@road 62

Escrevo porque preciso. Prefiro esta forma de comunicar a um vídeo de dois minutos. Estamos a perder a capacidade de ler textos, logo não desisto. Não uso a outra, quase inteligência, contudo artificial. Escrevo não sei para quem, mas será para quem é inteligente ao natural e para aquele que também ainda lê.

Como cronista de uma república laica, de arquitectura secular, filha de África, com profundas tradições culturais ubuntu entre povos bantu, avó, preta, características fenotípicas e genótípicas da espécie num determinado momento da nossa história, mulher alfa e ómega – porque todos somos princípio, meio e fim – contemporânea numa época. Escrevo o que observo, inspiro e experimento. Seja o tema que for.

Somos garimpeiros por defeito. Vem no código genético da espécie. Foi assim que começámos como habitantes cósmicos nas margens destas galáxias. Hoje aqui continuamos e aqui estaremos no futuro. Pequenos perante a imponência dos oceanos das vias galácticas. As vias lácteas suceder-se-ão; outros iguais a nós virão, cada um de nós,não. Um dia a cortina desce. A humanidade continuará a vencer desafios e obstáculos. 

Este texto é sobre o tempo que corre. Estamos mais sós. Temos menos redes de apoio; estamos mais desligados uns dos outros. A fibra está frágil. Precisamos cuidar dela. 

Desde que fomos forçados – com uma pandemia que nos roubou o pulmão de que somos feitos neste universo – a fechar-nos socialmente, nada está bem, nem ficou bem. Muito menos, melhor do que estava.

Estão-nos a piratear e a roubar descaradamente o programa com o qual nascemos. Vejamos as ligações no espaço. Deveria ser assim, cá embaixo. Como é natural nas ligações entre os elementos da tabela periódica que nos compõe somos seres interligados.

Sabemos, por outros antes de nós, que um vírus sexualmente transmissível nos dá vida, com um prazo de validade escondido, cem por cento garantido.

O que fazemos aqui? 

Relacionamo-nos uns com os outros com a confiança depositada pelo programa. Se nos tirarem da Via Láctea, somos a estrela desconectada no meio da galáxia, num buraco negro mergulhada.

No meu canto perdido do universo, uma aldeia saloia remota e irrelevante, onde habitaram Romanos, a serra de Sintra como pano de fundo e o mar como tapete de banho, desde tenra idade vivo cuidando dos que vivem ao meu redor. Uma enorme família alargada como se de uma aldeia se tratasse, por ruas de tribos. Tenho aprendido sobre o significado de cuidar. Tendo ultrapassado a esperança de vida dos meus bisavós, sigo na estrada cada vez mais como participante observadora, pertencente, agregadora por natureza, num tecido de defeitos tecida. Como tu ou o nosso vizinho. 

Tenho o privilégio de vir de mundos e meios diversos; por isso, vejo aqueles que têm menos privilégios do que eu. Venho de planetas que vejo expandir-se e contrair-se como um coração num corpo que inspira, sustém, expira. 

Todos vimos. Daí ser pateta, inútil e vergonhoso tornarmo-nos o idiota da aldeia, o cão que defende o dono que nos faz dormir ao relento, esquecendo as origens. De nos esquecermos de agradecer, de dizer bom dia, de estender a mão ou de saudar um desconhecido. Sobretudo nos tempos de guerra que atravessamos, com quebras graves na corrente da empatia.

Não deveríamos viver a olhar sobre o ombro, com medo de sermos surpreendidos por uma facada vinda das mãos de quem confiamos. Ou vendermo-nos por pouco mais de trinta dinheiros. Ou desmantelarmos a beleza dos cenários que construímos. 

Somos melhores do que isto e, no entanto, vivemos numa zona de guerra rodeados por sádicos – aqueles que obtêm prazer com o sofrimento dos outros. Aqueles que sabem que causam angústia no sistema nervoso dos outros, que desarranjam as vidas, sendo essa a forma de obter prazer. Dessa forma, sentem-se relevantes e poderosos com e por conta dessas acções. Que tristes seres humanos são.

São-no talvez porque não têm relações autênticas, sem um sentido profundo de existência. No final das nossas contas, a vida não é harmoniosa nem equilibrada. Nem tão pouco precisamos nos mostrar em constante estado de felicidade e equilíbrio. Nem nos livros nem nos filmes, a vida é assim.

Há sempre um electrocardiograma a acontecer. Curvas para cima, curvas para baixo. Vivemos no fio da navalha, a tentar respirar à tona d’água, sobretudo nos dias de hoje, em equilíbrio precário.

Tenho para mim que precisamos manter algo próximo do coração- a ideia de sermos, sem medo nem culpa, periodicamente, desequilibrados e gritar: não. Este é o nosso desafio actual.

Esta é uma crónica de reflexão. Em Bissau ou no Sudão, em Gaza ou na desenvolvida América do Norte, no Norte ou no Sul, estamos a anos-luz da Idade Média e, no entanto, tão nas trevas.

Como noutros períodos da história desta nobre espécie, neste canto da galáxia, inventámos sistemas e estruturas de casas para justificar os maiores crimes contra a humanidade, escondidos atrás da máscara de uma religião ou de qualquer outra justificação porque queremos esquecer quem somos:

-O caso do cristão que inventou o racismo para justificar o lucro que advinha da exploração humana da cor de pele escura trazendo a escravatura. A desculpa cristã para o pecado foi a inferioridade do homem preto. Ideologia nascida há cinco séculos e que perdura até hoje. 

– O caso do judeu que comete um genocídio para justificar a auto-defesa, protegendo o seu poder, território e  lucro. Processo em curso.

– O caso do muçulmano que inventou a castração para ter escravos obedientes e sem ambições, justificando a ganância e o poder.

Esta é uma crónica sobre a necessidade humana de estabelecer laços, o segredo do progresso, dos avanços com saltos quânticos a partir dos quais se estabelecem relações genuínas que dão saúde, prosperidade, equilíbrio e felicidade, no precário tempo de existência nesta imensa galáxia.

De primatas nas quatro patas a seres pensantes, sencientes. Como garimpeiros, estamos numa bifurcação. Que casa queremos deixar? 

Qual é o caminho que vamos preferir percorrer? E ser? 

Lembra-te; no teu funeral vão estar presentes aqueles que restarem da tua tribo, com quem estabeleceste um cordão invisível. Será essa a luz a brilhar. 

O resto? É silêncio! 

Só no final vou lavar os pratos. 

PS: Se chegaste até aqui, gostas de ler; além disso, o algoritmo encontrou-te. O que cada vez é mais raro, mas acontece muito… (segundo as minhas estatísticas).

Anabela Ferreira

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