Quem tem medo do feminismo? Qual a origem do patriarcado?

Venham comigo para dentro de uma história. 

Quando veranece cinza e água é sinal de dia divino para a escrita. Chegada de um encontro sagrado no feminino, uma celebração de vida com mulheres, este levou-me às origens. 

Quem tem medo das mulheres? 

Sabem o significado da planta favela/faveleira, que deu origem ao nome das favelas? É o lugar onde a vida faltou com tudo e ela insiste em viver. Temos vivido nas favelas e mesmo encarando a barbárie, temos sobrevivido, existido, evoluído. 

Assim é o feminismo. Sem medo da palavra, sem medo do significado. Olhando o futuro, percebendo o passado. 

Para conhecermos e entendermos a natureza humana, os feitos, erros e limites da espécie precisamos saber de onde vimos. É nesse conhecimento que residem as pistas, as evidências e as provas. Qual o padrão do passado? Qual a história?

Quando uma história não é contada, ou a versão dos factos é distorcida, omitida ou negada, grassa a ignorância e o medo. Com eles o insidioso fascismo instala-se. Por isso o feminismo não pode temer muito menos fraquejar. 

Como nos casos do nascimento da Escravatura (qualquer forma) e a escravatura baseada no racismo (esta como teoria “científica” da existência de uma cor de pele inferior a outra), temos o caso do Holocausto, e, temos o Patriarcado como estruturas de poder e domínio.   

Num tribunal apresentam-se as duas versões com factos e provas. O juiz e/ou o júri decidem. Neste caso, todos nós. Vamos aos factos do Patriarcado. 

A necessidade de controlar a maternidade e sexualidade feminina nasce da necessidade de controlar a terra. 

Entre cinco a oito mil anos nasce a agricultura vinda da sedentarização dos povos. A terra passa a ser vista como património e herança. Como garante do direito de pertença, com a certeza da paternidade dos filhos gerados, os homens adquirem o  duplo poder sobre a propriedade (antes de ser sequer conceito jurídico). 

De que forma se controlava a paternidade? Através do controlo do corpo da mulher. Nessa altura como  propriedade que é, a mulher recebe a primeira cerca. Em seguida o cordão é passado em volta da terra, para que a propriedade – herança continue de pai para filho. 

Para a mulher tinha uma garantia de protecção e de não abandono por parte do homem, o pai para os filhos. 

Regra geral, os homens deixavam as mulheres grávidas e desapareciam para os seus “afazeres” de caça e exploração. 

Homens encontraram um método simples e eficaz que nos explica o domínio perpétuo sobre a mulher. Mais tarde, perceberia que um escravo se poderia tornar propriedade como a mulher. Propriedade do dono, perpetuamente. Estão a ver o círculo? A história conta como foi…

Com a aprendizagem da violência sobre o domínio do corpo, da reprodução e da sexualidade da mulher, os homens tinham o começo das bem estudadas lições de poder sobre os outros, vindo a usá-las na colonização. 

Apesar do antigo Egipto (junto ao Nilo) ser também uma sociedade patriarcal, as mulheres eram iguais aos homens perante a lei, podendo ser proprietárias de terra, ter diversas profissões, podendo até pedir o divórcio, é no chamado Médio Oriente (junto ao Tigre e Eufrates) onde nascem posteriormente as três religiões Abraâmicas de domínio masculino. Havia que capitalizar as lições aprendidas.

Segundo cientistas sociais, o patriarcado é a matriz de todas as formas de oprimir. 

Para que a estrutura da casa construída se mantenha sem se desmoronar, é vital que a lealdade dos seus elementos (homens) entre si, seja testada, sob várias formas de coerção. Assistimos ao renascimento do ódio contra as mulheres desde a adolescência, nas escolas, com grupos de jovens a desumanizarem as meninas, a mostrarem a sua virilidade e violência aos companheiros, mostrando a lealdade e parte da manada. 

Entre si, os homens são obrigados a ser leais uns aos outros, a usar a violência entre si (guerras perpétuas) e naturalmente com as mulheres (como nos casos da violência doméstica). 

Vale a pena repetir: o homem é educado nas estruturas masculinas do patriarcado, por mães educadas no patriarcado, por pais imbuídos do patriarcado, a provar em contínuo a sua força, virilidade e masculinidade, usando a violência sempre que necessário, contra as mulheres e entre si. 

Estas são as provas de fidelidade à estrutura. Compreender a estrutura é compreender a construção do sistema. Ver o assentamento dos tijolos percebemos quão segura é a casa. Dura com sucesso há mais de cinco milénios.

Estão a ver o círculo a fechar? 

Resumindo, o poder desta estrutura chamada patriarcado como forma de expropriar o valor e a oportunidade da mulher se desenvolver como igual, tornou-se a planta cuidada. A mulher tornou-se a planta faveleira. 

As nossas antepassadas sabiam a história dos factos, por isso prepararam o caminho da libertação. Não podemos cair no silêncio, vendo outras mulheres serem compradas pela lealdade masculina – esta compra mulheres para que homens não percam os seus poderes. Eu não sou a nemésis do homem. Eu só quero a restituição do meu lugar por direito de existência, como eu entender, sem ser propriedade, sem ter uma cerca à volta. 

Eu faço a minha luta com outros homens que me vêm como igual, educando, contando histórias. 

Tudo o que hoje existe no Estado, nas diversas sociedades – sistemas de justiça, educação, medicina, psicologia, saúde reprodutiva, lei do aborto, inexistência de leis eficazes de protecção contra a violência doméstica, de tráfico de mulheres e crianças, de sexo infantil (pedofilia), estão imbuídos no sistema patriarcal.

O silêncio ajuda a que o sistema se perpetue. Faz com que o fascismo (na sua base está o patriarcado), regresse. Leva à compra de mulheres para defesa das cercas colocadas à sua volta há mais de cinco mil anos. 

É desta história passada e macabra que vimos. Este é um passado que as chegasnas/trumpistas/bolsonaristas/voxistas, evangélicas, ignorantes, compradas da vida não querem que divulguemos. 

Mulheres, acordem! Estudem!

Se eu for livre, vocês também o são. Livres para escolher como, de que forma e onde querem viver. Dentro da opressão ou com a porta da cerca aberta. É tudo. 

Percebem, ou precisam de um desenho?

Desconstruir os mecanismos deste sistema que desumanizou as mulheres é uma obrigação de todos. 

É fazer um favor a homens e mulheres. É aprendermos a viver de forma saudável entre homens e mulheres. 

Sem cooperação somos apenas selvagens no caos. Dominados pelos predadores mais fortes. 

Desconstruir a desinformação e a ignorância é quebrar ciclos de profunda violência. É evolução. 

Evoluímos porque existimos em correntes de laços apertados com os outros. 

E tu queres voltar ao passado?

Anabela Ferreira

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