Tubarões azuis, riba lá!

Esta é uma conversa sobre predadores e presas, não um conto de fadas. É a voz de uma exploração. Das veias abertas de Cabo Verde.

“O homem é o único animal que consegue estabelecer uma relação amigável com as vítimas que pretende devorar”, escreveu o ácido dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues. 

Hoje trago alguma acidez ao pontche de mel. Vou viajar numa casca de noz carregada de histórias. Afinal somos descendentes de marinheiros e migrantes. Coragem para enfrentar perigos não nos falta.

De um movimento telúrico no oceano emergia um vulcão. Com a lava espalhava grãozinhos de areia sólidos. Foram achados. Por mais que as marés tentassem fazê-los desaparecer. Zonzos zanzaram para sobreviver, ali à vista de terra, de um cabo verde no continente africano. Como agora o são os tubarões-azuis. 

Estariam ao serviço do mundo, primeiro dos donos, o português colono. Navegadores lusitanos destemidos aportaram naquelas ilhas desertas, às quais davam nomes de santos. Não tardaram em encontrar-lhes finalidade. Serviriam de entreposto comercial na venda de escravizados trazidos da costa africana – os pretos da Guiné, do Império do Mali, do Reino do Gabú…

Após séculos de exploração, chegaria um dia um engenheiro agrónomo, Amílcar Cabral, que instruiu camponeses e servos sobre a liberdade. Sobre o direito à sua terra – as ilhas aparecidas por força do movimento telúrico das placas subterrâneas, e a sua terra, Guiné-Bissau, irmã gémea de Cabo Verde na origem das suas gentes.

Hoje, passados tantos anos, os cabo-verdianos vivem debaixo dos olheiros do mundo, observados. Ainda sem serem vistos.

A sua história é tão brutal, violenta e agressiva quanto o fruto de uma árvore senciente, que nasce, amadurece e cai para ser pisado. Os cabo-verdianos são uma cachupa feita de milho e feijões diversos. Durante o período colonial foram vendidos e escravizados. As suas mulheres violadas. Incluindo por padres fornicadores, tornados pais incógnitos de crianças anónimas. 

A escravatura e a cristianização estavam no seu apogeu divino, outorgadas por bula papal. De mão dada ao regime régio. Mais tarde com o Estado Novo. Os mandatários de um Deus misericordioso, para sacralizar a sua presença na terra, mancomunada (mancomungada) com o poder.

Nota lateral: querem mesmo que eu acredite nesta evangelização levada a cabo nas ilhas, como sendo o ensinamento de Cristo? Digo eu, uma ateia que acredita na existência de presas e predadores de ontem e de hoje. A dissimulação foi transformada em arte por religiosos e por capitalistas criminosos.

Estes aliados, ungidos, comem à mesma mesa, servem a refeição, mostrando às suas vítimas uma face de cordialidade, enquanto escondem o apetite pela presa.

O movimento do cruzamento da minha gente deu origem aos mestiços. As nossas origens? Europeias e Africanas. Os crioulos.

A língua nascia da necessidade de não serem entendidos pelos donos.Nova cachupa misturava línguas do continente africano com o português. Cada ilha dava luz a um crioulo falado entre os depreciativamente chamados“gentios”.

Durante o período da brutal ditadura, no Tarrafal nascia a prisão destinada à morte de gente que se opunha ao regime.

Nos anos cinquenta, o povo passava fome, imposta por Salazar após secas violentas. Morriam nos braços da miséria. A ajuda não chegaria nunca. De braços cruzados, a ditadura “esqueceu-se”  de propósito das almas que penavam nas ilhas. Não valiam nada, não eram humanos.

Enquanto navios carregados de matérias-primas seguiam das ex-colónias para enriquecer a Europa, nada deixavam em Cabo Verde. Que morressem de fome e de sede. Sim, nem água potável tinham. Que zonzos zanzassem. Foi-lhes imposta a pena das mais duras que o mundo presenciou. Um extermínio (à moda lusa).

