Prémio Darwin, democracia, extrema-direita e jogos

Uma notícia chamou-me a atenção. Quero partilhar com aqueles a quem chego. 

– A Alemanha chegou à conclusão de que “o extremismo de direita é A maior ameaça à democracia”. 

Eish! Só podem estar a brincar! Eu e todos aqueles que existem na minha bolha (entre muitas outras) já ganhámos o Prémio Nobel das ideias avulsas e tolas baseadas em histórias não ficcionadas!

Será que foram necessários cientistas da nasa alemã para chegar a esta conclusão? Ou bastariam estudos em cidades destruídas por bombardeamentos e campos de concentração na Polónia há uns oitenta anos? 

Se tivessem perguntado a um bimbo de uma aldeia ou um pimba da cidade em Portugal, por exemplo, até esses teriam dado a resposta, olhando para os anos sessenta sob o regime do Estado Novo de Salazar, ou aqui ao lado, em Ayamonte, com o titio Franco, ou até na bella terra do parmigiano, com o brutamontes de nome de um “sugo” para a pasta. 

Poderia ir buscar um exemplo contemporâneo, como o do actual país de quarenta e nove Estados, com a sua perseguição maníaca a imigrantes, o seu racismo pujante e o seu sistema económico fogoso, de desigualdades, ganância e lucro em primeiro lugar (let’s make capitalism great again). Sistema que deságua num outro sistema, o político, que engole todas as pessoas ao pequeno-almoço e, naturalmente, já ajudou a destruir as democracias com o avanço do extremismo da direita. Como é afinal a sua agenda.

Prémio Darwin para estes bons alemães que só agora constataram e divulgaram o achado desta notícia. Qualquer dia vão descobrir que há um genocídio a decorrer na Palestina… e uma destruição sistemática do continente africano a peso de dolares e euros. 

O que me leva a um stopover noutro lugar — enquanto Cuba (debaixo de um embargo de décadas) continua a sua corrente de acção humanitária na Venezuela, a China desembolsou largos milhões e enviou material para ajudar a Venezuela (não esqueçamos que o presidente eleito e a sua mulher foram raptados e vivem numa cela a aguardar julgamento, no grande país da “democracia”, dos direitos humanos, das causas sociais, dos valores, da ética e da moral…). Palavras ditas na mesma frase que fazem ganhar um prémio darwin a quem elegeu o presidente actual.

Nós, na Europa, somos forçados a desembolsar o que o amigo americano deseja para apoiar mais guerras, desigualdades, pobreza, genocídio e avanço do extremismo da direita. 

A China (e Cuba em certa medida), com o seu sistema socialista, conseguiu erradicar a pobreza absoluta no seu imenso país; as desigualdades sociais são infinitamente menores e a segurança (um factor essencial para o bem-estar individual e colectivo) mostra ao Ocidente quais os factores que levam ao crescimento da extrema-direita.

Como chegámos aqui? 

Chegámos ao futebol. E, no jogo da final deste mundial de nações, concluo usando o meridiano de Greenwich: Enquanto a Ocidente cometemos os mesmos erros, esperando resultados diferentes com estes sistemas económicos e políticos mais conhecidos por “estou-me nas tintas para as pessoas queremos é negócios e lucros”, que não fazem senão mais do mesmo, estamos a levar uma enxurrada de golos vindos do Oriente com um sistema político e económico que derruba a agenda a Ocidente. 

Mostrando também o quanto de prémios Darwin iremos ganhar, se continuarmos a facilitar, deixando a defesa aberta para a entrada dos goleadores da extrema-direita. 

Epilogando e repetindo:

Seríamos todos mais felizes se vivessemos mais leves, só com o peso da bola. Hoje, há uma nação composta por dez ilhas vulcânicas habitadas por quinhentas mil almas e uma diáspora de um milhão e meio, perdida no horizonte do oceano Atlântico, descendentes de escravizados e de donos de escravizados (o perverso sistema económico e político que o Ocidente inventou dividindo pretos e brancos), que está a mostrar ao mundo os seus recursos naturais e humanos, pretos e mestiços, aquilo que se pode fazer com oportunidades. Cada jogador representa um povo feito de uma história enorme. Maior que ele próprio. 

Cabo Verde vai entrar em campo carregado de histórias de superação, sem a democracia vendida (cuidado Cabo Verde, ela nunca está garantida).

Se ganhar, o sentimento e a emoção serão indescritíveis. Se perder, mostra o quão poderosa é como nação. O sabor será sempre doce. 

Terá Bubista, Vozinha, Pico Lopes, Ryan, Amilcar Cabral e mais uns milhões de pretos e mestiços em campo e nas bancadas.

Política e bola jogarão juntas. 

A Argentina, país que há muito vendeu a sua alma a um sistema diabólico, está hoje nos antípodas de Cabo Verde. É uma nação que entra em campo com histórias de cisnes bailarinos como Maradona, Messi e, um pato bravo, Milei. Um país de ditaduras, do Movimento das Mães da Praça de Maio, um porto de abrigo de nazis (os tais da extrema-direita que estragam democracias, segundo as descobertas recentes dos benditos alemães), que se considera branca, superior, europeia, racista por dentro, discriminatória dos seus afrodescendentes, tricampeã do mundo. Eish, que palmarés!

Se podia falar de futebol sem falar de política? Podia. Como cidadãos do mundo, sabemos que tudo é política; contudo, não esqueçamos que nem tudo é futebol. Eu, por defeito, vejo a política primeiro, até dentro do futebol. 

Na história humana, deixámos entrar o ovo da serpente, o cavalo de Tróia que destrói democracias. Cabo Verde, nunca deixes entrar nenhum cavalo desses. Se te parecer com a extrema-direita, se grasnar como a extrema-direita, se roubar futuro como o faz a extrema-direita e se ameaçar a tua democracia, é extrema-direita. 

Uma é favorita por razões redondas. Enquanto a outra, a das improbabilidades, vinda de um mar azul imaculado, de cultura pujante, de histórias de vitórias e superações humanas, é já a maior do mundo. 

Cabo Verde, a tua dignidade e o espírito colectivo mostrados pela mão do técnico Bubista, já ganharam. O verdadeiro mestre de uma equipa. Como um dia o foi Amílcar Cabral, quando pegou nas rédeas das suas equipas, Guiné-Bissau e Cabo Verde, contra a favorita, e as levou rumo ao impensável. 

A dois dias de celebrar a sua independência, democracia e liberdade, desejo o melhor aos meus favoritos improváveis. Riba lá, tubarões azuis. 

Só tenho medo que a democracia – ameaçada que está pelos avanços da extrema-direita, agora confirmada por estudos alemães… – não seja ela a vencedora da taça. 

O resto é só futebol. 

Que seja uma boa coladera ku tango. 

Adenda:

Parabéns! O herói deste Mundial é nha terra Cabo Verde.

São os seus representantes, os tubarões-azuis. A sua falta no mundial da bola vai ser sentida.

Quanto orgulho pela garra, o orgulhoe a humildade mostrados. E o jogo sempre a mostrar o espírito de combate. Não se desiste, nunca. Obrigada, meu povo, Nha terra, Nha cretcheu. Hoje o mundo sabe quem vocês são. Mereciam ter ido ainda mais longe. Nu sta djuntu ku cachupa ku malgueta, ku tubaron. O futebol une as vozes. O espírito foi mostrado e visto. Tudo naquele jogo da selecção de Cabo Verde foi um show de bola. Foi linda a festa, pá. O prémio de jogo de equipas neste campeonato vai para a minha selecção, Cabo Verde no coração.     

Anabela Ferreira

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