25 de Abril de 1974 – CPLP

Em casa sentavam-se seis irmãos. Chamam-se Moçambique, Angola, Cabo-Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Portugal. Nas veias dos irmãos corriam mil veias, ponteadas a sangue vermelho, formando um cravo de histórias entrelaçadas e memórias cruzadas, a ponto delicado. Vestiam camisolas de cores. Pareciam um quadro de Pollock. O padrasto tinha-lhes mentido. Corria 1963, o padrasto mandou-os matarem-se. Porquê, perguntaram-se. Defender-se-iam. Não mais permitiriam a relação abusiva. O padrasto vil, como um senhorio possessivo, queria as casas onde viviam. Dizia-lhes que eram sua posse. Iam para a guerra contra o padrasto, como um fado desafinado, seria esse o destino. Calados, quietos, mudos e surdos não ficariam. Pediriam armas para se defenderem do padrasto. Contra uns e outros, quando afinal eram todos um. Mal sabiam que as guerras mentem sempre. Há sempre um vilão a aguardar para tirar um pedaço da história. Naquele momento a guerra contra o padrasto-senhorio era a única solução. Serem independentes. O padrasto senhorio era um cão de fila, raivoso, que há tempo demais lhes comia a ração. Os irmãos deram-se as mãos. Do outro lado do horizonte onde caía a casa do padrasto, irmãos se juntaram para chamar a liberdade. A liberdade respondeu-lhes:

Eu, liberdade, sou uma maluca, rafeira, cadela de rua, desejo-me livre, sem donos. Veio depois do adeus. Os irmãos libertaram-se mutuamente, finalmente, depois de quinhentos anos de prisão em cinco casas. Depois de quase cinquenta anos de prisão, encostados às cordas atlânticas, na casa do padrasto-senhorio. 

Além da independência das terras colonizadas por Portugal, para que nunca esqueçamos as portas que Abril abriu, à liberdade e direitos: Expressão; Manifestação; Educação (Alfabetização de um povo que mal sabia ler e escrever); Cultura; Sindicatos; Voto de mulheres; Saúde – SNS; Saúde materno-infantil; Greve; Habitação (e salubridade); Reforma; Justiça; Igualdade perante a Constituição; Estado de Direito, laico

Há cinquenta e dois anos saí à rua para ver a dona Liberdade e falar política, de mãos dadas com o meu belo avô. Pacientemente, com um brilho especial nos seus olhos d’água, explicava-me o valor do dia. A excitação era muita. A compreensão nem tanta. Saí à rua, para a tradicional manifestação, com as netas pela mão, já bastante politizadas. 

A Alice, de doze anos, explicava à Íris de oito anos: “Imaginas-te viver num mundo durante quase cinquenta anos sem poder ler os livros que queres? Sem poder falar o que pensas? Sem poder votar? Sem poder viajar? Sem acesso à educação? E à saúde? Com fome por não teres dinheiro? Sem sapatos para ir à escola? Sem casa de banho em casa? Imaginas? Isso tudo é a liberdade da revolução do 25 de Abril”

Obrigada, Amílcar Cabral, obrigada, Salgueiro Maia. E a centenas de outros irmãos que se deram as mãos. Em particular, os comunistas que sonharam o mesmo sonho e deram a vida por ele. 

Não podemos esquecer. Muito menos regressar ao passado. 

Anabela Ferreira

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