Acampada no Ruscius

Ao fundo, no lado norte, a casa-mãe de uma arte nobre, o Teatro Nacional. Dona Maria II. Recebeu o nome da rainha porque a inauguração do edifício coincidiu com o seu 27º aniversário. Era 1846.

(A minha avó paterna, pianista e actriz, trabalhou com a Amélia Rey Colaço/Robles quando a companhia inaugurou aquelas tábuas. Era o ano de 1929. Gostava mais de representar comédias do que dramas. Passou-me o amor por contar histórias e pelo humor. )

O edifício foi testemunha de muitas outras histórias antes de ser teatro. Foi estalagem da nobreza e de embaixadores sem poiso para dormir.

Até ser entregue ao Tribunal do Santo Ofício, vulgarmente conhecido como Santa Inquisição, de 1571 a 1821, que de santa nada teve.

Na praça quadrangular aconteciam os autos de fé. Os réus, sem direito a defesa, ouviam as acusações, as sentenças, vestiam um hábito – símbolo da sua “culpa” – desfilavam descalços e as penas eram executadas — fogueiras ou enforcamentos — perante a assistência de centenas de pessoas.

Por causa disto, Jesus constrangido. Tramaram todos aqueles crimes em seu nome. Se um qualquer moedas de bolso lhe tirar a feira de Natal, Jesus continuará a dormir nas palhinhas deitado ou estendido, num auto de fé em contrição e redenção. Ou dorme numa tenda quechua. Quer lá saber ele do comércio. Levem-lhe de presente umas rabanadas e estamos todos perdoados.

A Jesus interessam os gentios que dormem na praça.

Açoitou e correu com os salteadores do templo. Ele sabia o que os judas (pun intended) estavam a fazer. Há um covil de salteadores que tem de ser corrido.

Manter a acção de protesto é virar a mesa dos salteadores, atirando ao ar as moedas dos juros agiotas acumulados.

Confesso que gosto desta figura revolucionária, nem sei se inventada ou real, mas serve um propósito muito digno, tal como a acampada.

A praça baptizada D.Pedro IV (do rei e imperador), sempre foi popularmente designada por Rossio, do latim ‘ruscius’, o lugar aberto onde as populações da povoação se reúnem para convívio, feiras e sobretudo para tratar assuntos da comunidade.

Ágora, em grego. Na minha terra, em crioulo, “djumbai” na pracinha. O ponto de encontro para debates de leis e votos na democracia directa, para discussões políticas, julgamentos, ouvir histórias.

Sob o olhar atento da casa principal, dos participantes nos autos de fé e do teatro, a praça é nossa. E, no final das contas, somos feitos de histórias. O Rossio de hoje, a ágora contemporânea, o djumbai em frente ao Palácio da Arte e da Cultura, é como outrora, o lugar de encontro do povo.

O povo está representado por um grupo de tendas. Num lugar histórico, carregado de significado e de histórias, de sangue, de morte e pecados, mas também de alegria, prazer, debate e evolução. Ruscius é ágora. Do povo. O povo exige ser ouvido e validado. O djumbai vai continuar.

Ou alguém tem a pretensão de pensar que chegou a algum lugar como o de hoje por obra e graça do Santo Ofício? Honremos os nossos antepassados. Foi porque a população se reuniu, debateu, acordou e resolveu. A Assembleia da República nasceu das assembleias populares, nas praças.

Exijamos oxigénio na vida e na praça aberta, nas reuniões populares, onde se tomam decisões. Oxigénio para a vida das populações. Há um tampão a pressioná-lo. Há que tirar o tampão.

Não esqueçamos quem está hoje a ser julgado no ‘ruscius’: os governantes. Eles são os salteadores.

Não aqueles que dormem pacificamente na praça que lhes pertence. A polícia e as bastonadas, uma versão contemporânea do Santo Ofício, ou do Estado Novo são pertença do passado, quando a bordoada era lei.

Para o presente e para o futuro ( ainda por escrever), temos as tábuas do D.Maria, o teatro que conta histórias. E a praça da população, para a população.

Obrigada, acampados, de ontem e de hoje. Representam-me no djumbai, quanto nas reivindicações. Eu sou porque nós somos. Ventos de mudança, ventam! Aproveitemos o vento.

Chega de drama, senhores salteadores! Como dizia a minha avó, para drama basta a realidade. E a realidade pede soluções que aumentem o oxigénio.

Já agora, “passa por nós no Rossio, é lá que a população djumbai…

mando duas chapas se quiserem alguma, se acharem que serve

Anabela Ferreira

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