A Fábrica da Divisão

Há uns anos, bastava ligar a televisão ao domingo à noite para perceber que qualquer semelhança entre o que se discutia nos comentários políticos e a vida real de quem trabalha era coincidência. Hoje já nem é preciso esperar pelo domingo. Basta abrir um jornal, entrar numa igreja evangélica num centro comercial ou seguir uma página de “mulheres pela família” nas redes sociais para perceber que há um projecto em marcha. Não é uma conspiração de gabinete escuro. É pior, é público, é financiado e é aplaudido.
Comecemos pelo facto mais incómodo: a extrema-direita portuguesa não cresceu sozinha. Cresceu porque teve quem lhe abrisse a porta, lhe emprestasse o microfone e, muitas vezes, lhe pagasse a electricidade do estúdio.
A comunicação social que devia funcionar como travão tornou-se, em boa parte, correia de transmissão. Não por convicção ideológica generalizada, seria mais fácil se fosse. É pior do que isso, é por negócio. Um “caso” bem enquadrado vende mais do que uma análise cuidada. Um confronto grita mais alto do que um argumento. E quando os donos dos meios de comunicação são também donos de bancos, de construtoras, de operadoras ou de fundos que precisam de reguladores simpáticos e de impostos leves, a tentação de alinhar o discurso com quem promete “menos Estado” e “mais autoridade” deixa de ser tentação e passa a ser estratégia empresarial.
Chamemos os bois pelo nome: pasquins. Alguns títulos que outrora se orgulhavam do escrutínio tornaram-se hoje montras de indignação escolhida a dedo, onde se amplifica o crime do imigrante e se sussurra o crime do colarinho branco. Não é falta de jornalistas competentes, há muitos, e excelentes. É falta de direcções dispostas a proteger o trabalho deles quando esse trabalho incomoda quem paga a factura da redacção.
E aqui está a engrenagem toda: quando a comunicação social alimenta diariamente a sensação de que o país está a arder, quem vem apagar o incêndio com um balde de gasolina é sempre o mesmo. André Ventura não precisou de convencer ninguém de que a insegurança é o problema nacional. Bastou ligar a televisão. O trabalho de construção do medo já estava feito por outros, ele apenas chegou para cobrar os dividendos políticos.
Mas a fábrica da divisão tem mais um piso, e é o que menos se discute.
Enquanto se fala de televisões e jornais, cresceu noutro lado, sem convocar câmaras, um negócio que se disfarça de igreja. Não é a fé que está em causa, é o modelo de negócio por trás de algumas destas estruturas, importado do Brasil com todo o manual de instruções: dízimos e ofertas apresentados como dever religioso, estruturas financeiras cuja transparência merece escrutínio, impérios que incluem canais de televisão, actividade imobiliária e outros negócios e, no Brasil, investigações judiciais envolvendo pessoas ligadas ao universo da organização e suspeitas relacionadas com fluxos financeiros.
A Igreja Universal do Reino de Deus não escondeu nunca a dimensão da sua ambição mediática: Edir Macedo comprou a Record em 1989 e, em 2018, declarou publicamente o seu apoio a Jair Bolsonaro. Fé, televisão e poder político no mesmo universo, ninguém precisou de inventar nada, o próprio Macedo fez questão de o dizer em voz alta.
Cá chegou há décadas. E chegou com uma dimensão que merece ser observada sem preconceitos, mas também sem ingenuidade. A equação é outra: até que ponto a capacidade de mobilização eleitoral de determinadas estruturas religiosas se transforma em influência política, e até que ponto essa influência se traduz em decisões favoráveis aos seus interesses?
A pergunta não é uma acusação. É uma pergunta.
E convém que continue a ser feita.
O truque é sempre o mesmo: pega-se num medo genuíno, da insegurança, da perda de identidade, do “mundo a mudar depressa demais” e vende-se uma salvação simples, com nome de líder e agenda de voto. Não há debate sobre políticas públicas. Há espectáculo, há promessa de milagre e há, invariavelmente, um saco de dinheiro que ninguém consegue seguir até ao fim. E sermão não se contesta, aplaude-se e paga-se.
