Prémios Darwin

Esta é uma crónica de um desastre anunciado, neste país de nódoas políticas que sempre viveram acima das possibilidades de quem trabalha dobrado por baixos salários, precariedade, recibos verdes e escolhas entre pagar a renda e a alimentação. Ou emigrar.

Anunciam um pacote laboral que serve apenas uma classe. E uma prestação social única aos chamados “subsídio-dependentes”, com trabalho social e uma linha directa para quem quiser denunciar os bandidos que vivem no café enquanto recebem RSI.

Há abusos?Há! E onde começam os abusos? E onde começam os roubos e a corrupção?(questão retórica).

Um milhão e meio de imigrantes “invadiram-nos” e sustentam a segurança social. Factos. Há pouco tempo, um milhão e meio de cidadãos portugueses (uma sangria de cidadãos qualificados) foram convidados a sair da sua zona de conforto e a emigrar.

Pela mesma porta entraram os fundos imobiliários e outros fundos rotos. Nós ficámos pendurados nos buracos. Ficámos ainda indiferentes aos papéis no Panamá e às múltiplas formas criativas de fuga aos impostos. Aos bancos que sangraram e sugaram o Estado e aos cidadãos privados que neles investiram.

Tal como somos indiferentes ao silêncio e à fuga ao estudo dos erros históricos do fascismo, do racismo e da (des)colonização. Porque falo nisto? Porque faz parte da história. E isto está tudo ligado.

Começa-se assim…Divide-se, fomenta-se a ignorância, estimula-se o ódio ao vizinho, varre-se para longe o assunto das desigualdades e da falta de direitos, cria-se ressentimento e inveja. Está a tenda do circo montada enquanto se atiram estas migalhas de pão.

Mascarando o verdadeiro culpado, que nas costas se ri e movimenta o chicote. De cima para baixo. Assim se consegue chegar ao poder e ao respectivo controlo.

É o cão que defende cegamente o dono, recebe pouca ração e dorme ao relento.

O que interessa é ter um estado ausente, serviços privatizados, um estado investidor nas empresas privadas para que estas deem lucros aos accionistas. Se esta casta de ricos estiver em dificuldades, o Estado salva.

O Estado somos nós, não esqueçam, nunca.

Pouco estado, pior estado, sociedade mais desigual, cidadãos com menos direitos que tudo pagam e fazem tiktokes. Simples.

Tudo é um negócio. Tudo pode ser privatizado. Para conseguir os seus objectivos, o sistema precisa ser autoritário e fascistóide.

Perguntem como foi aos descendentes dos escravizados, quando, ao final da exploração humana mais deplorável da História, esses seres humanos conseguiram ser livres.

Os seus donos receberam indemnizações e benesses do Estado por ficarem sem a mão de obra escrava.
O preto ficou na sanzala, sem tecto, sem pão, sem educação, sem terra, sem salário. E direitos? E as desigualdades?
Estão a ver as semelhanças? Não é coincidência.

Nem sequer sou contra a existência de empresas privadas. Sou contra a exploração e esta obscena e má distribuição da riqueza. De onde ela vem? Da ganância. Como lá atrás em 1452.

Perguntem às putas, aos demais pobres e miseráveis que embarcaram nos “cruzeiros” da companhia das Índias em busca de uma vida melhor além mar, enquanto nas cortes e nos conventos se vivia em fausto.

Sempre foi assim na nossa história. Relembro ter sido uma bula papal, a “Domus Diversas” em 1452, que deu carta branca aos monarcas e ao Infante Dom Henrique para a prática da Escravatura, inventou o racismo como sistema de divisão e propagou a novidade científica da inferioridade do indígena. Já nessa altura quem engoliu a narrativa e a praticou deveria ter recebido um prémio Darwin. Porém, os únicos letrados eram a gente do clero e alguns nobres…

Foi fácil espalhar “fake news” entre os analfabetos.

Com as colonizações nascia o capitalismo. A exploração de uma classe sobre a outra que produzia, de borla.

Dos tempos feudais, da Idade das Trevas aos dias de hoje, temos muitos galardões Darwin para entregar. À espécie. A cada um que se deixa cair no circuito da ignorância.

Deveríamos criar um prémio Darwin para quem se deixou comer na arrogância de considerar educação, cultura e ciência uma arrogância dos esquerdalhos subsídio-dependentes.
Outro prémio na categoria de quem aceitou a divisão: Estado versus privado.
Outro ainda, para os que acreditam que a competição é o único meio para atingir a iluminação.

Quem esqueceu que o capital humano instruído e crítico é o único capital que produz não apenas bens, mas sim sociedades vigorosas, equilibradas, humanistas, mais fortes, em permanente construção, desenvolvidas e, sobretudo, capazes de sobreviver, está esquecido da sua humanidade.

Essa é a única lei do mais forte. O teu e o meu inimigo são os ricos-(esses sim), subsídio-dependentes, da casta dos que não produzem. Enquanto uns são mais ressentidos contra os pobres, cada dia que passa eu fico mais zangada com as carraças que sugam o sangue e vivem no cachaço do pobre que produz.

Deus, hoje, que é dia do teu corpo (nem sabia que tinhas um; pensei que fosse uma hóstia feita de farinha sem glúten e de vinho reserva), não lhes perdoes. Porque “eles” sabem bem o que fazem. E repetem a fórmula exaustivamente.

Nada disto é por acaso. Foi tudo muito bem estudado. A pobreza é um grande negócio. E a miséria de espírito a partir do ódio e da denúncia entre vizinhos (pobres), é a maior prova científica da nossa tendência para a ignorância, que Darwin percebeu – não é o mais forte que sobrevive, mas o mais esperto.
E desumano. A categoria vencedora.

Irra!Valha-nos Deus!

Anabela Ferreira

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *