Antes que a Avó Deixe de Estar à Mesa

Encontrei o meu eu de há dez anos atrás e disse-lhe: «Hoje tenho dinheiro para comprar aquilo que tu quiseste e não pudeste ter.» E ele respondeu: «Vou almoçar a casa da avó.» Ele venceu.
A frase em que tropecei nas redes como se fosse ternurenta, não é. É uma sentença lida em voz alta, e a maior parte de nós ouve-a a sorrir sem perceber que está a ouvir a sua própria condenação.
Porque o miúdo de dez anos não estava a ser espirituoso. Estava a dizer, sem se dar conta de estar, a única coisa que o dinheiro nunca compra, o tempo em que a avó ainda estava viva para pôr a mesa. E o adulto, o que já tem para pagar o que eventualmente faltou na infância, só percebeu a piada depois de a avó ter morrido, ou de já não haver almoço nenhum a que voltar. É sempre assim que o presente nos apanha, de costas voltadas, a explicar-lhe ao futuro porque é que hoje não dava.
O truque cruel do tempo é que ele nunca avisa que é o último. Ninguém recebe uma carta registada a dizer que este Natal é o último com o avô ainda lúcido, ou que aquela chamada não atendida, «depois ligo, agora não posso», era a única que ele ainda tinha para fazer. A vida não dá avisos. Dá-nos apenas, anos depois, a factura.
Essa factura, ao contrário de todas as outras, não tem plano de pagamento. Não há prestações. Não há recurso.
Porque é preciso dizer isto sem rodeios, a família não é um activo que se recupera com juros. É o único património que se deprecia por inteiro no momento em que decides não o usar. Podes comprar a casa que a tua mãe nunca teve e pôr o filho na melhor escola da cidade, mas não recompras a tarde de sábado em que preferiste o telemóvel à conversa do teu pai. Essa tarde já não está à venda. Fechou. E fechou porque tu, não a natureza, decidiste que havia coisas mais urgentes.
E aqui está o que ninguém quer admitir em voz alta, a maior parte da erosão familiar não vem de tragédias. Vem de escolhas administrativas do quotidiano, feitas com a calma de quem julga ter tempo de sobra. Adio esta visita. Não vou a este jantar. O Natal fica para o ano que vem, que este ano está complicado. E o tempo, esse traidor paciente, aceita adiar-se contigo, até que um dos dois já não esteja cá para receber a visita adiada.
Diz-se que a família é a base de tudo, e diz-se com a mesma leviandade com que se diz que a saúde é o mais importante, a frase está correcta e está morta, gasta de tanto ser repetida sem consequência. Ninguém organiza a vida a partir dela. Organiza-se a vida a partir do trabalho, da agenda, da urgência que grita mais alto no momento, e a família fica reservada para o que sobra, para o «quando tiver tempo», que é a mentira mais bem-educada que se conta a si próprio. E o problema não é a mentira. É que ela funciona precisamente porque ninguém morre à tua frente para te desmentir. A avó não avisa que este é o último Domingo de Páscoa em que vai conseguir levantar-se para receber os netos à porta. Ela simplesmente, um dia, deixa de estar lá.
E tu ficas com a memória do Domingo em que não foste.
Há depois o irreversível a sério, o que já não é escolha nenhuma, a doença que rouba a memória antes de roubar a vida, ou o corpo que decide simplesmente parar antes de lá teres ido. A esse não se pode chamar nomes nem exigir explicações. É a natureza a cobrar a renda que sempre disse que ia cobrar, sem avisos prévios e sem excepções para quem «ainda não tinha acabado de se despedir». A esse resta apenas uma coisa, teres feito os trabalhos de casa antes. Teres ido almoçar a casa da avó enquanto ainda havia avó e ainda havia almoço.
O que verdadeiramente assusta não é a morte. É a antecipação dela que continuamos, geração atrás de geração, a recusar-nos a fazer. Tratamos os avós e os pais como se fossem eternos e os filhos como se fossem eternamente crianças, e um dia olhamos para o lado e o avô ou o pai já não está, e o filho já tem trinta anos e um filho próprio, e a pergunta que ficou por fazer, ficou, para sempre. Porque o «depois falamos» não tem depois nenhum garantido, tem apenas a ilusão confortável de que o relógio espera por quem tem mais que fazer.
E é aqui que a família se distingue de tudo o resto que perdemos na vida, um emprego recupera-se, uma amizade cortada às vezes até se remenda com um pedido de desculpas tardio. Mas o pai que morreu sem ouvir dizer que estavas orgulhoso dele não volta a morrer para te dar segunda oportunidade. O irmão com quem deixaste de falar por uma lorpa questão não vai reviver a infância que já não partilham. A família é a única relação em que o prazo de validade não se renegoceia, porque depende de corpos que envelhecem e adoecem ao ritmo da natureza, e não ao ritmo da tua agenda.
Não vou fingir que há aqui uma lição de manual, do tipo «liga hoje aos teus pais» ou «marca já esse almoço». Já todos ouvimos isso mil vezes e continuamos a adiar na mesma, porque o urgente do dia grita sempre mais alto do que o importante de uma vida inteira. A diferença entre quem chega ao fim sem remorsos e quem chega cheio deles não é a quantidade de amor que sentiam pelos seus. É terem trocado, uma vez que fosse, o que quer que fosse, pela mesa.
O miúdo da fotografia já sabia isto aos dez anos, sem precisar de o explicar a ninguém, sem citar filósofo nenhum. Foi almoçar a casa da avó. Não porque tivesse lido isto num artigo, mas porque ainda não tinha aprendido a trocar o presente pelo depois.
Nós já aprendemos. E é essa a derrota que nenhum livro de contabilidade regista, a de trocar, todos os dias, um bocadinho de gente que ainda temos por um bocadinho de urgência ou de orgulho bacoco de que ninguém, no fim, se vai sequer lembrar de ter tido.
Jacinto Furtado
