A extrema-direita e a direita extrema

No atual momento, estamos a assistir no cenário internacional a uma ascensão das forças de extrema- direita com importantes resultados eleitorais.
Esta preocupante situação deriva em linha direta de décadas de neoliberalismo e das suas políticas autoritárias e de destruição progressiva das políticas sociais.
Os fundadores do neoliberalismo tinham, todos eles, fortes simpatias com as ideias de extrema-direita e de aversão à democracia.
Apesar de se disfarçarem de liberais, os princípios de pensamento único que propalavam e o facto de terem necessidade de um Estado fascista, o Chile pós golpe de Pinochet, para testarem o seu modelo político, económico e ideológico mostra com toda a clareza os seus reais objetivos.
As políticas sociais e as políticas públicas como instrumentos de equidade nas sociedades ao serem progressivamente destruídas, foram remetendo à pobreza e ao desespero social camadas cada vez mais amplas de cidadãos na generalidade dos países.
Importa lembrar que no período entre as duas guerras mundiais no século passado, a grande maioria dos países europeus estava dominada por governos fascistas e que a histeria bélica contra a então Rússia soviética atingiu expressões de grande amplitude.
Os dramáticos resultados da II Guerra com dezenas de milhões de mortos são bem conhecidos.
Hoje, a extrema-direita constitui sobretudo um fenómeno eleitoral, com muito menor expressão a nível das ruas.
Por outo lado, verificamos que os partidos de direita têm vindo a deslizar para posições cada vez mais próximas da extrema-direita e os partidos socialdemocratas, socialistas e até os Verdes na Europa, foram “aprisionados” pelas concepções totalitárias do neoliberalismo e por posições de subordinação total aos ditames do império americano.
Vejamos os exemplos vergonhosos do Partido Trabalhista britânico e do Partido Social Democrata alemão por via das lideranças, respetivamente, de Tony Blair/ Keir Starmer e Olaf Scholz .
As políticas que desenvolveram foram atentatórias dos aspetos essenciais de uma abordagem progressista das políticas sociais e do combate à pobreza e à indignidade laboral.
As posições belicistas extremas e a cumplicidade repugnante com o genocídio do povo palestiniano pelo governo sionista de Israel dessas lideranças constituem uma das páginas mais repugnantes da política europeia.
A esquerda à esquerda dos partidos socialistas, como é o caso dos partidos comunistas, incapaz de analisar os novos tempos e os novos fenómenos sociais, políticos e económicos, de dispor de um discurso apelativo para o número crescente de empobrecidos e de revoltados com sociedades cada vez mais injustas e de formular soluções mobilizadoras contra as políticas populistas/fascistas, criam um campo aberto para uma fácil penetração dessas forças ditatoriais e obscurantistas.
No nosso país, a falência das políticas sociais por parte de governos que se colocavam teoricamente à esquerda, a ausência de qualquer alternativa credível à esquerda do PS e a mobilização de alguns setores da comunicação social na promoção permanente de dirigentes partidários populistas, têm conduzido a situações de crescente preocupação com os aspetos essenciais do nosso regime democrático e constitucional.
O CDS/PP, através das intervenções do seu líder parlamentar, tem procurado rivalizar com as posições extremistas do Chega, parecendo não querer compreender que essa atitude irá conduzir ao seu desaparecimento efetivo.
Se este partido não se reposicionar no espaço da democracia cristã e numa perspetiva social de intervenção a nível dos grandes problemas que atingem grande parte da nossa população, está condenado a ser trucidado pela evolução da situação atual.
Esse espaço político está vazio e começa a ser colonizado pelo populismo de extrema-direita.
A democracia cristã, no pós II Guerra Mundial, foi uma das famílias políticas que participou na construção do Estado Social na Europa.
O PSD tem deslizado para posições de direita extrema desde a liderança de Passos Coelho.
