Carta a Odair

Venho contar-te que a tua selecção, a do teu país pequenino, rodeado por um oceano de sonhos, ontem empatou a zero golos com a grande Espanha, numa competição mundial à qual tu não vais poder assistir porque te mataram. Um polícia com uma arma paga por nós, Estado Português, o mesmo Estado que te colonizou as dez ilhas de gente imensa, por quinhentos anos. Agora queixa-se de que há cinquenta anos tu e os teus, cá nascidos ou de origem, vêm para cá fazer os trabalhos duros e desgastantes que nós não queremos nem gostamos.
Foste morto por seres preto. Tinhas a cor de respeito. Sabes porque razão os brancos que são racistas têm medo da nossa cor? Por insegurança. Temem que sejamos melhores. Temem que os travemos. Como as gatas das ilhas ontem fizeram. Por isso o desejo de eliminar pessoas como tu.
Foi assim com o Alcindo Monteiro. Ontem também não pode ver o seu país fazer um brilharete. Ou o luso-guineense Bruno Candé. Ou o Giovanni. Filhos da terra que um dia os colonizou e das terras originais, Guiné-Bissau e Cabo-Verde, terras de Cabral. Cabo-Verdianos, tugas pretos, mortos por ódio à cor. E há mais como vocês.
Sabes o que fez a justiça dos homens brancos, aqueles que são racistas? Deu uma pena suspensa ao polícia que te matou, de apenas três anos e não vê motivos para que este não regresse ao trabalho no final da pena suspensa. Uma vida vale três anos em liberdade. A tua. E tu estás no cemitério. Afinal, ainda há muitos da tua cor aí nas ruas, prontos a serem mortos por serem…pretos.
E polícias como ele fazem falta ao Estado que um dia usurpou a tua terra.
Percebes isto? Não é para entender.
Excepto que agora sabemos de fontesegura ( tribunais) com que dedais e linhas se costuram. A mais grossa chama-se racismo declarado com tapete vermelho estendido.
Termino dizendo-te aquilo em que acredito. Se um dia, sem esperarmos, os tubarões azuis de almas grandes travaram três pontos a uma selecção de respeito e ainda ganharam um, garanto-te que um dia a justiça vai entender os seus erros, reverter o curso, sequestrada que está pelas forças fascistas que são racistas por natureza e defeito.
Desculpa, aliás, desculpem-nos, por termos deixado isto acontecer.
Continuaremos a jogar até ganharmos.
Anabela Ferreira
