Era uma vez… a luta de classes no país do açaí no topo da torta

Imaginem um relógio num jogo de basquetebol a marcar 47/45. O relógio tem o tempo suspenso. Até ao dia do segundo turno. Tudo pode acontecer.
Faltam 16 segundos para o jogo terminar… Lula da Silva recebeu perto de 54 milhões (45%) de votos. Flávio Bolsonaro obteve 56 milhões de votos (47%). Mais de 30 milhões de brasileiros não foram votar. Podem e devem ir ao segundo turno.
A equipa contrária quer vencer pelo medo, mas não há maior medo a ter que o precipício que se avista se ela ganhar o jogo.
Mirem-se no exemplo daquelas terras, americanas…a sul. O jogo tem em aberto uma guerra de guerrilha como forma de protesto. Mobilizações gigantes já estão a acontecer. Uma guerrilha pacífica. Fazendo lembrar a guerrilha (contudo nada pacífica), Vietnamita, que fez cair o monstro imperador, a norte. Se mirarmos o exemplo a norte percebemos o quanto o não devemos querer repetir a sul.
O jogo é uma luta pela civilização, pela democracia – o velho modelo grego onde um governo é do povo para o povo.
Não sou brasileira nem voto no Brasil. Sou uma cidadã com gosto por seguir o mundo, a política e na escrita me expresso no combate contra o estado do mundo, sobretudo naquela que é hoje acentuada a luta de classes. Não jogo o jogo do ódio nem da divisão. Formo uma opinião baseada na observação, a ouvir quem sabe, a estudar a História da humanidade. O regresso à Idade Média ou a tempos mais recentes da História do século dezanove deveria estar vetado pelas populações no mundo. Deveria fazer parte de um império de lucidez. Infelizmente não faz.
Como garimpeira de histórias, o Brasil atiça a minha curiosidade. Tanto quanto atiça a cobiça daqueles que querem as suas riquezas só para si. As riquezas são o prémio do jogo. A pergunta que fica para o final do jogo é “que país de futuro quer o Brasil ser?”. O relógio está em contagem decrescente. O Brasil é feito de muitos mundos diferentes, várias classes e várias graduações de tons entre o preto e o branco.
Tem um passado brutal, de violência, de pobreza, de saque, de abandono de milhões de habitantes, de tortura, de exploração, tão gigante quanto o seu tamanho. A violência e o abuso são duas grandes fatias da sua história. Estas reflectem-se em todos os sectores. Seja qual for a forma de violência e abuso: racial, educacional, financeira, de género e naturalmente de classe. No entanto, o crescimento dos brasileiros nos últimos anos, aqueles que o Lula da Silva teve o destino do país nas mãos foi de expansão vertiginosa (incluindo todos os erros).
Para imaginar o futuro preciso imaginar o passado com o espanto dos navegadores Portugueses, por altura da Páscoa a desembarcar em terras de Vera Cruz (a verdadeira cruz de Cristo).
Sabemos que os navegadores eram Cruzados em busca da Terra Santa, por esta razão em mil e quinhentos, a religiosidade não faltava. Mal sabiam das riquezas daquela que julgavam uma Ilha, quando afinal se revelaria um continente, nas mãos de povos Índios, pacíficos, escondendo riquezas infinitas. Imaginem quando descobriram o que de lá podiam sacar. Se bem pensarem, melhor fizeram. Instalado o padrão e a cruz a ganância tomava conta. Importaram milhões de negros escravizados para trabalhar gratuitamente a explorar os recursos naturais que avolumaram os bolsos de uns poucos brancos.
Os descendentes de Cabral e de Dom Pedro não querem nem dividir nem sair da Casa Grande. O resto que fique na sanzala. Ontem, não quiseram a democracia. Nem hoje a querem. No final da escravatura (final do século XIX) o desgraçado preto livre, sem casa para viver, sem dinheiro nem terra ia para uma qualquer favela que encontrasse onde houvesse espaço para a sua sobrevivência. Como se de um animal derrotado se tratasse.
Ele o derrotado, que afinal tinha engrossado os bolsos dos brancos, donos da sua vida. Ele que tinha feito o café florescer, o ouro tornar-se moeda, ele que apanhou toda a cana de onde tirou açúcar e fez cachaça, ele que navegou todos os rios, ele que arou todas as terras, plantou e colheu todos os alimentos, que a partir do gumbé e do semba inventou o samba, ele que sendo ignorante e preto, construiu os alicerces da casa grande deste seu grande país.
Para a favela seria mandado. Lula da Silva deu início ao inverso do processo, ontem. Amanhã é o único a garantir que o caminho em frente pode continuar. A história só por si é uma novela com todos os ingredientes de um vatapá.
O autoritarismo, a força do bastão e a divisão de classes é o credo e a reza do brasileiro que tem estado no poder. Mesmo para quem não gosta do Lula da Silva ou do PT, se pensar em entregar o poder ao submundo do modelo da extrema-direita, vai-se dar mal. Mirem-se no exemplo daqueles políticos em Washington.
Sabemos – porque tem defeito de fabrico e sem garantia de substituição – que o modelo da extrema direita não é amigo do povo, dos direitos iguais para todos. Defende aliás a divisão e a manutenção de classes profundamente desiguais onde um grupo é superior a outro. Por regra a supremacia está com o branco, rico, com privilégios adquiridos por nascimento. O mérito só é exigido aos mais pobres. Que raramente têm condições, logo a luta é infinitamente maior e a visibilidade dos seus talentos quase nula.
O espanto português de ontem é exactamente o mesmo com que o regime/modelo da extrema-direita dos actuais dirigentes dos Estados Unidos – o novo império colonizador – olha para este grande e rico país. “Todo aquele continente pode ser nosso…”
Nele conflui aquele que é chamado o sindicato Epstein a norte. Este reuniu inteligência (serviços secretos) de braço dado com a chantagem, o sionismo, as empresas de estudo e manipulação do sistema financeiro global, adicionando os algoritmos preparados para utilizar dados e manipular resultados. Um toque de dendém com a força da fé dos vigaristas ditos evangélicos no deus dinheiro, para o controle total. A feijoada está pronta a servir.
É esta a ambição para a conquista do Brasil. Comprar a família Bolsonaro foi fácil. Pecados, pecadilhos, corrupção e dinheiro são cacau e leite condensado suficientes para fazer brigadeiros.
Como atirar para o colo um país desta grandeza a uma família que já deu provas ao que vem? Só os quer quem não vem por bem!
A extrema-direita para consolidar a sua distopia precisa mudar as regras do jogo da democracia. Como o faz? Com manipulação, golpes baixos, canalhice, vigarice, gritos e truculência, apelos à emoção, são a sua bosta nova.
Basta estar atento para perceber que para milhões de brasileiros (e já agora, onde a extrema direita está a invadir com o seu poder e os seus fundos de investimento, corporações e negócios que não pagam impostos), os direitos humanos de saúde, habitação, reforma, educação e igualdade social não são um capricho para os mais pobres. São uma visão de um futuro inevitável.
E o inevitável novo chega sempre, quer os velhos queiram quer não. No Brasil não será diferente. O placard pode mudar o resultado. A História já provou que essa é uma enorme possibilidade. Neste jogo, cada segundo conta.
Ser soberano ou ser quintal? Olhe-se atentamente o passado e agora vire-se a direcção do barco. É preciso imaginar o futuro!
Anabela Ferreira
