Somos os indigentes insolventes

Há muitos anos que a Europa se esqueceu dos seus povos. Há muito que se esqueceu de ser uma União. Passou a servir-se dos quinhentos milhões de habitantes.
Os burocratas europeus mancomunados com interesses obscuros são os porcos da quinta que dominaram os crédulos cidadãos contribuintes. A revolta, o ressentimento, a raiva, nasceu, afirmou-se e tomou posse.
A extrema direita nunca morre. A serpente muda apenas de pele. A aguardar a presa.
Os povos que hoje aceitam e votam no regresso da extrema direita fascista ( que o é, apenas vem mascarada de salvadora), não são ignorantes. Acreditaram. Em vão.
Estão desencantados. Desiludidos. Pesados. Endividados. Não se sentem ouvidos. Foram descartados. Não são validados. Foram desprezados. Mais pobres. Com mais encargos. Sem futuro. Deprimidos. Desesperançados. Traumatizados.
A vida tornou-se muito difícil e complicada, para um comum mortal que não consegue chegar ao final do mês sem um nível elevado de ansiedade. Por tudo. Das guerras ao genocídio, à instabilidade e precariedade no trabalho, à corrupção, tudo o que nos rodeia é de uma violência insuportável como se vivêssemos dentro de quatro paredes numa relação tóxica da qual não temos liberdade nem possibilidades financeiras nem anima para dela sairmos. Sentimo-nos como indigentes insolventes.
O corpo humano não foi feito para suportar os níveis bárbaros de pressão diária, do trabalho às despesas, das mentiras, à corrupção. Não fomos feitos para uso e descarte da vida como lixo. Por isso, a saúde mental, a saúde espiritual e a saúde física hoje é uma miragem. Desligados uns dos outros, desligados da natureza, desligados de uma vida saudável crescem as doenças do corpo, da mente, do espírito.
Por isso, cada dia mais crescem os números dos votantes numa promessa de restauração do tecido esgaçado. Por isso se voltam para quem diz que os vai ouvir, ver, tomar conta e resolver.
Contudo distraem-no. Acreditam que o inimigo não é quem lhes promete o arco-íris, antes é outro igual a si, igualmente enganado, igualmente exausto e roubado da dignidade da vida.
O mais grave é que as serpentes do fascismo mentem. Assim que tenham a presa exausta e sem escapatória, atacam.
E aqueles que não cedem ao canto da sereia, sentem-se atados. Estamos atados. A ver o abismo para onde juntos vamos.
Anabela Ferreira
