Um conto reflexão sobre os restos do Império

Sou uma retornada às conversas que não acabam nunca, entre os meus antepassados brancos e os meus antepassados pretos; o assunto descolonização é frequentemente revisitado. Vou assuntar.
Recentemente , numa destas noites de amigos, conversas, poesia e música, uma mulher ofereceu-me um fio com o mapa de África e disse-me: “Assim que o vi, pensei em dar-te logo.
O texto começou a nascer nessa noite. Sobre retornados, refugiados, colonos e colonizados. E sobre a ponte aérea graças à Tap. Os fantásticos incansáveis.
Este tema não acaba. Tem apenas meio século em liberdade; não foi suficientemente dissecado, nem estudado, nem descolonizado. Muito menos criminalizado.
África faz o seu percurso, a gatinhar até saber de novo andar sozinha. Que não me venha um português dizer “ Olha como aquilo está! Precisamos de lá voltar para ajudar os pobrezinhos”. Responderei: “Olha como isto está, não tens vergonha? Tu beneficiaste de cinco séculos, eles foram enganados. Se não sabes viver com a tua culpa, faz crochet. Acalma!”
“Não sei se me mato, se deixo a vida acabar-me. Destruído já estou”, pensou Vasco ao presenciar o caos da sua vida e a de centenas de milhares de homens e mulheres que, como ele, se construíram em África. Nunca pensaram em sair de Angola e de Moçambique. A grande maioria tinha consciência de que a independência teria de chegar, à semelhança do que acontecia noutros países africanos colonizados por bandeiras europeias. Os séculos de ouro da colonização aproximavam-se a passos largos do fim.
“Vasco, aqui no movimento não podes fazer mais nada. Estamos divididos; há facções em movimento; todos querem ser ouvidos. Vai embora, disse-lhe Kito, o seu parceiro angolano das reuniões clandestinas do partido. Eram ambos comunistas em luta pela liberdade. Tinham como responsabilidade  explicar o significado da independência quando visitavam os bairros.
A partir do momento da revolução de Abril de 74, com a independência unilateral da Guiné-Bissau, instaladas as ameaças de insegurança alimentar e física, a instabilidade política e a falta de credibilidade das políticas de ambos os envolvidos, muitos traçaram a decisão de sair e fizeram-no. Por estrada, por mar e por ar.
Outros milhares conservavam a esperança de ficar para ajudar a construir um mundo novo. Eram quadros; sabiam o que faziam; seriam curiais para o processo de transição; o seu saber e conhecimentos fariam a diferença na passagem entre sistemas de governo. Para que não acontecesse o caos.
As suas vidas eram importantes para o novo país com os novos administradores. Houve conselhos nesse sentido. Não houve ouvidos. Porque haveria de haver questionava o outro lado da moeda? Isto é nosso e só nosso…
A guerra colonial de onze anos, por teimosia do ditador, tinha roubado cerca de onze mil soldados (só do lado português) e cerca de cem mil civis africanos. Contabilidade factual assustadora.
Para outros, a perda de poder como colonos seria um desastre maior. Além dos negócios, da fonte de rendimento, das casas, dos criados, da vida folgada, o véu do desconhecido, o medo de que um cano de esgoto levasse todas as certezas eram assustadores.
Ao normal cidadão, o desconhecimento das intenções, a dúvida e o medo tornaram-se o quotidiano das gentes que viviam em Angola e Moçambique(em particular).
Meio milhão de almas perdidas no limbo caíam do céu, apareciam por detrás das ondas, ao largo do Bugio. Era o inverno do descontentamento no novo campo de refugiados Humberto Delgado, o transformado aeroporto de Lisboa, espalhando-se por bases aéreas em solo português, hotéis, pensões e casas de família (para quem as tinha em Portugal). O IARN e a Cruz Vermelha não tinham mãos a medir com a fome, o trauma e o abandono destes filhos de um deus trágico.
Os portos recebiam as almas que penavam, ao fazerem as navegações ao contrário daquelas iniciadas há seiscentos anos.