Talvez os deuses se condoessem. Ou talvez fossem salvos por esse Deus que inventaram, misericordioso e implacável na divina maldade.

Por esses anos, navios iam buscar cabo-verdianos para as roças de São Tomé, com a promessa de os fazer regressar a casa no final da estação da apanha do cacau. Não se iludam! Os benditos mestiços (um pouco superiores aos pretos) e os pretos (a classe de sub-humanos do fundo do poço) tinham boa força; eram mão de obra para explorar. Nunca chegariam a ser gente. Serviam para a morte e para o esquecimento.

O ditador mandava largá-los nas roças – a essa espécie sub-humana – calculadamente, sem documentos. Párias sem retorno. Eu vi a realidade e escrevi sobre o assunto no meu primeiro livro. Quem não puder ir ver para crer, veja o documentário de Leão Lopes “Os últimos contratados”.

A fome nas ilhas era tanta que só restava a opção de partir para onde fosse. O movimento migratório para as origens na Guiné-Bissau foi uma das possibilidades de vida. O cruzamento da história acontece no retorno a casa.

Quando chegou a tal liberdade, ensinada e anunciada por Cabral, outras gerações nasciam, desconhecendo quem eram, a sua origem, de onde vinham.

Uma e outra geração ensinavam crioulo aos filhos. Aos domingos, para matar a saudade de quem tinha partido das ilhas, assim como nas casas de quem tinha partido das ilhas para novas geografias, comia-se cachupa, bolacha do Mindelo, queijo de cabra, doce de papaia.

No final, o digestivo ponche de mel de cana-de-açúcar, fruto da criatividade cabo-verdiana, acompanhava mornas, funanás e coladeras, selando o espírito de um povo signo do mar, ascendente em partidas, morada na saudade.

Após a independência a 5 de julho de 1975 (quem sabe nesse dia a selecção não esteja presente nos dezasseis-avos do mundial a representar os seus avós), a raiz da árvore nas ilhas continuava bloqueada, com pouco investimento. A educação tornou-se o pilar de sustentação; foi a decisão.

O investimento distingue-os no presente como um dos povos mais cultos d’África, por terem conseguido matar o analfabetismo. E se alguém de Cabo Verde não se aceita como africano, é porque se desconhece. Porque foi dividido, instruído  e manipulado para se ver acima do africano, por ser mestiço. 

Pelo seu caminho em liberdade, pós-guerra colonial e revolução de Abril, foram plantando sementes para continuar a unificar, tal como ensinou Cabral. Aos poucos, as ilhas recebiam ajuda, pouca, para o tanto que precisavam. Cabo Verde mostrava resultados. De solos áridos fez brotar vinho, turismo, serviços, atum em lata, agricultura, pescas e um povo que, além de criativo, é indestrutível.

Só ainda não conseguiram matar a pobreza endémica. Por falta de investimento sério? Por capitalismo predatório? Por corrupção? Porque a pobreza é um negócio, na visão das novas formas de capitalismo. Tal como no futebol, não existe fair-play na política. Que o digam as selecçõesafricanas. Ou as nações africanas…

Quem lá vai sente o calor da morabeza. A sabura dos olhares, da música, da ginga do corpo. A riqueza da literatura. De todas as suas artes, ao fim e ao cabo. Tudo é verde! Esperança e beleza. Tudo é azul, cor do oceano que faz sonhar.

A emigração continuava para Portugal, o país colonizador por quinhentos anos. Eram (e são) recebidos e tratados como seres inferiores, servindo a um propósito – a exploração. Foram mal-vistos e mal-quistos. Estruturalmente Portugal não nos vê. Há umas ilhas de reconhecimento, espalhadas vagamente para não parecerem mal. O que os cabo-verdianos fizeram e fazem por Portugal nunca poderá ser retribuído.

Dinheiro ido de fora para dentro de Cabo Verde educava gente talentosa. No futebol, muitos se distinguiam, jogando em campos de terra, com sapatilhas rasgadas. Pelos buracos rompia o talento. Em breve rompiam as ondas para fora de casa.