A isto junta-se um terceiro andar, ainda mais recente e ainda mais cínico: os movimentos que se apresentam como defesa da mulher e da família, mas que na prática podem transformar-se em operações de retrocesso disfarçadas de conservadorismo suave. Chama-se-lhe Mulheres Conservadoras Portugal, e o nome é suficientemente benigno para que a disputa ideológica possa aparecer, à primeira vista, como uma simples defesa da família.
Falam em “liberdade de escolha” para contestar o direito ao aborto. Falam em “protecção da infância” para contestar determinados conteúdos de educação sexual nas escolas. Falam em “família natural” para defender uma determinada concepção de família e, em alguns casos, para contestar direitos que outros consideram adquiridos.
Não é conservadorismo. É desmantelamento com verniz de virtude.
E o mais perverso é a arquitectura emocional por trás disto tudo, que qualquer um de nós reconhece se prestar atenção: não é preciso mentir para manipular. Basta escolher o que se mostra, quantas vezes se repete e que rosto se lhe dá. Dez notícias sobre crime de imigrantes e nenhuma sobre fraude fiscal de colarinho branco constroem, sem uma única mentira, um país inteiro convencido de que sabe quem é o inimigo. Um pastor a chorar no palco por “os valores que se perdem” convence mais do que qualquer estudo sociológico, porque fala directamente ao medo, não à razão. Uma “mulher normal” numa página do Facebook a dizer que só quer “proteger os filhos” desarma mais resistência do que qualquer think tank de extrema-direita alguma vez conseguiu, precisamente porque não parece política. Parece apenas bom senso.
É essa a genialidade cínica do projecto: cada peça, isolada, parece inofensiva. Junta-se a comunicação social que precisa de audiências, a igreja que precisa de fiéis e influência, o movimento “de mulheres” que precisa de legitimidade popular, e o partido que precisa de todos eles, o resultado é uma máquina que ninguém assina, mas que todos alimentam.
Há dias li um texto da Susana Areal sobre a saída de Luís Neves da Polícia Judiciária e sobre a forma como a exposição pública pode destruir uma reputação sem ser preciso inventar uma única mentira: basta escolher o que se mostra, quantas vezes se repete e a ordem por que se apresenta. E fazia uma pergunta que merece ser feita muito para além daquele caso: quem beneficia quando uma determinada narrativa sobre uma pessoa se torna dominante?
A pergunta serve tal e qual para este texto. Quem ganha com isto?
Ganha quem lucra com publicidade e cliques, seja qual for o preço democrático. Ganham os impérios religiosos que procuram transformar influência espiritual e capacidade de mobilização em influência política. Ganham os movimentos que descobriram que travestir determinadas posições de “protecção” lhes garante microfone em programas que talvez nunca dessem voz a um activista de direitos humanos com o mesmo à-vontade. E ganha, sempre, quem precisa que a sociedade esteja demasiado ocupada a odiar-se a si própria para reparar em quem lhe está a tirar direitos pela porta do fundo.
Perde a democracia, que precisa de cidadãos capazes de discordar sem se destruírem. Perdem as mulheres, que veem reaberto um debate que julgavam encerrado com sangue e décadas de luta. Perde a liberdade individual, que não sobrevive num país onde o negócio de uns se transforma em lei para todos.
Não estou a dizer que toda a comunicação social é cúmplice, que todos os pastores gerem impérios opacos ou que toda a mulher conservadora é uma agente do retrocesso. Estou a dizer que existe uma engrenagem, que há interesses por trás dela, e que fingir que não existem é a forma mais confortável de a deixar continuar a girar.
A extrema-direita não precisa de vencer eleições todos os anos para vencer. Precisa apenas que continuemos entretidos a discutir os sintomas, o imigrante, a “ideologia de género”, o “ataque à família”, enquanto ninguém pergunta quem escreveu o guião, quem beneficia dele e quem tem interesse em que continue a ser representado.
Já vimos este filme. Só mudou o elenco.
Jacinto Furtado
