Há cerimónias que têm história e há cerimónias que ficam marcadas por quem as tenta arruinar. Esta manhã na Assembleia da República, nos 52 anos do 25 de Abril, tivemos as duas coisas ao mesmo tempo.
A sala estava cheia de Capitães de Abril, de bandeiras, de cravos vermelhos e de uma solenidade que, mesmo em tempos de crispação política permanente, ainda consegue fazer sentido. António José Seguro discursou pela primeira vez como Presidente da República nesta data. Aguiar Branco disse coisas que precisavam de ser ditas, algumas melhor do que outras. E André Ventura apareceu com um cravo verde na lapela e uma frase de Hitler na boca.
André Ventura explicou o cravo verde, disse que era o símbolo dos emigrantes portugueses espalhados pelo mundo. Oscar Wilde usava o cravo verde como símbolo da arte e da subversão e de outras coisas, era um homem de inteligência e ironia raras. No caso de Ventura, nada melhor para assinalar o dia da liberdade do que livrando-se de preconceitos e usar um cravo verde com toda a sua carga simbólica Wilderiana. Ventura não é Wilde, mas o cravo verde assenta-lhe muito bem e serve-lhe igualmente bem como cobertura para o que veio a seguir.
O que veio a seguir foram as habituais tentativas de se apropriar do 25 de Abril, o dia não é dos Capitães de Abril, é de todos, é das Forças Armadas, é dos ex-combatentes, é dos pensionistas com reformas de miséria, é dos que não têm acesso à saúde. Tudo verdade, aliás, tudo material roubado de outros partidos para embrulho de uma narrativa que não tem nada a ver com nenhum daqueles problemas.
Depois veio a frase. Repetida quatro ou cinco vezes. “Apunhalados pelas costas.” Dirigida aos soldados da Guerra Colonial e a quem, segundo ele, os traiu.
Percebo que há expressões que circulam sem que ninguém pense de onde vieram. O que não percebo, nunca vou perceber, nem quero, é como se usa essa frase quatro vezes seguidas, numa sessão solene, no dia da democracia portuguesa, e depois se espera que alguém acredite que foi inocente. A “punhalada pelas costas” é um dos pilares da propaganda nazi. Foi o mito que Adolf Hitler usou para galvanizar o ressentimento alemão após a Primeira Guerra Mundial, a ideia de que o exército não perdeu no campo de batalha, mas foi traído por dentro, por socialistas, por comunistas, por judeus. Foi o mito que abriu caminho ao nazismo e desmontou a República de Weimar.
Rui Tavares disse-o em voz alta: “Hoje cita Hitler e os nazis, toda a gente faz de conta que não ouviu, e amanhã diz ou faz qualquer coisa ainda mais terrível”. É o padrão, mudou o guarda-roupa relativamente à sessão dos 50 anos da Constituição, a 2 de Abril, onde acusou os deputados constituintes de terem patrocinado o terrorismo das FP-25 e os viu abandonar a sala em protesto. Hoje foi mais subtil, a citação nazi repetida como fio condutor não exige que ninguém se levante. Pode sempre dizer-se que é uma expressão corrente. Pode sempre fingir-se que não percebeu. É exactamente aí que está o perigo.
José Pedro Aguiar-Branco disse coisas que precisavam de ser ditas naquele hemicíclo. Reconheceu que o problema da política portuguesa pode estar nos políticos e não nas instituições, disse que “os remédios populistas fecham ainda mais a política”. Criticou o discurso fácil contra o sistema. Estava certo, mas ficou pelo meio do caminho.
Porque embrulhou tudo isso numa crítica às leis de incompatibilidades e à legislação de transparência como obstáculo excessivo. Pode ser um argumento com algum mérito, noutra altura, noutra conversa. Dito assim, naquele dia, pareceu uma queixa corporativa. Pareceu que a classe política estava a usar o 25 de Abril para se defender das regras que a mesma classe tarda em cumprir.
Pedro Delgado Alves resolveu protestar virando costas à Mesa quando o discurso terminou. Depois disse aos jornalistas que Aguiar Branco prestou “um mau serviço”. Pode ter razão no diagnóstico. O gesto foi uma porcaria, numa sessão solene do 25 de Abril não se combate um discurso fraco com linguagem corporal de adolescente. Combate-se com um discurso melhor.
O PS tem uma tendência notável para transformar boas razões em maus gestos e depois queixar-se de que ninguém percebeu o recado. A bancada ficou dividida, Mendonça Mendes aplaudiu de pé enquanto Delgado Alves virava costas e o partido ofereceu de graça ao PSD a imagem da sua própria incoerência. Há formas melhores de protestar. Esta não foi uma delas.
António José Seguro fez o seu primeiro discurso de 25 de Abril como Presidente da República. Escolheu bem o que disse e disse-o sem rodeios.
“A liberdade não desaparece de uma só vez. Desaparece aos poucos. Primeiro é uma lei que parece razoável. Depois uma instituição que se esvazia por dentro. Depois uma voz que deixa de se ouvir. Depois outra.”
Não nomeou ninguém. Não precisou. Ventura tinha acabado de usar o púlpito da democracia para reciclar propaganda nazi e Seguro respondeu com a única coisa que verdadeiramente responde a isso, a memória do que acontece quando se normaliza o que não deve ser normalizado.
Defendeu a transparência dos donativos políticos num dia em que o Governo que partilha o hemicíclo caminha em sentido contrário. Disse que “onde há opacidade cresce a suspeita”. Metade da sala percebeu exactamente a quem se dirigia.
Veio de cravo vermelho na lapela, o primeiro Presidente em vinte anos a entrar assim nesta sessão. Marcelo nunca quis esse símbolo, Seguro quis. Os gestos contam.
Os restantes discursos completaram o quadro sem surpresas. O Bloco disse que a democracia obriga a “aturarmo-nos uns aos outros” e que tolerância não é ingenuidade perante quem quer destruir o debate de ideias, era evidente o destinatário. O PCP foi ao registo de sempre, o pacote laboral vai contra Abril, é preciso cumprir a Constituição. O PS lembrou Soares e a guerra colonial perdida por teimosia colonialista. A IL disse que a democracia não tem donos, verdade com dois gumes, serve tanto quem a quer defender como quem a quer esvaziar.
Cinquenta e dois anos, a data não é redonda, não há jubileu, não há centenário e, no entanto, foi uma sessão que ficará marcada, não pelo que de melhor se disse, mas pelo que de pior se fez.
Ventura escolheu o cravo verde (e que bem lhe fica), Seguro escolheu o vermelho, não foi coincidência. O problema não é a cor da flor. É que um dos dois entrou com uma faca escondida debaixo do cravo e muita gente fingiu que não viu.
Jacinto Furtado


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