Existem traços do fascismo que já estão aí!

As últimas semanas têm mostrado amplas manifestações, sobretudo de jovens, em países como Espanha, França e Portugal.
Se em Espanha e Portugal o “detonador” político foi a questão da habitação, em França foi a extrema degradação de todo o sistema de ensino público.
Ao longo dos anos, têm sido divulgadas inúmeras notícias em vários países sobre as infiltrações de agentes da polícia e de grupos neonazis nas manifestações para incentivarem atos de violência e de pilhagens com os claros objetivos de desprestigiarem as legítimas ações de reivindicação e de manifestação dos cidadãos em torno de importantes problemas políticos, económicos e sociais, bem como de darem pretextos ao Poder político para justificar a crescente adoção de medidas repressivas e de limitação dos direitos cívicos.
As recentes manifestações em França, mais uma vez, foram disso um exemplo muito esclarecedor.
Em Espanha, ao contrário, as chamadas acampadas em várias cidades mostraram uma clara preocupação dos organizadores em não responderem às provocações, quer da polícia quer de grupos de extrema-direita, que em Madrid tentaram provocar os manifestantes.
No caso do nosso país, as acampadas no Porto e em Lisboa, foram exemplares na sua organização, no seu civismo e no seu comportamento político.
Vimos alguns milhares de jovens pacíficos, sem rostos tapados, assumindo a sua identidade e integridade política e sem serem portadores de qualquer tipo de objetos contundentes.
Mesmo assim, a polícia, obedecendo a ordens governamentais, das quais dependem, tomou a iniciativa de desencadear brutais cargas policiais contra jovens indefesos e de proceder a dezenas de prisões.
Os argumentos da polícia, de ministros, dos presidentes das Câmaras Municipais de Lisboa e do Porto, bem como de comentadores políticos que pululam na comunicação social, foram de que essas manifestações colocavam em causa a ordem e o espaço públicos e eram ações de extremistas.
Curiosamente, os mesmos argumentos que eram utilizados pela ditadura fascista contra os estudantes e democratas que ousavam lutar pela liberdade e a democracia, que referiam sempre que não podia ser colocada em causa a ordem e a segurança públicas.
É que a Constituição de 1933 publicada pelo regime fascista, no ponto 14º do seu artigo 8º também estabelecia “ a liberdade de reunião e de associação”, só que a pretexto da segurança e ordem públicas era tudo objeto de uma brutal repressão e de prisões arbitrárias e de torturas selvagens pelas polícias.
Agora, assistimos aos mesmos preocupantes argumentos, de que não estava em causa o direito à manifestação, mas que não podia haver perturbação da ordem pública, nem ocupação do espaço público.
Então, alguém faz uma manifestação sem ser no espaço público?
Ou o Governo prepara-se para só admitir o direito à manifestação em casa de cada cidadão?
Quando uns milhares de jovens saem à rua para exigirem soluções pertinentes sobre problemas elementares num regime democrático, o espetáculo dado pelo Governo e pelos dois presidentes de Câmara municipal, foi de que tremeram “ como varas verdes”.
Tem-se tornado muito notório de que a grande maioria dos membros do Governo não tem suficiente preparação politica e técnica para o exercício dos seus cargos, a começar pelo próprio primeiro-ministro, mas entrar em pânico com estas manifestações pacíficas é um sinal incontestável de que estamos perante um governo fraco e sem autoridade democrática.
As declarações do ministro da Administração Interna mostraram uma arrogância insuportável num regime democrático e as declarações do ministro da Defesa enveredaram por uma colagem plena à extrema-direita ao exorcizar os imigrantes devido a sotaques de alguns, muito poucos, manifestantes.
As declarações deste ministro constituem, inclusive, uma atitude de clara desonestidade política dado que a presidente de uma associação das vítimas do incêndio de 2017 em Pedrogão Grande também tinha sotaque e nunca ninguém argumentou com isso.
Aliás, essa cidadã pouco tempo depois participou na elaboração de um programa eleitoral do CDS/PP e o seu militante Nuno Melo já não considerou isso estranho?
Estas profundas incoerências são um fator de desprestígio da própria intervenção política.
Também não podem deixar de suscitar apreensões as afirmações do atual secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, ao referir “ compreender a indignação das pessoas na rua face à crise da habitação, apelando simultaneamente ao respeito pelas regras democráticas e pela ordem pública”.
Quando já era incontestável que os jovens manifestantes estavam a dar uma lição de civismo e de exercício responsável do direito de manifestação, o secretário-geral do PS colou-se ao argumento desesperado do Governo em torno da ordem pública.
Um triste episódio para quem se afirma querer ser alternativa a este deplorável estado das coisas.
Governos fracos e sem amplo apoio democrático têm sempre um impulso para crescentes medidas repressivas, inventando” espantalhos” e “papões” para dissimular os seus apetites totalitários.
Sérgio Godinho na sua canção “Lá isso é” diz no refrão que “ o fascismo é uma minhoca que se infiltra na maçã, ou vem de botas cardadas ou com pezinhos de lã”.
A democracia e a liberdade necessitam de ser permanentemente defendidas e exercidas para que não definhem.
Hoje já não precisas botas cardadas para ir instaurando sucessivas medidas limitadoras dos direitos dos cidadãos.
Assistimos, nos últimos tempos, à utilização de pezinhos de lã associados a fortes e continuadas campanhas de manipulação informativa e de divulgação intensa de notícias falsas.
As acampadas não se acabam por decreto, ao contrário do que julga o ministro das polícias.
Apoiar as justas reivindicações deste movimento de jovens e impedir as manobras totalitárias para cercear os nossos direitos cívicos, deve constituir uma imediata exigência cívica de todos nós para que a liberdade não seja apunhalada.
Como disse o poeta Manuel Alegra na “Trova do vento que passa” :
Mesmo na noite mais triste
Em tempo de servidão
Há sempre alguém que resiste
Há sempre alguém que diz não
E estes jovens das acampadas não estão só a dizer não, mas também a apresentar propostas construtivas e a exercer os seus direitos cívicos.
E quando isso acontece, os burocratas dos aparelhos políticos entram em pânico.
As suas máscaras estão a cair.
As medidas repressivas acabam sempre por determinar novas formas de intervenção e de aumento da consciência cívica.
E isso, já é visível.
Mário Jorge Neves, médico
