O yin e o yang do poder e controlo

Uns apontamentos sobre a chuva que cai lá fora, sete dias depois do 25 de Abril e um dia a seguir ao primeiro de Maio.

Datas de celebração da revolta humana sobre sistemas tirânicos e distópicos. 

O yin e o yang do poder e controlo. Contudo…

Não pedi para nascer e agora que nasci e estou aqui, dizem-me que vou morrer. Apesar de nem querer. A vida segue veloz, desnatada, e eu, faminta. De vida. 

Que fazemos? 

Vivemos como pedrinhas na engrenagem, úteis até deixarmos de o ser, visíveis por conveniência até nos tornarmos um fardo, relembro a pergunta:

– poder-nos-emos transformar?  

Isto é cruel! Vivemos num sistema cruel.

 De um lado o pau, do outro a cenoura, ambos usados para sermos controlados, dependendo da geografia e latitude. 

Nos sistemas tirânicos, ou distópicos, o poder e controle são o seu yin e yang. 

A manipulação, a opressão e a coerção, são as armas para assegurar a repressão. 

A punição e o prémio são usados para assegurar o funcionamento do sistema de divisão. 

Foram espelhados e ensinados, em particular nos três contos, de Orwell, Huxley e Kafka. Atwood contou recentemente a distopia misógina noutro conto, porém com os mesmos objetivos. Todos a acontecer em certo grau e medida. 

Não é incrível?

Vimos ao muro das lamentações carpir e elevar. Mostrar o nu, as roupas, as vergastadas, as cores, as dores, as desilusões, os encantamentos. Eu assumidamente venho. 

A vida é o meu encantamento. Os outros com quem me relaciono são o meu alimento. 

Não pedimos para cá estar, contudo, enquanto estamos, queremos ser vistos, nem que seja por um muro, porque já agora, não queremos morrer. 

Porque falo nisto? Porque a nossa natureza é colaborativa, social e participativa. 

Somos seres partilháveis de valor acrescentado à vida. 

É o que fazemos e ainda bem. Ou as redes e os jornais e todas as formas de comunicação social não seriam um sucesso. Aqui podemos mostrar que isto está errado. Ou certo. Que percorremos o caminho. Que está é também uma trincheira, nossa e de Hemingway. 

Não que este muro seja visto, ou relevante para o algoritmo. Dizia-me (e disse-o na poesia) o meu amigo Al Berto – “não sabemos para quem escrevemos”. 

Eu vejo a minha utilidade, nem que seja na fantasia. E escrever é uma utilidade.  

Talvez seja útil para alguém que como eu sabe que vive uma distopia, como forma de dizer: “ei, nós pequeninos, estamos todos juntos na engrenagem”. Vamos colocar pedrinhas dentro dela. 

Só numa ilusão paralela alguém se pode considerar fora dela. 

Vivi dentro da tirania, conheci-a por dentro. É muito feia. 

Os livros de que falo –  precisamos de os conhecer mais que nunca – falam para a humanidade que somos, como colectivo, a viver em distopia. Com um milhão e trezentos a acreditar num vendilhão do templo, Portugal está em perigo, adormecido, quase a despertar encostado às cordas de uma distopia.

O poder e o controle usam todas as armas ao seu alcance para nos terem debaixo de um véu pesado onde acontece a metamorfose. 

1984 de Orwell, O admirável mundo novo de Huxley e a Metamorfose de Kafka falam de tiranias que usam diferentes técnicas, estudadas, usadas em diferentes proporções, consoante as culturas e lugares, como na China, na Coreia do Norte, na Rússia, nos Estados Unidos da América, na América Latina, Israel e o seu estado zionista, e por fim a espalhar-se pela Europa, como as metástases de um cancro. 

O único objectivo é o de transformar o ser humano num bicho submisso, inútil, invisível, vazio e destruído por dentro. Incapaz de se revoltar. 

Que sede de poder e controle é essa, meus deuses? 

Se eu vier a ser apresentada a deus, enquanto estivermos a beber um rum, ele vai ter muitas explicações a dar. E desculpas a pedir. Não havia necessidade…

Mas cuidado. Todo o cuidado. 

Afinal onde estamos? 

Parece que numa máquina com uma engrenagem que descarregou um programa detalhado, bem cuidado, de uma distopia feita para nos submeter, entretendo com muita vulgaridade e ignorância misturada, dando a impressão de liberdade, a falsa sensação de democracia, usando a dessensibilização para com a degradação moral ética, sobre a violência e o mal. 

Estamos a cumprir o programa vivendo enjaulados, sem reparar na porta. 

Com um pau que numa ponta é usado para infligir dor e na outra a tal cenoura de incentivo às manobras de implantação da distopia. 

E a vida é muito mais que isso. Como humanos temos um super poder – o de dar sentido à vida. É a nossa única obrigação. Não esqueçamos quem somos, quem viemos ser. 

Somos poetas, operários, humanos maiores, em construção. 

Anabela Ferreira

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