Cartão de Identidade de Cidadão Mestiço

Neste circo alucinado de bizarrias e horrores, onde se ensina e espalha a crueldade, o sadismo e a divisão, actualmente pela mão de um assassino em massa que embala o berço do planeta, a mão catastrófica do U(ncle)S(am) e outros psicopatas desligados da realidade de milhões de seres humanos, eu só posso dedicar a minha vida, para bem da minha sanidade mental, espiritual e psíquica a escrever uns poemas e uns contos com a pretensão de mostrar um caminho de saída da ignorância.
Recentemente assisti a uma tentativa de divisão racial entre Guineenses e Cabo-Verdianos, povos unidos pelo mesmo cordão umbilical. Gémeos com corpos distintos compartilhando o mesmo adn.
A história conta-se em poucos traços. A educação privilegiou os cabo-verdianos para os lugares da administração colonial, para a escola, para lugares de destaque económico e social. A eterna divisão de classes. Os mestiços são resultado do preto vindo da costa da Guiné – de diversas origens africanas, dos povos que migraram e se fixaram na costa ocidental, o lugar de onde saíram os escravos levados para Cabo-Verde – com o branco que colonizou as terras achadas. A maioria destes cruzamentos iniciais e por séculos são o resultado de violações, por parte dos brancos com as suas criadas, amas, escravas pretas, de padres com as suas escravas, criadas pretas.
Há muito que conto estas histórias e não me canso de as repetir.
A estratégia colonial tinha o propósito de dividir. Inculcar a ideia de o preto ser inferior como se fosse uma teoria científica. Grão de milho a grão de milho a ser pilado debaixo do pilão, fez da mentira, política. A ideia era simples na sua génese. Ao cruzamento que daria origem ao mestiço diria que era superior porque tinha sangue branco. Assim a ideia se expandiu e criou raiz. Nascia e assentava praça a manipulação da divisão, como um padrão de achamentos raciais.
O mestiço que nunca se encontrou num lugar de identidade segura e clara, obtinha a máscara perfeita – ser mais branco que o preto. Um estatuto que o elevava. O preto era selvagem, ele tinha (também) sangue branco, logo era superior.
A muitos criou o sentimento oposto – o de se sentir menor por não ser nem branco nem preto. Onde se encaixava, afinal? Quem era? O complexo de inferioridade e a baixa-autoestima estava instalado no fundo da psique.
Em muitas famílias de mistura entre Cabo-Verdianos e Guineenses se ouviam ditos racistas contra pretos. Ou, os casamentos só seriam aceites se fossem com brancos portugueses. Para os guineenses nascia um novo sentimento – os burmedjo (mestiços) eram aqueles que discriminavam, logo, a discriminar. O barraco estava armado e só podia dar confusão!
Amílcar Cabral entendeu estes fenómenos não velados. Por isso, estendeu sempre a educação ao seu povo da Guiné-Bissau, preto, sem qualquer discriminação. Fazia parte da sua estratégia não largar a mão de nenhum Guineense e apagar de vez a cultura da divisão. Quem hoje procura destruir esta estratégia de união só pode ter estudado na universidade do crime, na faculdade da crueldade com pós-doutoramento em sadismo.
Cabral sabia de onde vinha. E provou-o sem ambiguidade. Como eu, sigo-lhe o exemplo. Não tenho dúvidas sobre a minha identidade. Saber de onde viemos é fundamental para a sobrevivência mental, espiritual, psicológica e física. Por ser também uma forma de honrar todos os antepassados que nos deixaram como legado, nós filhos e netos misturados.
Sem aqueles pretos e pretas de cabelo ticido, carapinha, pele azeviche seda, lábios grossos, nariz largo, por cordas amarrados, não seríamos sequer um grupo, um povo de corpos separados num coração colectivo, como o são Guineenses e Cabo-Verdianos.
Mestiça é a nossa identidade. Preto ku branco.
Tu, Cabo-Verdiano descendente das gentes da Guiné (do preto, ausência de cor) recebeste deles metade da tua identidade, o sangue, o plasma, o ADN. São eles a quem chamas teus manos, primos, tios. Dos colonos europeus de pele clara (sem cor = branco) em particular o Português, recebeste a outra metade.
De uma tua metade tratavam-se por senhor, senhora, menina, por títulos nobres. Esse lado roubou os nomes e o respeito do tratamento à tua outra metade por esta ser considerada coisa, mercadoria. Criaram uma língua para se comunicarem sem serem entendidos pelos donos – o crioulo – a mistura de línguas bantu e o português. Criaram um código de resistência e respeito que hoje utilizamos entre africanos: mano, mana, tia, tio, mãe.
Não foi inteligente? Até hoje o crioulo e as formas de tratamento respeitoso perduram.
Por quinhentos anos, tu mestiço bonito e soberbo, sem entender bem quem és, aprendeste a dividir, a olhar de cima para baixo, a discriminar o preto, a teres desgosto com o cabelo encaracolado ou carapinha, a só o quereres alisar, a sentir repulsa pela cor de pele escura como breu, a nela não te quereres encostar, a considerá-la menos que a tua pele.
Dizem os factos com provas científicas da História que vens deles. Não há disputa sobre estes factos.
Não ouças quando te disserem que um preto é menos que tu. Não ouças quando te disserem que por seres mistura és menos que um branco ou que um preto.
Então, já sabes quem és? Se sim, aceita-te e honra os teus antepassados pretos. Que tanto foram desconsiderados, desrespeitados e silenciados. Eles são a tua identidade de cidadão mestiço no mundo.
Se não sabes ainda, vai aprender, vem comigo para dentro de uma chávena de poesia.
Tão certo quanto o Kilimanjaro se erguer acima do Serengeti como o Olimpo,
tão certo quanto o Nilo Azul, misturar as suas águas no Nilo Branco
para chegar pujante ao Mediterrâneo
tão certo quanto o Zambeze se desfazer nas quedas de Vitória
tão certo quanto os Fulani desaguarem na costa da Guiné
misturarem-se com os Wolof de Goré
assim se erguem na casa onde vivo, os retratos dos antepassados
com eles pinto o céu de laranja no azul celeste
vivo com a imagem de um pôr do sol
mestiço, preto ku branco resultado
ao som de atabaques de orixás,
do pilão a pilar milho,
ladeados de murmúrios de um tambor tocado por querubins,
quero que chova um aguaceiro de veludo e cajú,
sabor calabaceira e chocolate das roças de cacau
acompanhado do toque de pés abençoados
numa parede com o rosto algodão, apanhado por mãos negras dos tetravós
memórias interrompidas de séculos
Agradeço-lhes a origem, a força da raiz
vinda do tronco do embondeiro
que sustentou as suas existências,
um eclipse imposto pela escravatura, pelo colonialismo,
pela negação histórica das histórias de um trágico destino
por isso na casa onde vivo,
falam a linguagem dos nomes da história, cultura, sobrevivência, respeito
nas paredes mostram-se os retratos dos antepassados,
tias, mamãs, manas, manos, tios
nas paredes algodão incorporados
nos campos core cajú laranja aveludados
Anabela Ferreira
