Um Lorde de quatro patas

O Kiko morreu hoje, às 18h00. Tinha 15 anos e nunca, em todo esse tempo, mentiu a ninguém.

Mais de cinco mil dias. Num País onde se promete tudo e se cumpre pouco, ele cumpriu todos.

O nome completo era Kiko I da Sinfonia de Shakira. Com numeral e tudo. Nome de Lorde, porque o Kiko era de facto um Lorde, um ser superior que teve a gentileza de partilhar connosco a vida inteira.

Zangava-se, claro que se zangava. Tinha mau feitio, claro que tinha. Ficava melindrado, virava as costas, fazia aquele ar de ofendido que só um cão consegue fazer com dignidade. E depois era sempre o primeiro a dar o passo. Sempre. Nunca o vi esperar por um pedido de desculpas, nunca o vi guardar uma mágoa como quem guarda um trunfo para a próxima discussão.

Conheço gente com cursos, cargos e gabinete que nunca aprendeu isto. Animais de duas patas que passam a vida a arquivar rancores e chamam a isso carácter.

Sabia quando alguém estava bem e quando alguém estava mal. Ninguém lhe explicou, não houve formação em inteligência emocional, nem workshop, nem certificado. Chegava-se ao pé, ou desatava a brincar, conforme fosse preciso. Há bípedes que vivem décadas ao lado de outras pessoas e não percebem metade.

Estava lá nos dias bons, e nos outros também. Nos outros, sobretudo. Era o centro da casa sem nunca ter pedido o lugar, e pertencia à família como pertencem as coisas que não se discutem.

Há duas fotografias dele que vão ficar. Numa está sentado à mesa, como mais um de nós, porque era. Na outra tem uns óculos postos e finge ler um livro. Nunca me disse o que achou. Mas li demasiados pareceres para não reconhecer um leitor atento quando vejo um.

Foi isto que o Kiko ensinou, sem nunca dar uma lição: que a vida é uma só, que não se gasta em orgulhos, que o carinho não precisa de discurso e que a humildade é estar ao pé de quem nos faz falta.

Passou ao oriente eterno, deixando a casa exactamente do tamanho que sempre teve. Só que agora é grande demais.

O melhor companheiro e amigo que alguém pode almejar ter. Não é opinião. É facto.

Jacinto Furtado

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *