Eu é que sou o presidente da junta

Aviso – Procura-se criatividade e imaginação. Os guionistas estão perdidos na própria confusão. 

No processo de desumanização em curso, eu descendente alforriada dos vossos pesos e das vossas amarras sinto-me como se estivesse a ver uma peça de teatro trágico-cómico. Lugar: na primeira fila. Peça : o Trumpmen show ao vivo. Quem quer que seja o encenador da peça (é um guião escrito a várias mãos), sob a batuta do actor principal, que disse antes do levantar do pano: “eu é que sou o presidente da junta”. Nas costas do protagonista há um mapa-mundo num tabuleiro de monopólio. Os países querem tornar-se estados da escola de samba dos unidos da américa, colocaram a sinaléctica “vendo-me”. Os outros olham assustados. O imperador pode decidir que, se não estiverem à venda, atira uma equipa de salteadores armados para os ir sacar. Do Canadá, à Gronelândia, ao Brasil, a Cuba, à Europa desunida – esta, em busca do seu wallie perdida de si própria. 

No guião estava escrito: temos aqui as regras, ao que o imperador respondeu: 

– “ vou mudar isso tudo, tu não mandas em mim, faço o que eu quiser, eu é que sou o presidente da junta”. 

Mudam-se as regras, muda-se o guião, alteram-se a democracia e a constituição, porque isto tem de ser feito à sua maneira. À canzana!

Há eleições? “Está bem, eu vou respeitar (wink wink, para a plateia), só se me apetecer. Eu é que decido se o resultado me agrada. Países são propriedade do imperador, as vozes do quarto poder só dizem o que eu quero. Se eu quiser, os líderes bonecos de trapo, comprados na temu, com prazos de validade e acreditação do imperador. A democracia, a educação, a diplomacia, a política internacional, foram todas atiradas porta fora. São todas gajas desprezíveis. São fake news.

À vista fica apenas o rabo sexy da Nicki Minaj e na gaveta, a lista dos clientes do Epstein. Onde eu e a minha gaja estamos. 

Para a plateia ficou o medo, os desarranjos intestinais, a dissonância cognitiva. Tomam primazia no roteiro a imposição da sem vergonha, da vingança, do ressabiamento, da raiva de um filho de um cabresto, birrento. Os guionistas parecem baratas tontas. Dançam a batida conforme manda o imperador. 

Podemo-nos esquecer de pagar a conta da Netflix. O visionamento da peça em curso, além de barbárico e selvagem, é gratuita e está repleta de suspense. Ninguém sabe o que vai acontecer. Nem o protagonista nem os guionistas. 

O próximo episódio será fruto da criatividade vinda de uma mente com demência, de um ego diabólico que se alimenta do fogo que deixa Roma a arder – o mapa-mundi do monopólio cujas labaredas caem sobre a plateia.  Ao contrário do outro imperador, este nem sabe tocar harpa. Com os dedos papudos come hambúrgueres e borra-se na fralda. 

Ao protagonista não interessa se o guião é credível. Ele tira prazer do papel e isso é tudo o que importa. Para o comum dos mortais que se juntam nos curtos intervalos no “foyer” esta é uma peça inacreditável. Digna de um manicómio. 

“O opressor não seria tão forte se não tivesse tantos aliados e cúmplices entre os oprimidos, disse-o Simone de Beauvoir.”

Anabela Ferreira

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