O que fica nos livros

Uma mancha de sangue na página 68, a meio do texto sobre a palavra “vulnerável”, esbatida. Com o tempo, o vermelho foi desaparecendo até se imortalizar numa espécie de bordéus ressequido. Uma pincelada, apenas. Um borrão. Alguém que sangrou do nariz e terá passado um dedo desatento pela leitura? Um espinho de rosa que picou…

Saber ler as estrelas

Em outubro do ano passado, o Supremo Tribunal Federal do Brasil permitiu, numa decisão à justa, de seis votos contra cinco, a detenção de um réu em processo criminal, antes de terem ficado esgotadas todas as possibilidades de recurso. O STF fundamentou esta sua decisão inédita declarando que uma dupla condenação, em primeira instância e…

Chorar sobre o leite derramado

Tornou-se um desígnio nacional reagir em vez de agir, remediar em vez de prevenir. Acresce a versão mais grave, quando interessa não se age nem se reage, não se previne nem se remedeia. Exemplos não faltam, na Alemanha houve corruptores condenados por terem corrompido o negócio da compra dos submarinos, em Portugal não se agiu…

Spell Choir – Amar pelos dois

Estávamos no outono de 2015, nas árvores as folhas começavam a amarelar e a caírem, foi o momento em que um grupo de jovens se juntou para formar um grupo musical muito especial. Utilizam o mais sofisticado instrumento musical até hoje desenvolvido, as suas próprias cordas vocais. O resultado da conjugação das vozes dos vários…

A vergonha em forma de tacho: Autoridades, Entidades e Institutos “reguladores”

Em particular de há uns anos para cá, e sempre sob a pomposa capa da “desconcentração administrativa”, do “modelo das agências reguladoras” e da “isenção e independência” da gestão e supervisão, multiplicaram-se as chamadas “Autoridades Nacionais” (como as da Concorrência, da Protecção Civil e da Aviação Civil), “Entidades Reguladoras” (como as da Energia e da…

Barbearia Firme

Numa rua com um nome de que ninguém se lembra – nem o escritor nem os leitores nem sequer o revisor que, sendo o mesmo que o primeiro, apenas se recorda de algumas letras, de sonoridades vagas, difusas palpitações –, existe a Barbearia Firme, propriedade antiga de Abílio Firme, o Mestre nas artes da confecção…

O País dos Franzidinhos (por João Prudêncio)

Chamava-lhe, cá para mim, o Franzidinho. Na Baixa de Lisboa, entre os transeuntes, lá estava ele todos os dias, agachado nas escadas do Metro, fingindo a cegueira na calçada portuguesa do Rossio, de mealheiro profissional e tudo. Quando não era cego era paralítico. Depois, noutras ocasiões, o Franzidinho (assim lhe chamava cá para mim porque…