Vasco foi para casa dos pais. A família já lá estava. Renitente em deixar Angola, no começo da ponte aérea, mandou primeiro a família. Anos antes, tinha saído de Portugal profundamente enojado com a ditadura; aliava-se naturalmente aos movimentos independentistas.
-“Se não sais de cá, levas um tiro e vais na mesma, mas morto. Se És o colono e esta já não é a tua terra. Não te precisamos.” Gritou, a voz encolerizada de Kiko. O colonizador não nos deu acesso aos mesmos privilégios. Não preparou quadros, não nos deu acesso igual à educação, às possibilidades de desenvolvimento na estrutura da casa que montou. Foi como se o colono tivesse construído uma casa grande e ao lado uma sanzala ou favela ou musseque. A segregação era o modus operandi e o modus vivendi. Eu estudei porque tive uma autorização especial do meu patrão. O colono deixava entrar na casa grande quem lhe convinha e interessava, sobretudo se os naturais viessem defender os interesses dos donos da casa grande. É esta verdade de factos que devemos ensinar aos nossos. À maioria era vedado o acesso a recursos, privilégios e direitos como cidadãos. Esta é a realidade da hierarquia dominante entre colono e colonizado. Vai-te embora. És o representante desta hierarquia”. Kiko abraçou-o pela última vez.
Vasco deixou a chave na porta de casa, guiou até ao aeroporto, juntando-se a uma fila de carros interminável, estacionou, deixou as chaves na porta do Renault. Ficaria tudo para o Kiko. Atirou a mochila sobre o ombro carregada com sonhos desfeitos, e, avançou devagar até chegar ao Boeing 747 que embarcava os mais de trezentos colonos remanescentes no último voo da ponte aérea – ele era um deles, agora refugiado em fuga de uma guerra civil que nunca tinha previsto nem querido e se aproximava a passos largos.
Os interesses dos partidos de esquerda e da direita, sul-africanos, norte-americanos, cubanos, russos e portugueses, movimentavam-se nas sombras, ficando em terra. Com as entranhas pelo lado de fora, entrou na  barriga do Jumbo.
Tinha conseguido um lugar no cockpit junto do primo, o Comandante Osvaldo, que lhe tinha ligado nessa manhã: “vem comigo, tenho lugar para ti, este é o último voo”.
A independência aconteceria poucos dias depois. Ao fim de quinhentos anos de domínio português.
Ao aterrar em Lisboa, passou a ter outro nome – “retornado”.
Nascidos em África, descendentes de várias gerações de colonos, ou nascidos em Portugal, buscaram vida em África, hoje talvez fossem refugiados inocentes. Esse seria talvez o nome mais correcto. Não queria saber. Nada sentia. Nada fazia sentido. Tinha o corpo e o cérebro paralisados. Uma vida inteira ficava para trás. Era a morte sentida, com vida. Um capítulo da história colectiva, e sua, que se fechava.
O próximo, a recomeçar, carregaria um stress traumático que seria vivido em contínuo profundo, do qual nunca se iria refazer. Se pelo menos tivessem sido negociadas formas de ficarem, de ajudarem, desta vez com dirigentes africanos, talvez o futuro viesse a ser diferente…Ou não.
Quem sabia responder sobre o futuro?
“Não tens culpa, mas, de facto, não tens direito a reclamar sobre o que não te pertence e que um dia, no passado, foi tomado à força”. As palavras de Kiko ecoavam na sua cabeça.
No entanto, foram gerações de vidas construídas por terras africanas, terras essas invadidas e ocupadas sem pedir licença, pelos antepassados portugueses muitos séculos antes.
Portugal, ,encostado entre cordas sobranceiras à montanha e ao oceano, pequeno, expandia-se para o sul, numa linha que se estendia além do horizonte, para as terras com as quais os Cruzados navegadores se cruzavam esperando encontrar a Terra Santa.
Encontravam, sim, um solo sagrado com mão de obra que lhes serviria para trabalhar nas plantações de algodão, café, cacau, nas minas de ouro, entre tantas outras serventias, incluindo as violações das mulheres pretas para gerar mais mão de obra gratuita, perpetuamente. Um feito inédito na história humana.
