Os Estados Unidos a caminho da ditadura?

Mário Jorge Neves (Foto FNAM)

Se no primeiro mandato de Donald Trump na presidência dos Estados Unidos da América já tinha sido bem evidente o tipo de projeto político-ideológico que ele corporizava, neste segundo mandato já não restam dúvidas quais são os seus reais objetivos totalitários.

Dispondo de uma completa hegemonia nos órgãos dirigentes políticos e do poder judicial no país, sente-se com toda a impunidade para se sobrepor às instâncias nacionais e ao seu funcionamento institucional.

O documento de Estratégia de Segurança Nacional publicado em Dezembro de 2025 constitui uma peça chave nessa escalada ideológica extremista.

Com os falsos argumentos de defender a “civilização ocidental” ou a “identidade europeia”, Trump refere com clareza quais são os seus verdadeiros aliados na Europa, ou seja, aquilo a que chama “partidos europeus patrióticos”.

E com esta designação, é muito fácil perceber que esses partidos estão colocados na extrema-direita do espetro político dos vários países.

Nos últimos anos, o investimento político e financeiro do governo de Trump a nível dos partidos de extrema-direita da Europa e da América Latina atingiu uma dimensão colossal.

Steve Banon, um dos pricipais ideólogos da extrema-direita americana e da administração Trump, desenvolveu durante largo tempo uma frenética atividade em diversos países europeus para, com avultadas verbas, financiar os partidos e movimentos neofascistas.

Outro “expoente” do movimento neofascista do MAGA, Elon Musk, tem-se destacado na tomada de posições políticas de extrema-direita e no apoio descarado ao partido neonazi alemão AfD.

Aliás, o próprio vice-presidente americano JD Vance na Conferência de Segurança em Munique, em Fevereiro de 2025, pressionou os principais partidos alemães a eliminarem o “cordão sanitário” contra a AfD.

Na Europa e na América Latina, essas múltiplas ingerências nas eleições dos vários países, têm mostrado preocupantes resultados com a ascenção notória das forças neofascistas.

Diz o velho ditado popular” diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és”.

Ora, um governo que organiza e financia partidos fascistas não pode praticar a democracia no seu próprio país.

É nesta lógica repressiva que se insere a criação da polícia com a designação de ICE.

O pretexto apregoado para a sua criação foi prender imigrantes ilegais e expulsá-los do país, mas o objetivo que cada vez se torna mais claro foi dispor de uma força policial com uma atuação arbitrária, gozando de total impunidade e que constitua um instrumento para aterrorizar as populações.

A nível da história mais recente, o exemplo que encontramos com maiores semelhanças ao ICE foi a tenebrosa Getapo hitleriana.

Os casos de cidadãos americanos, que não sendo imigrantes já foram presos e assassinados tem vindo a crescer, como foi o caso chocante do jovem enfermeiro.

Num mundo em convulsão, com as desigualdads sociais e a pobreza sempre a aumentarem e com o aprofundamento cada vez mais preocupante da crise económica, as democracias liberais europeias e americana estão a fazer uma guinada para comportamentos crescentemente autoritáriose repressivos.

Em 1936, o presidente americano Franklim D. Roosevelt advertiu que “um governo controlado pelo dinheiro organizado é tão perigoso como um governo controlado pela mafia”.

O filósofo Sheldon S. Wolin definiu a noção de “totalitarismo invertido” para descrever a forma peculiar que adquire o autoritarismo nas democracias liberais modenas, particularmente nos Estados Unidos.

Diferentemente dos totalitarismos do século XX, o totalitarismo invertido não implica um líder carismático e um partido único, mas um aparelho de poder difuso em que o Estado e as grandes corporações multinacionais atuam em conivência sob a fachada das instituições democráticas.

Chris Hedges, que difundiu as ideias de Sheldon Wolin, considera tratar-se de um sistema onde essas corporações subvertem e corrompem a democracia, a economia se sobrepõe à política e a cidadania é manipulada pelo consumismo e o sensacionalismo.

A ordem neoliberal está esgotada e está a favorecer o surgimento de sucessivos impulsos para situações tendentes a formas mais ou menos declaradas de fascismo.

O rápido crescimento dos partidos fascistas na Europa e na América Latina são disso já uma evidência indiscutível.