As políticas do governo a que presidiu, a pretexto das imposições da Troika, caracterizaram-se por uma “declaração de guerra” às políticas sociais, com contornos de puro terrorismo social e laboral, e medidas que se traduziram numa maior degradação das condições de vida da maior parte dos nossos cidadãos, como por exemplo: cortes nos vencimentos dos funcionários públicos entre 3,5 e 10 %; liquidação do subsídio de Natal e de férias; os pensionistas também ficaram nessa altura sem estes 2 subsídios; cortes nos descontos dos passes sociais para estudantes e para idades superiores a 65 anos; fim das reformas antecipadas aos 55 anos de idade; corte de 50% no valor das horas extraordinárias; corte no valor das indeminizações por despedimento no setor privado; corte no subsídio de desemprego; corte no subsídio de doença; aumento do IVA de 6 para 23% no gás na electricidade e em múltiplos bens e serviços; limitação no acesso RSI; e fim de 3 dias de férias suplementares por bónus de produtividade.
Mesmo no auge das consequências destas medidas, Passos Coelho ainda teve descaramento político para apelar aos portugueses para serem “menos piegas”.
Até feriados emblemáticos da nossa identidade nacional foram alvo da “raiva “ dos cortes desse governo: 1 de Dezembro, data da restauração da independência e 5 de Outubro, data da implantação da República.
Até a OCDE, no seu relatório “Health Spending Growth at Zero – Which countries, which sectors are most affected?”veio denunciar que o governo de Passos Coelho tinha cortado na Saúde o dobro do que tinha negociado com a Troika.
No entanto, é curioso verificar que a então equipa ministerial da saúde integrada pelo ministro Paulo Macedo e pelo secretário de estado Fernando Leal da Costa, nunca apresentou qualquer medida concreta visando desmembrar o SNS, desenvolveu uma ação negocial transparente com vista à dinamização da carreira médica e mostrou alguma dissonância com posições antisociais da política global desse governo.
Esta afirmação decorre da minha participação em múltiplas reuniões negociais com essa equipa ministerial e fundamenta-se em dados objetivos.
O atual governo presidido por Luís Montenegro é uma dependência ideológica de Passos Coelho.
O próprio pacote laboral que motivou tanta contestação social e laboral em todo o país é um exemplo de que este governo anda a reboque da agenda de Passos Coelho.
Alguns dos membros dos 2 governos a que presidiu têm vindo a ser colocados em cargos de grande relevância política e institucional como são os casos da comissária europeia, do presidente da Assembleia da República, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa e do governador do Banco de Portugal.
A estes casos importa juntar o próprio Luís Montenegro que foi o líder parlamentar do PSD durante os governos de Passos Coelho.
Aliás, o próprio presidente do partido Chega foi uma “invenção” política de Passos Coelho que o colocou como cabeça de lista numas eleições autárquicas em representação do PSD.
A proximidade ideológica, para não dizer coincidência ideológica, entre os 2 tem vido a ser bem evidenciada em múltiplas situações.
Passos Coelho sempre demonstrou um ódio indisfarçável ao Estado Social.
A continuar a deslizar para posições de direita extrema, o PSD irá perdendo fatias importantes de eleitores para a extrema-direita e será uma das vitimas do crescimento eleitoral do Chega.
Quanto ao PS, a sua crise de identidade como partido de esquerda que em muitas situações não se demarca das políticas neoliberais e não se assume como uma clara alternativa aos desmandos dessas políticas, acabará por dar azo à criação de uma nova força política de esquerda que englobe essa enorme massa de cidadãos desesperados pelas políticas de miséria.
Sempre que um dirigente do PS se assume com preocupações de esquerda, alguns setores da direita vêm logo acusá-lo de radical, com o contributo orquestrado de vários órgãos de comunicação social.
E isso tem levado a alguns casos conhecidos de dirigentes socialistas que mostraram grande incomodidade em serem considerados de esquerda.
Se há alguma força política em Portugal que tem vindo a ficar cada vez mais radical é o próprio PSD.
Ainda recentemente Alberto João Jardim numa entrevista ao jornal Público considerou que “Passos Coelho e Luís Montenegro são aves da mesma plumagem” e que “ Passos Coelho foi o responsável pela mudança do ADN do PSD”.
A atual situação no nosso país e em diversos países em vários continentes tem de fazer soar os alarmes mais estridentes para a criação de amplas plataformas de convergência entre todos os cidadãos para quem a democracia, a liberdade e o Estado Social são questões essenciais da dignidade humana e do progresso civilizacional.
Mário Jorge Neves, médico.