A árvore estendia os seus ramos, depositando sementes pela Europa (sobretudo nos Países Baixos), nos Estados Unidos da América e no Brasil, como o bisavô do cantor brasileiro Seu Jorge.

É a história dos fugitivos da miséria, os expulsos, rompendo a improbabilidade de sobrevivência nas ilhas. São mais de um milhão e meio de filhos na diáspora. São a classe operária, trabalhadores em áreas que os nativos não querem tocar, comandados por um capitalismo que não vê rostos nem vidas. 

No seio desses filhos nascidos nesses lugares longínquos, nasce uma equipa. Não treinam juntos regularmente. Foram seleccionados para representar o país, com a camisola dos Tubarões Azuis. São puro talento, recompensado com uma oportunidade. Todos sabemos: quando se dão oportunidades, nem o céu é o limite. Chegaram ao mundial.

Não pensemos que as gravatas de seda oferecem o tapete vermelho a Cabo Verde. Mostrem o talento, mas com parcimónia… parecem pensar. Para não ofuscarem os tais europeus que recebiam as riquezas das ex-colónias exportadas para os enriquecer e engrandecer.

A esses, a norte da linha do Equador, todos os privilégios foram dados em bandejas de prata. Investiram, criaram, cresceram, desenvolveram-se . Hoje são grandespotências. Hoje sabemos também que a fifa e as gravatas de seda que nela mandam estão de novo a capitalizar com a exploração deste povo, a sul do globo, porque é o capital que manda. Não é o desenvolvimento. 

Romantizam, mantendo a rédea curta a estes talentosos corpos. Importa recolher patrocínios, ou seja, muito dinheiro, através do entretenimento e das emoções. O tratamento deveria ser igual ao dado aos grandes. Sabemos que não é.

Esta não é uma história romântica. Esta história convém conhecer e lembrar. É uma história de miséria, pobreza, exploração, colonialismo, escravatura e mais exploração. De abandono que levou à morte. A pobreza não é romântica, a não ser na mente criativa de aves de rapina.

A história do arquipélago é uma história de resistência, de amor às ilhas, de sobrevivência, de coragem para esquecer, de suicídios por falta de comida, de prostituição para aplacar a fome, de violações, de maturidade e recomeços.

É uma história de gente com pouco ou nada. Com uma varinha mágica de talento, fez tanto. Imagine-se que tivessem tido o mesmo quinhão dos grandes?

Quem não se sente orgulhoso ao ver estes tubarões azuis a conquistar o inimaginável? Por tudo isto, sempre que virem esta equipa jogar, pensem naquilo que representam. Não representam o capital, sim a bravura da sua ancestralidade e o peso bruto da sua história. Uma história sem oportunidades. Foram eles que rasgaram as ondas de um oceano impiedoso. Tinham tudo para dar errado. Na contabilidade que ainda se escreve, dão o resultado certo.

Hoje, o agradecimento vai directo à cooperação com a China. Foram eles que construíram um estádio onde os Tubarões Azuis começaram a sonhar alto. Sempre que atravessaram o oceano, nas malas dos sonhos carregaram a vontade indomável de vencer.

São quinhentas mil almas espalhadas nos dez grãozinhos no meio do mar. São um milhão e quinhentas mil espalhadas por terras firmes. A diáspora que singrou e enche os estádios. O povo que ficou. Os espalhados por arquipélagos nesse mundo afora. Essa gente bonita, feita de cruzamentos e misturas, a cachupa que se movimenta em placas tectónicas, com sonhos telúricos sobre as memórias das veias abertas de corpos africanos antepassados.

Eu, que venho de lá, tenho um sonho! Que um dia os investimentos sejam a única conta corrente aberta, sem exploração, fazendo nascer oportunidades de verdadeira cura, crescimento e desenvolvimento.

Aposto que nem para um tubarão o céu será o limite. Já venceram o céu. 

Boa sorte, tubarões-azuis. Riba lá!

Anabela Ferreira

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