Moçambique, kanimambo

Em mim guardo, às claras, um pedaço de todos os lugares por onde passei. Todos os lugares que me acolheram, por recantos, escondem pedaços de mim. Desses pedaços conto histórias.

Ficam a saber. Esta é uma karingana wa karingana.

De um dos lugares preferidos, Moçambique faz parte. De norte a sul viajei, intensamente vivi, trabalhei para comunidades remotas, conheci pessoas e fiz amigos que enriqueceram a minha existência, de tal forma profunda que guardo um superávit. Amei, chorei e ri. Quase morri.

Sou grata pelos tempos que nunca esquecerei, tanto quanto se pode amar um colo que acolhe. Em Quelimane, na Zambézia, fui “rebaptizada” – fizeram-me filha da terra numa cerimónia inesquecível, no dia do meu aniversário.

No Dondo, Beira, com uma malária quase mortal, fiquei à mercê de ser encontrada por guerrilheiros. Renamo e Frelimo estavam de novo envolvidos em combates. Numa aldeia no meio de denso mato, estava sem poder fugir, com febres altas, debaixo de uma rede mosquiteira, surda, como efeito secundário do quinino que já rareava na zona; tantos eram os casos nas aldeias vizinhas.

Fui “pescada” e levada por uma médica local. Levou-me para a sua casa, salvando-me a vida. Esta aventura aconteceu poucos dias depois de ter ficado presa na Beira, sem poder regressar a casa, porque os confrontos recomeçaram. Estava com o meu amigo (o jornalista falecido, Fernando Veloso, que tinha ido ver o que se passava no terreno), após um encontro com familiares do Carlos Cardoso (o jornalista assassinado em Maputo anos antes).

Com o pintor e contador de histórias Malangatana vivi momentos inesquecíveis, com partilhas de histórias à boa maneira dos nossos antepassados, nascidas na oralidade, enquanto ele pintava uma tela de sete metros, a celebrar o ano internacional do voluntário, tela essa que levei debaixo do braço para a expor na Suíça, junto de voluntários de todo o mundo.

Preferia não ter tido estas e muitas mais experiências loucas com amigos excepcionais, puros anjos da guarda? A Vera, o Amílcar, a Isabel, a Ana, a Suneida, a Sónia, a Célita…eish! E tantos mais.

Nem pensar! Repetiria tudo. Excepto as malárias.

És um amor puro. Estás terra minha, marcada a tinta indelével na minha pele. Nas entranhas.

De Pemba a Ponta do Ouro, passando pela Beira até Inhambane, à Ilha de Moçambique, Bazaruto e Quirimbas, do Pomene a Quelimane, a Tete e Manica, a Cahora Bassa, do Dondo ao Xai-Xai, Beira, Maputo, Bilene, Ilha dos Portugueses, Inhaca, Reserva dos elefantes é só pura beleza.

Escrevo para ti, Moçambique. Hoje, ao dobrar a esquina, completas cinquenta e um anos de ser adulto, independente. És muito nova, contudo já tens todos os vícios de um velho empedernido por doenças endémicas mortais, que julga poder trapacear os médicos para ganhar tempo. Ainda ontem saíste de quinhentos anos de colonização, hoje já vendeste a alma aos diabólicos xikuembos. Eish!

Tantos filhos deram a vida por ti. Agora outros tantos estão a roubar-te a vida. Eish! Não tens culpa enquanto ventre.

Falo de ti sempre com um aperto na garganta.

Por aí está quase tudo a correr mal? Está! Tens uma bota pesada num corpo sem rosto que te asfixia, como país riquíssimo que és. De gentes muito pobres, sem que os milhões de ajudas internacionais cheguem até eles.

É minha opinião que por falta de vontade, só. Por falta de decência. Por mediocridade de todas as partes que te roubam, enganam e matam só para ter um quinhão das riquezas.

Claro que quem tem poder há muito tempo se deixou vender. A pobreza e o caos são grandes negócios. Não é, terra da boa gente?

Eish! Ainda me lembro dos planos de erradicação da pobreza. Nunca passavam do papel. Um ciclo vicioso entre gente viciada em poder e dinheiro. Um jogo degradante.

Estás maningue caótica. Completamente despenteada. Depois de dez anos de guerra colonial e dezasseis de guerra civil, os milandos do sonho impuseram-se, áfenal?

Estás a pensar em regressar ao carapau e ao repolho que te salvaram da fome? Diz aos teus filhos para terem vergonha!

Assim não dá. Deus não pode ter imagem semelhante a estes humanos indecentes, que são teus filhos.

Sabes que mais? Desejo-te o melhor. Às tuas gentes, aos meus amigos que lá estão. Mereces muito mais do que recebes. Deixaram morrer os sonhos que atravessaram a independência, deixaram escorregar a oportunidade. Estás como a minha terra, Guiné-Bissau, a viver mergulhada na ilegalidade, sem direitos humanos e sem decência. Não deixes. Segura os sonhos e as utopias. Tens de estancar o derramamento. Tens um talento imenso, não o deixes morrer. Os teus filhos tóxicos que estão ao comando do teu dhau têm de ser impedidos. Como na minha terra.

Na raiz das causas está a ganância dos homens; eu sei. Estou em crer que há quem pague para que te afundes, como na minha terra natal. Para que mergulhes na idade das trevas da divisão, do obscurantismo, da morte, do ódio.

Estamos governados por seres muito pequenos e inferiores, não por seres de excelência e elevação. Deviam fazer testes psicotécnicos a quem tem direito a estar no poder. Só serviriam os melhores, os mais sábios, os mais experientes e os mais decentes.

Por todo o lado, estamos a viver um regresso ao passado, com sistemas medievais que apenas mudam de nome. No norte e no sul.

Mas sim, esperanço. Em nós. Em ti.

Atravessaste dias de aguaceiros sem sol. Tormentas. Ficaste sem norte. Pareces perdida sem lugar para onde fugir. Um dia, espero que encontres uma livrança que possas firmar, para selar a dívida que te prende a uma árvore imaginária de dor e sofrimento, onde derramas essa tormenta. Nascerá um fruto. Aprenderás com a tormenta, o ciclone, as cheias e o esventramento.

Foi assim no passado. Será assim o teu presente no futuro.

O teu destino tem de se cumprir. Misturando sonhos sem milandos, do Carlos Cardoso ao Azagaia, passando por Machel ao Bispo Osório, ao Dr. Cistac, vindos desde o tempo da escravatura escondida no início do século XX, até ao massacre de Wiriamu, em Tete.

A minha homenagem a todos os moçambicanos que denunciam as atrocidades cometidas contra moçambicanos, durante e após o colonialismo, recebendo a morte como recompensa.

Hoje é mais um ano a contar para o dia em que esse presente vai chegar. Esta é a minha homenagem para ti.

Eu e tu entrelaçadas entre cheiros, frutas doces, sabores intensos, rios de encanto e rápidos por onde desci, oceano de banho manso, mergulhos nocturnos em praias de águas quentes, baobab (embondeiro) que acolhe, gente pura e o amargo no palato por estares tão doente. Com a doença endémica da corrupção.

Obrigada por tudo, Moçambique. Kanimambo!

Anabela Ferreira

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