Aquilo a que estamos a assistir é a passagem do totalitarismo invertido atual para o fascismo como resposta desesperada à perda da hegemonia ocidental.

A própria figura de Trump é outro sinal dessa passagem com a sua retórica nacionalista e autoritária, o seudesprezo pelas normas e o direito internacional, a normalização da linguagem do ódio e as purgas sucessivas nos cargos das instuições americanas que mostram afinidades inquestionáveis com as práticas neofascistas.

Henry A. Giroux descreveu o trumpismo como uma forma de “fascismo neoliberal” no sentido de fundir o ultracapitalismo desenfreado com a política ultranacionalista, a xenofobia e a repressão da dissidência.

Naturalmente, que no século XXI o neofascismo tem características diferentes das que imperaram em várias décadas do século XX.

No caso dos Estados Unidos, o assalto paramilitar ao Capitólio em 6/1/2021, constituiu um ensaio de golpe de Estado e mostrou que Trump se recusava a aceitar o funcionamento das instituições e a respeitar a vontade democrática expressa em eleições.

Em Janeiro de 2025, e uma vez eleito de novo presidente, anulou as condenações a cerca de 1500 pessoas pela sua participação no assalto, nomeadamente aos líderes dos “Proud Boys” e dos Oath Keepers, alguns dos quais a cumprir penas de 18 ou de 22 anos de prisão.

As ambições territoriais de Trump sobre a Gronelandia, o Canadá, e parte do México fazem lembrar a “lógica do espaço vital” invocada por Hitler para justificar a expansão territorial e as invasões de vários países pela Alemanha nazi.

Enquanto Hitler e Mussolini se apoiaram em organizações paramilitares para aterrorizar os seus adversários e impor o seu domínio nas ruas antes de aceder ao Poder, Trump procura apoiar-se no aparelho estatal e transformá-lo num instrumento da sua política.

Outro aspeto igualmente coincidente foi o amplo e empenhado envolvimento e financiamento das grandes empresas e dos círculos industriais alemães como a siderurgia, o setor químico, a indústria automóvel e a indústria armamentista ao regime nazi, porque viam nele um meio para destruir o movimento reivindicativo da classe trabalhadora alemã e as suas organizações sindicais, perseguir todas as organizações poíticas progressistas, promover um rearmamento massivo do país e garantir uma ordem social, política e económica favorável aos seus interesses.

Mas este envolvimento teve também participações fora da Alemanha como foi o caso mais evidente de Henry Ford, cujas simpatias nazis foram bem notórias e que lhe valeram em Julho de 1938 a concessão da Grã- Cruz da Ordem da Águia Alemã, que constituía a maior distinção que o regime hitleriano podia conceder aos cidadãos estrangeiros.

Ora, hoje Trump tem o apoio massivo das chamadas “Big Tech”, dos gigantes da inteligência Artificial, das bases de dados, das plataformas digitais e do complexo militar-industrial.

O complexo militar-industrial, dominado por Lockheed Martin, RTX, Northrop Grumman, General Dynamics e Boeing está agora, de forma cada vez mais intensa, estreitamente ligado com o complexo tecnológico e digital dominado por empresas com a Microsoft, Amazon, Google, Nvidia, a Palantir e as grandes empresas da Inteligência Artificial.

A aliança do poder político, do grande capitalismo das “BigTech” e da indútria armamentista é a característica mais marcante do regime neofascista de Trump.

Apesar destes paralelismos crescentemente preocupantes, importa ter bem presente que um governo neofascista não significa existir diretamente um Estado neofascista.

Parece inevitável que se aprofunde a reação organizada das instituições democráticas e, sobretudo, dos movimentos sociais naquele país para impedir o movimento neofascista de Trump e o seu instrumento político, o MAGA, de levarem por diante esta perigosa escalada extremista nos planos interno e internacional.

A forma de derrotar os objetivos neofascistas em qualquer país é promover políticas sociais que possibilitem maior justiça social, maior confiança na democracia, que reduzam as desigualdades e a pobreza, que restituam a dignidade efetiva ao trabalho e que não permitam que a vida humana continue a ser tratada como uma qualquer mercadoria pelas grandes corporações multinacionais e seus governos.

Mário Jorge Neves

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