Os portugueses sempre fugiram da fome, da miséria, da peste, das fogueiras da Inquisição, dos desmandos vindos da monarquia, do Estado Novo e da república.
Nas cascas de noz dos navegadores, posteriormente na Companhia das Índias, mais tarde nos paquetes, na frota onde constava o Infante Dom Henrique, até às mais recentes nas companhias de aviação low cost, saíam para não regressar.
Os motivos são sempre os mesmos que levam migrantes a migrar. O costume.
Vasco buscava uma saída para a pequenez da sua terra dominada pela tacanhez do ditador Salazar. A Guiné-Bissau e posteriormente Angola foram os seus oásis.
Como ele, tantos outros buscavam encontrar um pote de ouro por detrás do arco-íris na simplicidade de construir uma vida familiar, dar-lhe sentido, buscar alegria e felicidade. Encontraram-na no húmido e quente ventre sagrado africano.
Os vendilhões do tempo fazem o que sempre fizeram – encontrar lugares e gentes para explorar, obter lucro, atingir o máximo de vantagens e privilégios.
O encontro com África serviu a ambos. Os vendilhões, por serem cristãos, necessitavam de uma teoria que justificasse a escravidão dos povos encontrados. Tarefa fácil.
Para aqueles chamados a colonizar, era a visão de futuro.
Padres, putas, ladrões, na Companhia das Índias, pescadores, empregados de escritório, comerciantes, jornalistas, artistas, industriais, desportistas, ou qualquer outra profissão, braçal ou intelectual, todos visionavam as possibilidades de evolução por terras de futuro.
Criativos perante as perspetivas de lucros avultados, afirmar que um preto ( nunca antes visto) não era um humano foi fácil. Por ter uma cor errada, diziam, a preta, iria fazer cátedra como teoria e transformada em verdade científica.
Nascia a base do racismo – vestido de mentira. Goebbels inspirar-se-ia nesta modalidade de propaganda/manipulação. Uma mentira repetida (e ensinada) muitas vezes, e o cérebro acredita ser verdade. Tornou-se, antes de mais, a história com uma única versão. Uma história imunda, perversa, de tráfico humano, comercializando homens, mulheres e crianças pretas como objectos desumanizados.
Nascia um dos crimes mais hediondos contra a humanidade.
Vasco assentou arraiais, constituiu família africana e foi feliz. Até ao dia em que teve de subir no último avião da ponte aérea, apático, traumatizado, consumido pela tristeza, quando caiu do céu na sua mãe Lisboa, como retornado, refugiado de uma descolonização à qual se sucederia uma guerra civil, pelas razões dos homens do costume, sem distinção de cor, na única raça que a espécie humana conhece: poder e dinheiro.
“Terá sido esta vida em vão”?
Vasco reagiu, reconstruiu-se como a quase totalidade do meio milhão regressado ao país colonizador de origem, mas nunca se recompôs. Como ainda não o fizeram as suas terras e povos africanos. Ambos vivem escondendo traumas.
Portugal, pequeno e tacanho, racista e invejoso, não recebeu bem esta gente refugiada, que, sem saber, saía dos aviões e dos paquetes para uma jaula de predadores prontos a devorá-los. Contudo, o país muito tem a agradecer a estes quadros médios e superiores dos sectores público e privado, engenheiros, arquitectos, advogados, professores, artistas, atletas, médicos, gente das limpezas, que arregaçaram as mangas no momento em que caíram do céu em solo português, sobrevivendo, transformando traumas em novos sonhos, tornando-se o motor do progresso no país.
Esta é a história de um lado da História.
Do outro lado estão as personagens da história que foram retratadas como paisagem da história, da savana às florestas. Dos frescos rios, ao quente mar.
O colono (do país colonizador) encarou o colonizado como aquele personagem que faz parte da paisagem, não participante da história. Quando o fim aconteceu e a ponte aérea começou, não foi nem com doçura nem com fraternidade. Tenho a ideia de que ninguém contou com o passado ao fazer as contas daquele presente. Nem hoje…

A história continua…

Anabela Ferreira

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