“Não tenho que te dar justificações.”

Não é isto que se espera ouvir de quem quer construir uma relação a dialogar. É precisamente o contrário: não é resposta, é a suspensão abrupta do próprio diálogo.
E, ainda assim, quem mais a diz não é o mandão que se instala numa relação e corta a explicação a meio. É a vítima. Não a de agora, a de outrora. Di-la sem perceber que a aprendeu com quem a manipulou.
Parece autonomia, mas é o eco de outra voz vestido de coragem.
A frase não nasce quando alguém exige contas a ferro e fogo. Nasce muito antes, quando ainda há espaço para falar, para desfazer um mal-entendido, para encontrar meio-termo. É aí, e só aí, que ela é dita. E é aí que revela o que realmente é.
Não responde a uma pergunta.
Impede que a pergunta exista.
A diferença é tudo.
Quem quer mandar na vida dos outros merece ouvir que há limites. Quem só quer perceber uma decisão, evitar um conflito, manter uma ponte, não está a exigir satisfações. Está a fazer o que sempre manteve as famílias, as comunidades e as amizades de pé: falar.
É esse falar que a frase mata.
Porque “não tenho que te dar justificações” não fecha um assunto. Fecha a possibilidade de entendimento. A decisão deixa de ser partilhada, mesmo quando atinge mais gente do que quem a toma. O outro deixa de ser interlocutor. Passa a ser estorvo.
Fala-se hoje muito de comunicação. Nunca comunicámos tão pouco.
Chama-se independência ao que é impermeabilidade. Chama-se liberdade ao que é ausência de responsabilidade e de respeito para com quem se ama. E chama-se firmeza ao que, muitas vezes, não passa de recusa em ouvir.
O manipulador de que falei lá atrás não está nesta conversa. Nunca está. O trabalho dele fez-se noutro tempo, noutro lugar, com outra pessoa. Aqui, hoje, nem sequer é convidado.
Mas a dívida que ele deixou, essa, cobra-se noutro sítio. À frente de quem fala pode estar um filho, um pai, um avô, um irmão, um amigo, um companheiro que nunca fez mal nenhum e que, ainda assim, é tratado como se fosse o agressor. Paga uma conta que nunca assinou.
Dito isto, convém não facilitar. Chamar-lhe vítima e ficar por aqui seria uma injustiça, a essa pessoa e a quem a ouve. Ninguém é obrigado a continuar a sê-lo. Em algum momento há sempre uma escolha: sustentar os princípios que existiam antes de alguém os pisar, ou deixá-los cair porque é mais cómodo. Quem os deixa cair está a optar. Está a preferir a anulação da própria vontade a pagar o preço de a defender.
E, ao optar, veste o fato do vilão por vontade própria. Não porque tenha nascido para isso, porque escolheu apagar-se.
Não é uma verdade confortável. Mas também não é inocente.
E o mais grave nem é o respeito que perde pelos outros. É o respeito que perde por si próprio, porque quem se anula uma vez aprende a anular-se sempre e a segunda vez já nem dói.
É por isso que isto nunca é um assunto entre dois adultos que decidiram, livremente, deixar de se falar. Raramente é.
Há sempre outros a pagar a factura.
Nem sempre têm idade para perceber. Muitas vezes nem têm voz para dizer o que sentem. São os filhos que crescem a preencher silêncios que não escolheram, os avós que desaparecem da fotografia sem explicação, os tios que se tornam nomes vagos ditos em voz baixa. São eles os esquecidos desta guerra que os adultos travam em nome da “autonomia”.
Enquanto dois adultos disputam o direito de não explicar nada a ninguém, há uma criança que deixa de conhecer um avô, um tio, um amigo. Há um afecto que nunca chega a nascer porque alguém decidiu que falar era uma cedência que não estava disposto a fazer.
Rouba-se mais do que uma conversa.
Rouba-se memória.
Rouba-se identidade.
Rouba-se o direito de cada um construir, com tempo e com factos, a sua própria leitura das pessoas que lhe deram a vida ou que a atravessaram.
É aqui que os valores se perdem, não em grandes discursos sobre a família ou a tradição, mas nestes pequenos actos de sabotagem silenciosa. O que se transmite de geração em geração não é uma lista de princípios emoldurada na parede. É o exemplo de que se pode discordar sem cortar, de que se pode errar sem desaparecer, de que uma relação aguenta uma discussão.
Quando alguém escolhe o silêncio como arma e a ausência como castigo, não está só a ferir quem tem à frente. Está a ensinar aos que vêm a seguir que o afecto é condicional e a família é um território que se fecha à chave.
Ninguém nasce a saber isto. Aprende-se. E aprende-se, sobretudo, a ver os outros fazê-lo.
Nenhum adulto tem o direito de decidir sozinho que relações um filho, um sobrinho ou um neto vai ter.
Há excepções, claro. Violência, abuso, perigo real, aí o silêncio não só se justifica, impõe-se. Mas transformar o silêncio em regra e o diálogo em excepção não protege ninguém. Substitui apenas a razão pela força, com o mérito adicional de fingir que é a razão que fala. Opta-se pela razão da força em detrimento da força da razão.
Percebo que há decisões difíceis. O que não aceito é que se vista a recusa do diálogo com a farda da virtude.
Uma sociedade não se degrada só quando deixa de cumprir as leis.
Degrada-se quando as pessoas deixam de acreditar que vale a pena falar umas com as outras.
E quando alguém diz “não tenho que te dar justificações”, raramente está só a recusar uma explicação.
Está a decretar que o “nós” acabou.
Essa factura, infelizmente, nunca é paga isoladamente.
Jacinto Furtado
