a(s) vítima(s)”, abriu processo de contraordenação contra a TVI, e a coima pode chegar aos cento e cinquenta mil euros.
Entre o “pôs-se a jeito” e o “alguém entende aquele não” vão dez meses. O guião é o mesmo. A vítima é sempre a suspeita. O agressor é sempre um rapaz em “adrenalina”, um homem que ela “acompanhou”, um namorado de quem ela “sabia”. Muda a data, muda o crime, muda o programa. A moldura é sempre a mesma.
Chamar “lapso” ao primeiro foi generoso. Chamar “lapso” ao segundo é cumplicidade.
E depois há a TVI.
O comunicado que a estação de Queluz de Baixo publicou na noite de 15 de Abril é um documento que merece ser lido em voz alta, de preferência em frente a um espelho. Lamenta “a forma, o tom, a descontextualização e a manipulação grosseira” com que as palavras da apresentadora estão “a ser interpretadas e disseminadas”. Explica que aquilo não foi opinião, foi “uma pergunta formulada no exercício das suas funções de apresentadora”. E remata com a frase mais reveladora do texto “Os tribunais a quem se recorrerá tratarão de repor a justiça.”
Traduzindo, a TVI não vai a tribunal contra os influenciadores que violaram uma adolescente. Vai a tribunal contra quem reagiu mal às palavras da sua accionista.
Reparem no que o comunicado diz, de resto. Refere-se ao que Cristina Ferreira fez como “pergunta formulada no exercício das suas funções de apresentadora”. Apresentadora. É a palavra que a própria TVI usa. E usa bem, porque Cristina Ferreira não é jornalista. Nunca foi. Não tem carteira profissional de jornalista. Não está sujeita ao Código Deontológico dos Jornalistas. Não responde à CCPJ.
Isto importa. Importa porque a “Crónica Criminal”, que analisa casos em julgamento, que discute acusações do Ministério Público, que põe juristas e psicólogos em estúdio a comentar crimes reais, disfarça-se de jornalismo sem suportar nenhuma das obrigações do jornalismo. É entretenimento fantasiado. E quem o conduz, pela própria admissão da estação, não é uma jornalista a fazer perguntas para esclarecer o público. É uma apresentadora a gerir um espectáculo matinal em que o pano de fundo é, esta semana, uma menina de dezasseis anos violada por quatro rapazes.
Sei o que virá como resposta. Que mesmo uma apresentadora pode fazer perguntas. Podem. E uma apresentadora que não é jornalista, se tem algum pudor não faz essas perguntas, ou fá-las em casa. O que não faz, ou não devia fazer, é transformar um julgamento por violação de uma menor num ponto do alinhamento entre o segmento de culinária e o intervalo de publicidade.
É quase poético. É quase perfeito.
A estação que transmite a “Crónica Criminal”, que explora casos de violência de género em horário matinal, que na mesma emissão do “pôs-se a jeito” passou imagens de outra mulher a ser esfaqueada com 150 facadas, pelo que a ERC determinou, nessa mesma deliberação de 12 de Março, abrir processo de contraordenação por emissão de conteúdos violentos fora do horário protegido, essa estação descobriu, de repente, que há “ofensa gratuita e leviana” a circular sem controlo. Mas a ofensa não é a que sai do estúdio. É a que entra.
O alcance do programa não é pormenor. É das manhãs mais vistas da televisão portuguesa, e muita da audiência é feminina. O Guia de Boas Práticas dos Órgãos de Comunicação Social na Prevenção e Combate à Violência contra as Mulheres e Violência Doméstica, promovido pela Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género, recomenda expressamente que os media evitem discursos que culpabilizem vítimas ou desresponsabilizem agressores. A ERC, na deliberação de Março, escreveu que declarações deste teor “responsabilizam e revitimizam” as vítimas e “podem ter impacto nas suas decisões de denunciar”.
Isto não é opinião, é doutrina do regulador e a TVI, que tem licença para emitir precisamente porque se compromete a respeitar estas regras, diz-nos agora, de peito feito, que vai processar quem chamar as coisas pelos nomes.
Sei o que vão dizer. Que as audiências mandam. Que o público quer. Que é a televisão que temos.
Não é verdade. É a televisão que aceitamos. Aceitá-la em silêncio, ou aceitá-la com um comunicado a ameaçar tribunais, é o mesmo gesto.
Entretanto, foi a mãe da menina de Loures que apresentou queixa às autoridades sobre o caso da filha e foi assim, através da família, que o crime chegou à justiça. Enquanto a TVI se ocupa a redigir comunicados sobre “manipulação grosseira” e a preparar processos contra anónimos no Instagram, uma vítima de dezasseis anos é transformada em tema de conversa matinal por uma apresentadora que pergunta se “alguém entende” um não.
Essa queixa, a da mãe, vale mais do que todos os comunicados da TVI juntos.
E não está sozinha. Até 16 de Abril, dois dias depois do programa, a ERC tinha recebido 3.300 queixas sobre aquela “pergunta” de Cristina Ferreira. Três mil e trezentas. Para efeito de comparação, o caso “pôs-se a jeito” rendeu, em 2025, 33 queixas e mesmo assim chegou para a ERC abrir processo de contraordenção à TVI. O “Secret Story 10”, até início de Abril, tinha somado 60. Trinta e três. Sessenta. Três mil e trezentas. Não é controvérsia. É um vendaval.
A TVI quer que acreditemos que isto é “manipulação grosseira”. Três mil e trezentas pessoas, cada uma a escrever a sua queixa, cada uma a identificar-se, cada uma a perder o seu tempo a descrever exactamente o mesmo problema. Ou Portugal inteiro foi vítima de uma campanha coordenada, ou o problema é outro, é que as pessoas perceberam perfeitamente o que foi dito e foi por isso que reagiram.
O problema não é apenas Cristina Ferreira. Ela é um sintoma. O problema é uma indústria onde a apresentadora é também accionista, é também directora.
A parte mais absurda de tudo é como isto se resolvia. Bastava uma frase. Uma só. “Lamentamos, foi um momento infeliz, vamos ter cuidado para que não se repita.” Doze palavras. Não custava dinheiro, não exigia advogados, não precisava de comunicado às redações. E tinha ficado bem. Tinha ficado, até, bastante bem.
Em vez disso, escolheram o comunicado e o tribunal. Escolheram classificar três mil e trezentos portugueses de manipuladores. Escolheram explicar ao país que nós é que percebemos mal.
A TVI ameaça os tribunais. Óptimo. Que vá. Mas que explique, primeiro, à família daquela menina de Loures, por que razão o orgulho da apresentadora da casa valeu mais, naquela redação de comunicado, do que doze palavras de humildade.
Jacinto Furtado


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